Pareceu-me Adequado

Ao Dia do Professor. Mas posso estar errado.

POEMA EM LINHA RECTA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

(c) Júlio Pomar

Títulos Por Encomenda

A reforma dos professores é algo previsível, assim como o ME dispõe de dados sobre a tendência para muitas serem antecipadas. Nada fez quanto a isso e manteve (ou agravou) políticas míopes de gestão dos recursos humanos, obcecadas com as micro-poupanças de horas ou dias de trabalho dos professores.

Depois, manda cá para fora isto e a há quem faça o frete costumeiro (disfarçado de vez em quando com uma “notícia” vagamente desagradável por cada dezena de empreitadas).

Quem deixa os alunos sem aulas é a falta de planeamento estratégico deste governo e o facto das prioridades dos governantes desta área serem outras, passando em parte por dar a ideia que a culpa de tudo é dos professores “velhos”, enquanto cria em aviário uma nova geração de professores cuja formação inicial, na sua vacuidade, lembra a de gente habilitada para ser regente escolar em outros tempos.

JN, 5 de Outubro de 2021, Dia do professor

3ª Feira

Dia do Professor. Coincidente com o da República cuja ética se vai esboroando e não apenas por causa das habilidezas profissionais de um vitalino que queria presidir ao TC ou de um sarmento que é alguém com poder na direcção de um rio que se diz anti-poluições políticas. Ontem, mais um estudo de opinião coloca, neste caso, o ensino público no topo das instituições em que os portugueses confiam.

O curioso é que não é isso que muitas vezes sentimos. Seja a partir de “cima”, do discurso político, incluindo governantes (mesmo os de falinhas mansas, que depois nada fazem de concreto sem ser a favor dos seus vassalos) e ex-governantes que aparecem sempre que há algo bom para reclamar os louros. Seja a partir do “lado”, nas escolas onde algumas “elites” adoram exercer os seus poderes de uma forma que vai (com óbvias excepções) da mera incompetência à grave abjecção, no modo como se relacionam com aqueles que já não considera como seus “pares” sem ser, em dias de festa, da boca para fora.

O sistema de ensino público, com muitas falhas e inconseguimentos pelo meio, resistiu ao contexto da pandemia, apesar de todas as promessas não cumpridas e das críticas despropositadas que lhe foram dirigidas. Até resistiu a quem – qual escuteiro a querer que a velhinha atravesse a estrada à força – lhe atirou com imensas “soluções” que mais não eram do que as “suas” soluções.

O ensino público está bem e recomenda-se? Nem por isso, mas desempenha melhor do que quem o critica. Os professores são uma classe impoluta e sem defeitos? Longe disso, mas ao menos não anda todos os dias, em avença mediática, a doutrinar virtudes que não pratica.