O Texto Completo Do Público

Sem um “não” que está a mais na edição impressa e uma outra gralha que me escapou na revisão.

Público, 9 de Setembro de 2021

Na última meia dúzia de anos, a governança em Educação tem sido feita com o recurso a uma estratégia de indiferença muito bem montada. Indiferença em relação a ideias diferentes das da elite no poder, indiferença perante quaisquer críticas, indiferença perante evidentes erros cometidos e uma notável indiferença quanto a qualquer ocorrência que desalinhe da narrativa oficial da inclusão, autonomia, flexibilidade e sucesso. Indiferença aliada a um silêncio muito selectivo acerca dos temas a abordar, em que se optou por desvalorizar qualquer circunstância menos positiva, preferindo concentrar as intervenções numa repetição monolítica dos talking points do guião escrito. Algumas questões mais polémicas (a começar pela carreira docente e pela avaliação de desempenho, não esquecendo o modelo de gestão e a municipalização) foram quase ignoradas pela tutela e de forma nem sempre discreta consideradas da responsabilidade de outros ministérios (como o das Finanças).

Foram muitos raros os momentos em que se tornou incontornável sair desta estratégia de alheamento às críticas e foi necessário reagir de forma directa a contextos menos triunfais; recordo os tempos mais complicados em que a flexibilidade curricular esteve mais periclitante, a recente disputa em torno dos alunos retidos por não frequentarem a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento ou o claro atraso no fornecimento de equipamentos informáticos às escolas e alunos. Na maior parte do tempo, a opção foi por investir em propagandas concertadas com grupos de “especialistas” ou mesmo de associações profissionais, que surgiram como uma espécie de muralha de aço das políticas desenvolvidas (como a eliminação das provas finais de ciclo ou a publicação dos decretos “gémeos” 54 e 55, não esquecendo a recente terraplanagem dos programas disciplinares). Organizam-se formações em sentido único, promovem-se debates sem contraditório, enuncia-se uma tolerância democrática que não se pratica e encena-se uma inclusão que só funciona dos portões das escolas para dentro.

Os governantes da área surgem disponíveis apenas para visitas em ambiente controlado, de modo a assegurarem sorrisos para as photo-ops previamente negociadas. Reconheço que esta tem sido uma estratégia eficaz, porque a indiferença oficial acabou por anestesiar a própria função fiscalizadora da comunicação social, cada vez com menor massa crítica livre.

Essa eficácia tem sido tal que nas próprias escolas inspirou o alastramento de uma indiferença simétrica. Não me refiro sequer à crescente apatia dos docentes perante o modo como se têm generalizado os abusos dos poderes locais, mas à própria indiferença com que, passada alguma agitação epidérmica muito localizada, foram encarados vários novos normativos publicados nos meses estivais.

Nem tudo se deve à pandemia e aos seus efeitos paralisantes. Muito decorre de um estado de generalizada indiferença, em que a maioria (dos “velhos” aos “novos”) passou a encarar medidas estruturantes como a revogação da quase totalidade dos programas disciplinares para que as chamadas “aprendizagens essenciais” se tornem o padrão dos conteúdos a leccionar, ou meramente folclóricas como a introdução da aprendizagem do ciclismo no 2º ciclo ou a proibição de pãezinhos com chouriço ou de leites achocolatados (a menos que não tenham chocolate e o leite seja magro) nos bares das escolas.

Um estado de adormecimento e letargia, que resulta da percepção da inutilidade de protestos que resvalam na indiferença de quem governa e sabe que tem as oposições no bolso, generalizou-se a par da instalação de uma concepção da Educação como o domínio do Efémero e das escolas como espaços de divulgação de estilos de vida da moda e não propriamente do que alguns antiquados consideram um corpo de conhecimentos que a Humanidade tem interesse em transmitir às novas gerações.

