As Minhas Séries

Continuando pelo “deserto” do início dos anos 90… mas lá que via, via. Até tenho cromos autocolantes e tudo. Vinham nos bollycaos, que eram um (pouco saudável, eu sei) recurso para os lanches nas deslocações dos transportes públicos de regresso à margem sul.

Neemias

Cresceu ali no bairro do outro lado da estrada. Nunca foi aluno das escolas por onde passei, por isso não o conheço, apenas ouvindo falar dele de há uns anos para cá, pelo talento que revelou desde pequeno para o basquetebol. Agora todos o conhecem e lhe dão parabéns, por ter sido escolhido em 39º lugar no draft da NBA, mesmo quem nunca o ajudou em nada. Embora tenha havido quem o tenha apoiado, como na história bíblica do primeiro Neemias, ele é em primeiro lugar o responsável pelo caminho feito até agora. Muito provavelmente, quando voltar ao país, quem antes teria receio de se cruzar com ele, lançar-lhe-á um enorme sorriso e pedirá selfie. O costume.

6ª Feira

Terminou ontem o prazo para as reclamações relativas à inclusão de milhares de professores em listas de espera para o acesso ao 5º e 7º escalão. Não gostaria muito de ir às origens deste regime de quotas que substituiu o dos titulares, porque há gente que assinou acordos e que agora assobia para o lado e manda os outros “lutar”, esquecendo-se que estão na origem desta indignidade. Porque é de indignidade que se trata. Profissionais com décadas de serviço metid@s em listagens destinadas a determinar – independentemente da classificação efectiva do seu desempenho – quem pode progredir na carreira e quem não pode. Este é um procedimento indigno que não pode ser justificado de forma oportunista com constrangimentos orçamentais, pois os seus custos são imensamente inferiores a gastos decorrentes de decisões de administradores de empresas com capital público ou a “resoluções” de que agora todos descartam responsabilidades. E muito menos pode ter justificação em alegações de “mérito” com base numa add perversa e permeável aos piores instintos dos poderes locais (que definem políticas informais destinadas a lixar aquel@s de que desgostam), a procedimentos que permitem que na mesma lista esteja quem teve 7 ou quem teve 9,8 (sim, porque há escolas em que a concentração de classificações máximas ou próximas dela, fazem com que a perda de um par de décimas implique a descida para um “Bom” que dá bilhete para a lista) ou mesmo a truques, como saltar de “regime” em busca de ter a quota certa, em cima de uma situação que à partida já é de vantagem (falo de elementos das direcções que podem partir, repartir e ficar com uma das fatias que mandaram cortar, não lhes chegando quase não dar aulas e ganhar mais do que os pares).

Tudo isto é ainda de uma enorme indignidade hipócrita quando temos governantes que se escondem atrás do papão das Finanças para se eximir à responsabilidade de manter um sistema que é em tudo contrário aos “princípios” (Equidade, Justiça, Transparência) que muito proclamam defender para o sistema de ensino, em particular para os alunos, mas depois negam aos aos professores. Há quem seja contra quadros de excelência e rankings, porque ordenam de forma “cega” o trabalho das escolas e alunos, mas depois aceitam listagens de professores, alegadamente ordenados pelo seu desempenho, quando não é de nada disso que se trata. E temos ainda “especialistas” com “larga experiência” a protestar contra a “algoritmização” da Educação, mas nem uma palavra e muito menos um acto têm contra a algoritmização da progressão dos docentes.

A indignidade a que @s professor@s e educador@s deste país têm sido sujeit@s não é um processo recente. Tem raízes com quase duas décadas e tem sido contínuo, mesmo quando exista quem anuncie “vitórias”. A dos titulares, que se pensou ser a única, cedo se revelou ser meramente simbólica, pois o actual sistema de quotas é tão ou mais perverso e tão ou mais limitador da progressão para um largo número de docentes. Quando em 2012 me fartei de escrever e falar sobre isso, entre ME e organizações sindicais tinha-se estabelecido um compromisso de silêncio acerca do tema, com o argumento da troika (que era aceite mesmo por quem negava a necessidade da dita), enquanto o “congelamento” parece ter ajudado a congelar a prospectiva a quem não percebeu o que estava em causa. Se o claro roubo de grande parte do tempo de serviço docente foi de uma falta enorme de decoro, a sua combinação com este regime de progressão deu como resultado a produção destas vergonhosas listas.

Não vou negar que há muit@s colegas que delas não desgostam ou delas não chegam a sentir os efeitos, pelo que acham não ser causa sua, depois de tantos infortúnios vividos. Seja como for, e mesmo não vivendo na 1ª pessoa a indignidade, não posso fingir que não existe, por acomodamento ou esgotamento. Porque sou incapaz de ver o fumo a sair das chaminés e fingir que não sei a origem. Há quem viva nem dessa forma. Por muitas chatices que isso me traga (a começar pela perda de prémios locais de “Mister Simpatia”), eu não consigo viver na indiferença.

(apostilha em forma de exercício em ficção documental: chega a ser chocante encontrar numa das listas uma colega acerca da qual, graças a ouvidos de tísico, alguém ouviu, em ano anterior, um par de criaturas tecer críticas e expressar a sua oposição a que tivesse MB; nenhuma delas era seu/sua avaliador@ ou sequer do seu grupo ou departamento; mas são pessoas com “influência” e pelos vistos conseguiram que, alimentando-se o mito do “toda a gente que precisava teve vaga”, se lixasse a dita colega, só porque não se enquadra nos padrões de “cólidade” das ditas criaturas a quem falta muito, mas mesmo muito, de Deontologia Profissional, conceito que acho ser totalmente desconhecido a ambas… até porque a uma delas não chocou nada atribuir mérito a quem tem das piores práticas de que há conhecimento ali pelos arredores, não há anos, mas mesmo há décadas; claro que, como prova de carácter, achando não existirem testemunhas, o belo par negará sempre ter dado o flato oral que efectivamente deu…)