4ª Feira

Ao longo da hominização, a espécie humana atingiu primeiro a fase do homo faber (o homem que faz, que consegue usar recursos da Natureza para a dominar, pelo menos em parte) e só depois a do homo sapiens (a do homem que sabe, que reflecte sobre o que faz, o como e o porquê, o que significa que para além de dominar a Natureza produz conhecimento sobre ela e o transmite de geração em geração não apenas pela demonstração prática, mas pela explicação teórica, pela linguagem.

Se quisermos fazer uma analogia simples. mas não necessariamente simplista, o homo faber é o que tem a competência de fazer (o homem hábil, ou homo habilis), enquanto o homo sapiens tem a capacidade de reflectir sobre o que faz e por maioria de razão o homo sapiens sapiens.

Considerar que a Educação deve submeter-se à lógica das competências reduz os indivíduos à condição e utilizadores, de aplicadores de técnicas adquiridas ou, pior nas versões construtivistas, de permanente redescoberta dessas técnicas e das competências associadas. O desprezo pela transmissão dos conhecimentos codificados ao longo do tempo a par da apropriação do método experimental e científico como processo de verificação da validade dos conhecimentos, significa um recuo na própria evolução da condição humana, um pouco na esteira do que Hannah Arendt escreveu n’A Condição Humana acerca do modo como os tempos modernos reduziram parte da Humanidade à condição de meros animais que trabalham (Homo laborans), ou seja, seres que sabem usar instrumentos para produzir algo mas pouco mais.

A Condição Humana. Rio de Janeiro, 2007, p. 157.

A redução do ensino público a uma lógica de Educação Mínima, em que o “saber fazer” se sobrepõe ao conhecimento teórico – dito “enciclopédico” -, em que a competência do indivíduo é desligada da sua capacidade de reflectir sobre o que faz, conduz a Escola Pública para um estatuto de menorização e de formação de indivíduos que nunca poderão ser verdadeiramente reflexivos ou críticos, porque lhes foi retirado o acesso à informação não prática, aos saberes teóricos, transformando-os apenas em homens que fazem, homens hábeis, homens que trabalham, mas não a homens que sabem. A legitimação das “Aprendizagens essenciais” como padrão do ensino público significa a vitória da concepção mecanicista do homem autómato, que necessita apenas do “essencial” para estar ao serviço de um modelo de sociedade que cada vez mais acentua as desigualdades e os fenómenos de dominação com base no acesso e uso da informação. Há os que sabem e os que fazem. A Educação Mínima é para os que fazem. Os que querem mais serão obrigados a escapar dessa prisão pintada com o dourado falso de “sucesso” mínimo.

O homem que sabe é o que compreende. Não sendo a única via para a Educação, não pode ser afastada como sendo de menor importância, aborrecida, arcaica, tradicional, conservadora. Pelo contrário, sem a compreensão, a “transformação” limita-se aos fenómenos concretos do mundo do trabalho pouco qualificado, mesmo que certificado. Sem a compreensão teórica, não existe a transformação mais perigosa para os poderes que estão, a que nasce da capacidade de pensar sobre a realidade e questionar os modelos apresentados como únicos.

(não me esqueci do homo ludens, mas amanhã também é dia…)

24 thoughts on “4ª Feira

  1. Excelente texto. Na verdade, cada vez mais nos impõem a ideia de um conhecimento especializado, cada vez mais ínfimo nessa especialização, esquecendo a base de conhecimentos que deverão fazer o diferencial entre ser um mero executor ou um provável pensador e imaginativo e argumentativo. Creio que decorre da velocidade a que a nova sociedade vive e implementa o ritmo. Pois mais máquinas e gadgets que tenhamos para mais tempo livre, na verdade estamos mais escravos de não ter tempo para nós e para os outros.
    Este seu texto merece ser copiado e colado em tudo quanto é cata das futuras actas de reuniões que irão decorrer, se é que já não estão a decorrer, para formatar-se o que deve ser competência , conhecimento, aprendizagem essencial, and so on.
    Obrigado.

    Gostar

  2. Nada mais lamentável do que ouvir dizer que o que se aprende não serve para nada, ou não vai servir para nada. O saber transcende o servir-para. É nessa transcendência que reside o seu valor. De resto, e descendo o nível de análise para o nível do “discurso” (na verdade, não são mais do que frases soltas) a que me estou a reportar, percebe-se a lógica: a Física e Química, a História, a Matemática não vão servir nada, pois não, se o que se espera é que o futuro trabalhador pergunte durante todo o dia se o cliente tem o cartão Pingo Doce e quer factura com número de contribuinte. A este propósito, chamo a atenção que a ressurgência do discurso eduquês se faz em paralelo, ou melhor, em convergência com a promoção do ensino profissional, contra o ensino científico-humanístico, do Novas Oportunidades/Qualifica, contra o ensino recorrente.
    Ao contrário do que o palhaço do Alecrom anda sempre pelas caixas de comentários a insinuar, o que se passa em Portugal em termos educativos não é o cumprimento de um programa socialista ou comunista, mas neoliberal. Tão-só. O partido que está no governo pode ter o termo socialista no nome, mas nem na gaveta tem o socialismo, porque o meteu entretanto num baú acorrentado que lançou ao fundo do mar.

