6ª Feira

Terminou ontem o prazo para as reclamações relativas à inclusão de milhares de professores em listas de espera para o acesso ao 5º e 7º escalão. Não gostaria muito de ir às origens deste regime de quotas que substituiu o dos titulares, porque há gente que assinou acordos e que agora assobia para o lado e manda os outros “lutar”, esquecendo-se que estão na origem desta indignidade. Porque é de indignidade que se trata. Profissionais com décadas de serviço metid@s em listagens destinadas a determinar – independentemente da classificação efectiva do seu desempenho – quem pode progredir na carreira e quem não pode. Este é um procedimento indigno que não pode ser justificado de forma oportunista com constrangimentos orçamentais, pois os seus custos são imensamente inferiores a gastos decorrentes de decisões de administradores de empresas com capital público ou a “resoluções” de que agora todos descartam responsabilidades. E muito menos pode ter justificação em alegações de “mérito” com base numa add perversa e permeável aos piores instintos dos poderes locais (que definem políticas informais destinadas a lixar aquel@s de que desgostam), a procedimentos que permitem que na mesma lista esteja quem teve 7 ou quem teve 9,8 (sim, porque há escolas em que a concentração de classificações máximas ou próximas dela, fazem com que a perda de um par de décimas implique a descida para um “Bom” que dá bilhete para a lista) ou mesmo a truques, como saltar de “regime” em busca de ter a quota certa, em cima de uma situação que à partida já é de vantagem (falo de elementos das direcções que podem partir, repartir e ficar com uma das fatias que mandaram cortar, não lhes chegando quase não dar aulas e ganhar mais do que os pares).

Tudo isto é ainda de uma enorme indignidade hipócrita quando temos governantes que se escondem atrás do papão das Finanças para se eximir à responsabilidade de manter um sistema que é em tudo contrário aos “princípios” (Equidade, Justiça, Transparência) que muito proclamam defender para o sistema de ensino, em particular para os alunos, mas depois negam aos aos professores. Há quem seja contra quadros de excelência e rankings, porque ordenam de forma “cega” o trabalho das escolas e alunos, mas depois aceitam listagens de professores, alegadamente ordenados pelo seu desempenho, quando não é de nada disso que se trata. E temos ainda “especialistas” com “larga experiência” a protestar contra a “algoritmização” da Educação, mas nem uma palavra e muito menos um acto têm contra a algoritmização da progressão dos docentes.

A indignidade a que @s professor@s e educador@s deste país têm sido sujeit@s não é um processo recente. Tem raízes com quase duas décadas e tem sido contínuo, mesmo quando exista quem anuncie “vitórias”. A dos titulares, que se pensou ser a única, cedo se revelou ser meramente simbólica, pois o actual sistema de quotas é tão ou mais perverso e tão ou mais limitador da progressão para um largo número de docentes. Quando em 2012 me fartei de escrever e falar sobre isso, entre ME e organizações sindicais tinha-se estabelecido um compromisso de silêncio acerca do tema, com o argumento da troika (que era aceite mesmo por quem negava a necessidade da dita), enquanto o “congelamento” parece ter ajudado a congelar a prospectiva a quem não percebeu o que estava em causa. Se o claro roubo de grande parte do tempo de serviço docente foi de uma falta enorme de decoro, a sua combinação com este regime de progressão deu como resultado a produção destas vergonhosas listas.

Não vou negar que há muit@s colegas que delas não desgostam ou delas não chegam a sentir os efeitos, pelo que acham não ser causa sua, depois de tantos infortúnios vividos. Seja como for, e mesmo não vivendo na 1ª pessoa a indignidade, não posso fingir que não existe, por acomodamento ou esgotamento. Porque sou incapaz de ver o fumo a sair das chaminés e fingir que não sei a origem. Há quem viva nem dessa forma. Por muitas chatices que isso me traga (a começar pela perda de prémios locais de “Mister Simpatia”), eu não consigo viver na indiferença.

