2 opiniões sobre “As Minhas Séries

  1. Inquietava-se o Rosmaninho e com ele todo o globo terrestre. E não era caso para menos!
    Nas chancelarias dos países mais abastados temia-se que um anúncio imprevisto os deixasse desmunidos e sem ementa condigna para apresentar a tão ilustre personagem, caso este se fizesse convidado à última hora. Já às nações mais pobres inquietava-as que uma qualquer seca, enxurrada ou guerra as impedisse de concatenar os elementos necessários à confecção de uma refeição representativa da gastronomia regional e minimamente digna de tão ilustre gourmet. O verão espreitava timidamente entre duas nuvens mas logo se tolhia, evitando as luzes da ribalta que estariam reservadas ao intrépido nadador. Nos tribunais constitucionais todos os magistrados se encontravam em regime de prontidão, aguardando em bicos de pés um qualquer desafio que o mais alto magistrado lhes plantasse no caminho dolente para este estio um pouco arredio. Era tempo de direções gerais de saúde, remetidas a uma costumeira modorra, se preocuparem em colocar em dia as leituras da melhor literatura internacional e recomendações anexas, mas tais desígnios podiam a qualquer momento ser torpedeados por uma nova polémica encetada pelo mais zeloso dos esculápios. Até o cidadão médio, desamparado perante a ausência de uma liderança que o habituara à omnipresença, hesitava entre as rodelas do ovo cozido ou as fatias de tomate para encimar o recheio das sandes que haveriam de o sustentar numa arriscada manhã de praia.
    O Rosmaninho, madrugador e consciencioso, resfolegava e mordiscava um talo de couve pra enganar o nervoso: não era normal que tão insone comunicador se ausentasse do espaço mediático a uma hora em que o sol já dourava a planície. O que andaria o Ventoinhas a maquievelar neste insólito silêncio?
    Resolveu o Morgado este enigma apresentando-se de camisa lavada e barbeado de fresco à porta do palheiro.
    — Alabarda-te a preceito meu asninho, que hoje irás sorver os miasmas da capital. Vamos para o aeroporto esperar a chegada do mais ilustre dos lusitanos.
    O jerico não compreendeu à primeira. Desabituara-se de responder a perguntas que não tivessem escolha múltipla e quadradinhos à frente do ponto de interrogação para inscrever uma cruzinha.
    — Aonde me levas Morgado? Faremos guarda de honra a algum medalhado que retorne coberto de honrarias do torneio olímpico? Daremos as boas vindas a um artista em digressão pelo país? Congratularemos um laureado cientista e benfeitor da Humanidade?
    — Mas que não, meu distraído burrico! Vamos receber o Ventoinhas que regressa de Terras de Vera Cruz. A ver se tu lhe consegues meter alguma réstea de juízo na moleirinha.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.