“Projectos”

É o que está a dar em muitas escolas. Agarra-se em 1) qualquer coisa que já se fazia e dá-se um nome qualquer giraço; 2) qualquer ideia que surja à mesa do café, mesmo sem qualquer relação com o conteúdos das disciplinas, o contexto ou os meios disponíveis e chama-se “projecto”. Arranja-se quem coordene (dá pontos suplementares na add em vários descritores, do “trabalho colaborativo” à “relação com a comunidade”, não esquecendo a parte da “flexibilidade” e/ou “inovação” desde que tenha uma qualquer tarefa numa plataforma online), uma “equipa” e uma “planificação” com ou sem cronograma claro e mete-se no micro-ondas a aquecer.

Acho que já por aqui escrevi que todos os dias tenho “projectos”, que passam por dar aulas sobre “temas” (se não lhes chamar conteúdos programáticos, é melhor), no sentido de desenvolver “competências”. A turma passa a chamar-se “equipa” e qualquer papel que eu dê para ser preenchido ou quizz para responder torna-se uma “estratégia inovadora” que provará a “diferenciação” se, por exemplo, aplicar com mais ou menos tempo, esta ou aquela pergunta ligeiramente diferente, a grupos diferentes de alunos. Se não chamar “diário de bordo” ao que já foi caderno, dá ainda mais pontos. Quanto à “monitorização” pode ser um qualquer registo feito com base na velha observação directa. Holística é a melhor, não classificar, mas avaliar no todo integral e sem glúten ou lactose. No meu caso, em turmas onde dou 2 ou 3 disciplinas, já tenho DAC garantido só com essas.

Ahhhh… é muito importante falar alto sobre o “projecto” em espaço público da escola, em ar casual, mas sério, anunciando a forma como está a decorrer tão bem e que os alunos estão a adoráre!

No fim, atiram-se foguetes, batem-se palmas, apanham-se as canas e assinala-se com cruzes e polegares ao alto na plataforma respectiva que a actividade foi um sucesso xalente.

Podia acrescentar mais uns detalhes, mas acho que fica a ideia. E pode sempre arranjar-se uma “formação” se alguma entidade formadora for amiga. Ou produzir um “guia” ou “manual de boa práticas” se o secretário ou um cortesão da primeira fila garantir o prefácio.

E ainda dizem que isto é complicado.

5ª Feira

Pensava que graças à mítica “bazuca”, a questão do orçamento não levantaria assim tantas ondas, até porque nestas alturas já se sabe que a maior parte do bolo vai para as clientelas costumeiras. É verdade que agora mais alargadas para o lado canhoto, apesar do sucessivo descalabro autárquico da muleta mais fiel da geringonça. Quanto ao “centrão”, estando formalmente no poder ou não, ps e psd raramente têm muito de que se queixar. Pelo que o aparente dramatismo, com chancela presidencial, da eventual não aprovação do Orçamento para 2022 ainda soe mais artificial do que é habitual. Parece encomendado, para garantir que apanha as oposições em dificuldades. Rio explicou ontem os meandros da situação laranja (e no cds não é muito diferente), enquanto à esquerda se lambem as cicatrizes das autárquicas e se fica sem saber se é tempo de assobiar para o lado, se é para mostrar voz grossa e tentar recuperar eleitorado.

O ministro da Inexistência (leia-se “Economia”) dizia ontem que o eleitorado do Bloco e do PCP não compreenderia que ajudassem a chumbar o Orçamento. Só que a verdadeira questão é que neste momento parece que só lhes resta o eleitorado que vota automaticamente, porque o outro já fugiu. Para a abstenção e para o Chega.