    Gostar

    1. Agradeço a referência ao Alecrom.
      Tem, de facto, uma costela palhaça. Adoro palhaços.
      Para ver se consigo perceber…
      O PCP é neo quê?
      Neocomunista?
      Neossocialista?
      Quem vai neoaprovar o próximo orçamento?
      Quem garantirá a próxima legislatura neogeringonça?
      O NeoBE ou o NeoPCP?

      Gostar

      1. Voltem a votar na filha daquele que recebeu 5000€, numa sessão de propaganda, da famigerada mlr.
        Lembram-se? Esperavam o quê, do be? Democracia nas escolas?! De um partido que é o chega do outro “hemisfério”?
        Nem gestão democrática, nem tempo de serviço, nem horários legais…
        Sobraram as perseguições nas escolas, os bufos, o tráfico de influências…um cheiro a bafio salazarento insuportável.
        O bloco limitou-se a enganar os professores com encenações previamente articuladas com o ps.
        Voltem a acreditar nas mentiras do be!

        Gostar

      2. É óbvio que é um palhaço de vistas curtas. Não lei apenas jornais, ou o Observador. Leia livros. Livros teóricos. Daqueles com muitas páginas e ideias densas. Leia Marx. Leia Rosa Luxemburg. Leia Zizek. Leia Badiou. Leia Richard Wolff. Talvez assim passe a perceber algo a respeito do qual tem tantas certezas de ignorante. O PCP e o BE são partidos capitalistas.

        Gostar

      3. Qualquer um com dois dedos de testa já percebeu que aquilo que o Alecron quer aqui é capitalizar tudo o que lhe aprouver para a sua causa direitista. Não é a discussão ou o aprofundamento das questões, e as críticas que daí se possam retirar qualquer que seja o seu sentido.
        O que lhe interessa é o labéu de socialismo ou comunismo – independentemente do que isso possa ser – e o rótulo de quem o possa ostentar no momento. Percebe-se perfeitamente que esta figura tem uma agenda, a descoberto.

        Gostar

    2. Já toda a gente percebeu que o Alecrom não é professor, é um direitolas que arranjou aqui poiso como tantos outros que nascem como cogumelos na net. É uma rémora que se agarrou ao Paulo Guinote e, apesar de ninguém lhe dar troco, acaba por estragar a caixa de comentários de um bom blogue e afastar professores que até teriam algumas coisas a dizer.

      Gostar

      1. Sou professor.
        Sou de direita.
        Tenho aqui um pouso.
        Quase só tu me dás troco.
        Estragarei o ego a muitos.

        Habitua-te
        Vais ver que consegues.

        Gostar

  3. Republicou isto em Primeiro Ciclo and commented:
    A redução do ensino público a uma lógica de Educação Mínima, em que o “saber fazer” se sobrepõe ao conhecimento teórico – dito “enciclopédico” -, em que a competência do indivíduo é desligada da sua capacidade de reflectir sobre o que faz, conduz a Escola Pública para um estatuto de menorização e de formação de indivíduos que nunca poderão ser verdadeiramente reflexivos ou críticos, porque lhes foi retirado o acesso à informação não prática, aos saberes teóricos, transformando-os apenas em homens que fazem, homens hábeis, homens que trabalham, mas não a homens que sabem. A legitimação das “Aprendizagens essenciais” como padrão do ensino público significa a vitória da concepção mecanicista do homem autómato, que necessita apenas do “essencial” para estar ao serviço de um modelo de sociedade que cada vez mais acentua as desigualdades e os fenómenos de dominação com base no acesso e uso da informação. Há os que sabem e os que fazem. A Educação Mínima é para os que fazem. Os que querem mais serão obrigados a escapar dessa prisão pintada com o dourado falso de “sucesso” mínimo.

    O homem que sabe é o que compreende. Não sendo a única via para a Educação, não pode ser afastada como sendo de menor importância, aborrecida, arcaica, tradicional, conservadora. Pelo contrário, sem a compreensão, a “transformação” limita-se aos fenómenos concretos do mundo do trabalho pouco qualificado, mesmo que certificado. Sem a compreensão teórica, não existe a transformação mais perigosa para os poderes que estão, a que nasce da capacidade de pensar sobre a realidade e questionar os modelos apresentados como únicos.

    Gostar

  4. RF,
    Agradeço também o teu novo post.
    Vejo que mexo contigo.
    “O PCP e o BE são partidos capitalistas”?
    Então vou tentar olhar para eles de outra forma.
    Aproveito para te colocar uma ou duas questões.
    Não achas que devíamos aplicar aos “partidos capitalistas” a receita cubana?
    Não achas que os responsáveis deste blogue me devia censurar?
    Não achas que o mundo seria melhor se todos fossem como tu?
    Beijinho.

    Gostar

    1. Desculpa, esqueci-me…
      gosto de ler os teus comentários e acho que enriquecem o blog. Não és dissimulado.
      Obrigado.

      Ps. Por respeito ao espírito do blog (como eu o entendo), não darei continuidade a esta nossa conversa tipo chat. Mas foi um gosto.

      Gostar

  5. Ruas,
    isso mesmo, causa de direita e a descoberto, sem enganar ninguém.
    Agora, convirás, sentido crítico não me tem faltado. E olha que a crítica, genuína, sentida e convicta, é sempre algo de positivo.
    Obrigado.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.