4ª Feira

Sempre procurei que os meus alunos fossem além do “essencial”, que não se satisfizessem com o mínimo. Nem sempre o consegui, mas tentei, porque acredito que a Educação serve para isso. Mas agora parece que o “essencial” é o horizonte definido como ideal porque se optou por nivelar tudo por baixo, argumentando-se que é assim que ninguém fica para trás. desta forma, é que mais gente fica para trás ou, pelo menos, mais longe dos que seguem bem na frente. é um acto de rendição que me incomoda, por muito que o envernizem de outra coisa. Nas famigeradas “redes sociais” (leia-se facebook, o ambiente natural virtual da maioria dos professores) há quem ache que assim é que está bem, porque é assim que têm trabalhado e têm-se dado bem e tal. Sim, certo, claro que ensinar o “essencial” é menos complicado, em especial em ambientes problemáticos, do que tentar ir mais além. Mas haveria que ver um pouco mais longe do que dar apenas pão e água a quem tem fome e achar que é assim que o problema se soluciona. O “essencial” como regra é admitir que a Escola Pública prescindiu de – como é que aqueles “poetas da pedagogia” costumavam dizer? – ensinar a “voar”.

Ora, se é mesmo apenas para ensinar a andar a pé, devagarinho, realmente há quem como eu, “elitista” de acordo com certas miopias, comece a estar a mais no meio disto. Realmente é mesmo melhor começarem a recrutar professores, eles próprios formados apenas no “essencial”, porque assim criam menos problemas, colocam menos dúvidas e aquiescem com muito mais facilidade a todo e qualquer desmando.

11 thoughts on “4ª Feira

  1. Duvido que o problema seja etário, é apenas dos sectários do secretário e de outros dromedários (ok, já parei…).
    O termo “essencial” tem uma conotação que, apesar de tudo, é positiva. Do que se trata é de estipular um mínimo. Acontece é que, depois, “para não deixar ninguém para trás”, se define um mínimo desse mínimo, e a seguir um mínimo do mínimo desse mínimo, etc.

    Gostar

      1. Reli o meu comentário e pude perceber que não fui claro no segundo parágrafo. O que quis dizer, em linha com a post, é que a fasquia do mínimo, tomado este como o programa de cada disciplina, implica, na prática, a redefinição de novos mínimos para os “coitadinhos dos meninos”, baixando sempre a exigência, isto é, a estimulação efectiva dos alunos.

        Gostar

  2. Mais uma análise magnífica acerca da realidade que nos é imposta enquanto professores!
    Vou arguir dois relatórios de estágio que conferem o título de Mestre numa Escola Superior de Educação e apercebo-me da forma ‘essencial’ (reduzida) como tudo é analisado…
    Parabéns! Espero que alguém consiga sobreviver deste reducionismo imposto!

    Gostar

  3. Paulo, já vem na Bíblia: “o Conhecimento traz infelicidade”. É esse o lema dessa gente. Só que não souberam interpretar o texto bíblico. A ideia é que o “Homem” seja conduzido a superar as suas limitações e a não contentar-se com o básico. O que será destas gerações, deste pais, sem ambição para além dos “objetivos mínimos” (outra invenção infeliz)?

    No texto bíblico também diz: “bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles será o reino dos Céus”. Só que estes “pobres de espírito” que estão no poleiro estão condenados ao inferno pelo mal que estão a fazer às criancinhas.

    Eu costumo dizer aos meus alunos que todos têm de trabalhar para o 20. Se chegam lá ou não, é outra história e depois logo se vê. Agora, vou dizer-lhes que todos têm de trabalhar para o 10? Nem morto. Para essas abéculas que estão no poleiro: Que se vão se catar, mas é.

    Gostar

    1. Manuel

      Como muito bem refere, essa dos “objectivos mínimos” é uma invenção infeliz. Não poderiam substituir o “mínimos”?
      É que , em muitas cabecinhas, induz : ” faz isso pelos mínimos, pá. P`ra quê ir mais além?”
      Deplorável mensagem subliminarmente transmitida. A linguagem “eduquesa” é paupérrima.

      Gostar

  4. Realmente… Com esses mínimos como objetivo final, qualquer professor de qualquer disciplina leciona outra qualquer.

    Um prof de história leciona informática, um prof de informática, leciona geografia, um prof de matemática leciona FQ, etc etc…
    Força nisso… QQ dia somos a escola pública brasileira. Aquele modelo mundial de qualidade.

    Gostar

    1. É curioso não se ter notado que num dos tais “roteiros” está previsto o professor de Matemática dar TIC no 3.º Ciclo (enquanto o de TIC, licendiado em Informática, vai dar ao 2.º Ciclo!)

      Gostar

  5. Há tanto tempo que sinto revolta por todas estas políticas educativas que valorizam a mediocridade. Assusta-me a má preparação destas gerações, sabem que passam, na maioria das disciplinas, sem nada fazerem. Só uma minoria é, realmente, muito boa. Os restantes deixam o tempo passar. Continuo a manter-me fiel aos meus princípios, mas cada vez mais isolada e abafada por estatísticas de quase 100% de taxas de sucesso, quando andam um ano letivo a queixarem-se dos Alunos. Não entendo! Confesso que não entendo. O ministério é uma vergonha, mas muitos colegas aceitam logo tudo, sem questionar o que é o mais correto para os nossos Alunos. A minha solidariedade com todos que aqui escrevem e que têm a coragem de ser diferentes.

    Gostar

  6. Presumo que, apesar dos comentários, não tenham prescindindo de procurar ir além do essencial. Acho que os alunos, uma parte deles pelo menos, o desejam e merecem.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.