(apostilha em forma de exercício em ficção documental: chega a ser chocante encontrar numa das listas uma colega acerca da qual, graças a ouvidos de tísico, alguém ouviu, em ano anterior, um par de criaturas tecer críticas e expressar a sua oposição a que tivesse MB; nenhuma delas era seu/sua avaliador@ ou sequer do seu grupo ou departamento; mas são pessoas com “influência” e pelos vistos conseguiram que, alimentando-se o mito do “toda a gente que precisava teve vaga”, se lixasse a dita colega, só porque não se enquadra nos padrões de “cólidade” das ditas criaturas a quem falta muito, mas mesmo muito, de Deontologia Profissional, conceito que acho ser totalmente desconhecido a ambas… até porque a uma delas não chocou nada atribuir mérito a quem tem das piores práticas de que há conhecimento ali pelos arredores, não há anos, mas mesmo há décadas; claro que, como prova de carácter, achando não existirem testemunhas, o belo par negará sempre ter dado o flato oral que efectivamente deu…)

8 thoughts on “6ª Feira

  1. Caro Guinote

    Para melhor compreendermos a deriva, não nos podemos ficar por coisas vagas, descrições pouco discerníveis . Terão de ser apresentados casos concretos, sob anonimato, evidentemente . Avanço com um exemplo , presumindo que há muitos:
    a) numa escola, uma limitadíssima “profª” de EE, roubou o lugar a um professor de Física do Secundário, este habilitado com um curso Universitário e reconhecidamente proficiente.

    Gostar

    1. Não se deve criticar meias palavras com exemplos com meias palavras.
      Por outro lado, como sou eu (o Guinote)= que tenho depois de prestar declarações na PSP ou Ministério Público sobre o que aqui aparece, chega-me pouco a denúncia vaga sobre “uma escola” feita por este manuel ou aquela maria, que me desculpe a franqueza.
      Sem provas claras, há que saber que quem meto o pescoço no cepo não é o manuel ou a maria, mas eu.

      Quanto ao que descrevo, acredite que onde interessa, o caso é perfeitamente concreto e conhecido.

      Liked by 2 people

      1. Continuando… tenho um interessante manancial de “casos concretos”, com toda a documentação, mas ainda está tudo em início de “tramitação”, nesta segunda vaga de add descongelada e quotizada.

        Gostar

    2. ” roubou” (entre aspas) evidentemente.

      Sem identificar a escola, ou Ajuntamento, muito menos o feliz comtemplado ou o infeliz “descontemplado”, semelhantes exemplos devem ser aqui relatados.

      Para melhor percebermos como anda o futebol em Portugal.

      Gostar

  2. Parabéns por este magnífico texto. Claro e lúcido. Sem meias palavras.
    A mim tudo isto, este sistema absurdo de avaliação, me provoca um tal asco, uma tal repugnância, que deixei de alimentar o monstro. Desisti. Dá-me vómitos. Parei de fazer formações da treta, aos fins de semana e pagas do meu bolso, que para nada serviam senão para cumprir exigências da avaliação. Por isso, nem sequer integro lista nenhuma de progressão.
    Tenho 60 anos de idade, 38 como Professor, e estou no 6 escalão, no qual ficarei até à morte ou à reforma ( o que vier primeiro).
    A escola, para mim, são as minhas aulas e os meus alunos, aos quais dedico generosamente a energia que me resta. Carreiras? Progressões? Ordenado decente? Já não sei o que essas coisas são… Sexto escalão; é o que o meu país tem para me oferecer após uma vida inteira de dedicação e trabalho honesto. Sinto-me profundamente decepcionado.

    Gostar

    1. 61 anos ,6° escalão, 35 de serviço e com 9.8 fui recambiado para o 7.999. Na lista apareço perto dos 3.500 e como o 1° critério é o tempo no escalão ,concluo que estarei outra vez congelado até à reforma.

      Gostar

  3. – os titulares não foram substituídos; mantiveram-se sob a designação de “vagas para progressão”.
    – o 6º escalão é o verdadeiro topo da carreira para 75% dos profs e quem o atinge com ‘cinquentas e tais/sessentas’ sabe que, na melhor das hipóteses, chega aos 65 anos no 7º/8º escalão.
    – há uns meses atrás apresentei cálculos otimistas que mostravam que um prof que este ano entre no 6º escalão com 52 anos, e tiver a sorte de não ficar na ‘lista de espera’ para o 7º escalão, só aos 66 anos é que está a entrar no 10º escalão, o que significa que se quiser usufruir dessa remuneração fica, no minimo, a trabalhar até aos 70 anos…! (se ficar na lista de espera, até só depois dos 70 anos é que entra no 10º escalão…)
    – exatamente para pagar os devaneios das resoluções bancárias, gestão ruinosa, ajustes diretos, prebendas fiscais, etc., é que se tem de cortar noutros lados, sendo o mais fácil nos salários dos profs, porque não têm peso eleitoral e a populaça votante considera-os um mal necessário…
    – antigamente dizia-se que “se não desse para mais nenhum sitio ia-se para professor(a)”; agora é que sem qualquer dúvida só vai para professor(a) o(a) desesperado(a) como último recurso (ou quem já tenha a garantia do ‘lambe-botismo’ que recompensa com menções de mérito)…

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.