Falo por experiência própria que ainda não me deixei dominar completamente pela letargia, mas para lá caminho, mais ou menos acesso de indignação perante este abuso ou aquele evidente disparate. Reconheço que de pouco adianta tentar contrariar quem ignora críticas, maquilha estatísticas, alija responsabilidades pelos fracassos que não consegue esconder e veta qualquer tipo de debate público não controlado ou em que não tenha direito à última palavra. A Indiferença triunfa, a par de uma Educação do Efémero. Resta, a um número cada vez menor de velhos do restelo, deixar registo para memória futura de que nem toda a Lusitânia foi (ainda) anestesiada.

10 thoughts on “O Texto Completo Do Público

  1. Triunfo da indiferença:
    1.Da tutela em relação a quem percebe mesmo de educação;
    2.Dos professores em relação ao pântano em que transformaram as escolas.
    No que respeita à primeira, considero que as rasteiras ME através de legislação estival rebuscada, encenações tendo como acólitos delfins da narrativa sem admissão de contraditório e palco montado por diretores escolares, jornalistas, centros de formação e editoras são muito mais que indiferença por quem está no terreno. São ofensas agressivas, deliberadas e gratuitas. Os tiques de autoritarismo são flagrantes, em vez de aceitarem contributos de quem tem conhecimentos diferentes e experiência, cilindram-nos, desrespeitam- nos e desligam-lhes os microfones de forma ostensiva castigando-os de modo a servirem de exemplo para dissuadir os que eventualmente queiram arriscar pensar e dizer diferente. Isto é mais grave que indiferença e não se deve praticar em lugares humanos civilizados e respeitadores. Muito menos em áreas tão sérias como a de preparação do futuro, pois é isso que se deve fazer nas escolas.
    No que respeita ao segundo, sim. Indiferença porque a exaustão provoca pelas atitudes de desrespeito da tutela, pelas burocracias, pelas reuniões e pelas turmas sobrelotadas não dão bolha para respirar e acabam por sugar qualquer réstea de esperança. Além disso, a máquina oleada dos seguidores da narrativa oficial esmaga quer através das manobras dos diretores, das formações ocas obrigatórias, do circo editorial da moda e a maior das tristezas de um professor: a regressão dos alunos imposta unilateralmente e oficialmente.

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  2. Um texto brilhante de quem não se fica pelas palavras.
    Quanto a esta governança, farinha do mesmo saco da anterior legislatura, reconheço que tem feito uma verdadeira Reforma do Ensino, a saber: o aluno deve revelar saberes mas poucochinhos para não estragar o número do sucesso em Portugal.
    Assim sendo teremos de encontrar outra definição para a Escola Pública, talvez… divertilândia, onde o professor apenas será uma aplicado animador sócio-educativo.

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  3. Eu espero ir embora no final do ano lectivo, de licença sem vencimento.

    Mas, até lá, continuarei a denunciar a obra de destruição da escola pública pelos Costas (João e António). O Tiago, como todos sabem, é o verbo de encher, posto para aceitar o que o BE e o PCP querem!…

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  4. Eu também já contesto menos. Basta ver os cuidados com que me recomendam, alguns , carinhosamente, para pensar na minha saúde. E têm razão. O desgaste é enorme. E a indiferença, pós estival, aumentou. Ninguém reage, ninguém sabe do que saiu enquanto dormíamos nas férias, e ninguém quer saber. Há algo que noto: cada escola é totalmente diferente da do lado. De tal modo que isto não é elogio, pelo contrário. Fora a mudança que cada uma delas se impõe todos os anos, numa volúpia de modernização ( novas planificações, novas plataformas, novas mo matter what) não deixando o pó assentar. Por isso, esta velocidade insana condiz com a geração melhor preparada de sempre. Daqui a 20 anos falaremos… Pudesse eu e também iria de licença sem vencimento. E creio que mais que pudessem também o fariam. Quem pode fazê-lo , há muito que o faz cada vez mais pois ensandece-se. Digo-o sem inveja,apenas como constatação. Já fiz contas e não dá.

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