Sábado

Não sei se repararam, mas ontem o director do Gabinete Nacional de Segurança fez afirmações sensatas e óbvias acerca da insegurança geral das comunicações digitais, nomeadamente entre as principais figuras do Estado, teoricamente as que dispõem de melhores condições de defesa contra intromissões. E levanta reservas sobre a fiabilidade de eleições em suporte electrónico. Embora a sua função seja, em boa parte a de nos avisar dos perigos que corremos, não deixa de ser relevante que seja ele a dizê-lo quando tanto info-excitado das digitalizações quer que tudo e mais alguma coisa seja comunicado e fique arquivado em suportes virtuais. Como aquelas bases de dados nas quais imensa informação relativa a alunos, famílias, pessoal docente e não docente fica com níveis muito baixos de protecção a ataques e roubo de dados. Só que parece um assunto que desperta pouco interesse ou, visto de outra forma, é preferível não abordar, tamanha a sua delicadeza e gravidade.

4 thoughts on “Sábado

  1. Qualquer pessoa da área (TI) muitas vezes é mais lucido relativamente aos deslumbramentos digitais do que outros.

    Sabe-se perfeitamente que há situações na vida real onde as tecnologias ou tem de esperar o seu tempo ou são simplesmente colocadas de lado por diversas razoes, segurança e fiabilidade são exemplos.
    Eleições são neste momento temporal uma dessas situações.

    Outra é a colocação do digital em crianças até aos 12 anos.

    Deveria ser restringida ao mínimo. Falo de tecnologia na escola e em casa, isso Inclui aulas de informática e manuais digitais (contra mim falo).
    Basta ver o que os encarregados de educação dos miúdos filhos de pessoal que trabalha na Google, Apple e Microsoft querem nas escolas primarias dos seus filhos.

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  2. Podem falar o que quiserem – e reconheço, como valorizo, todas as vantagens dos progressos tecnológicos e científicos – mas já ando tão fartinha, cansadinha e às reviravoltas com as entranhas da era do digital, do digitar, digitalizar, de coisas digitais, de comunicações, informações, intromissões, da capacitação digital, como se fossemos uns mentecaptos, deficientes e ignorantes, e que já nada valemos se não forem os computadores e outros gadjets eletrónicos afins. Será que a Humanidade esqueceu do que é capaz sem (quase) tudo isso? Será que o deslumbramento tecnológico de que se fala deu lugar à doença global da cegueira e da paralisia? Já esquecemos o que devemos à extraordinária capacidade de utilizar as mãos, e os pés, e os seus dedos – dígitos – para construir o mundo em que vivemos durante milhares e milhares de anos, bem como as áreas do cérebro que trabalharam e se desenvolveram para que isso resultasse? E todos sabemos que essa capacidade não é exclusiva da espécie humana.
    A extraordinária e corajosa bióloga, Dian Fossey, e o seu gorila mais famoso, Digit, foram talvez o maior e o melhor testemunho da homenagem que a Humanidade podia fazer a essa extraordinária capacidade de utilizar as mãos e os dedos para agir e transformar o que nos rodeia, criando utensílios e ferramentas que nos permitiram, ao mesmo tempo que desenvolvemos a linguagem e as capacidades de comunicação, a sobrevivência, o estabelecer de laços de relações, o lazer e toda a herança cultural passada ao longo das gerações. Não há História sem Tempo e não há Tempo sem História. O que fazemos de ambos, e como o fazemos, é que me preocupa. O que fazemos passar para as gerações mais novas que pouco ou nada sabem do seu passado e muito menos do seu antepassado histórico, sendo elas mesmos o resultado ou o produto desse mesmo legado, é que de nada valem se não tiverem as muletas da tecnologia, porque coxas de autonomia, independência, resiliência e até criatividade já elas estão. Lembram-se do brinquedo japonês lançado em 1996, o animal de estimação virtual, Tamagotchi? Paradoxalmente, desumanizamo-nos para nos tornarmos máquinas-robôs como os que inventamos e programamos, e humanizamos as máquinas-robôs de tal forma que até cuidamos delas como humanos e lhes atribuímos “doenças” causadas por “vírus”! Nem 8, nem 80!
    Há uns anos, um colega de Educação Visual, claramente preocupado com a falta de capacidade de motricidade fina de muitos alunos, os quais revelavam dificuldades em manusear lápis para desenhar linhas, usar réguas, esquadros e tesouras, dizia-me que não iria faltar muito para que não só as futuras gerações deixassem de saber fazer cálculos mentalmente, pelo uso e abuso de calculadoras, mas também deixariam de ser capazes de utilizar os dedos para desenhar um simples objeto, porque os softwares iriam fazer com que tudo fosse soft, com que tudo aparecesse feito pronto a imprimir. Quando ele disse “Não iria faltar muito” foi há 25 anos atrás. Hoje, estou cá para lhe dar razão.

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