“Projectos”

É o que está a dar em muitas escolas. Agarra-se em 1) qualquer coisa que já se fazia e dá-se um nome qualquer giraço; 2) qualquer ideia que surja à mesa do café, mesmo sem qualquer relação com o conteúdos das disciplinas, o contexto ou os meios disponíveis e chama-se “projecto”. Arranja-se quem coordene (dá pontos suplementares na add em vários descritores, do “trabalho colaborativo” à “relação com a comunidade”, não esquecendo a parte da “flexibilidade” e/ou “inovação” desde que tenha uma qualquer tarefa numa plataforma online), uma “equipa” e uma “planificação” com ou sem cronograma claro e mete-se no micro-ondas a aquecer.

Acho que já por aqui escrevi que todos os dias tenho “projectos”, que passam por dar aulas sobre “temas” (se não lhes chamar conteúdos programáticos, é melhor), no sentido de desenvolver “competências”. A turma passa a chamar-se “equipa” e qualquer papel que eu dê para ser preenchido ou quizz para responder torna-se uma “estratégia inovadora” que provará a “diferenciação” se, por exemplo, aplicar com mais ou menos tempo, esta ou aquela pergunta ligeiramente diferente, a grupos diferentes de alunos. Se não chamar “diário de bordo” ao que já foi caderno, dá ainda mais pontos. Quanto à “monitorização” pode ser um qualquer registo feito com base na velha observação directa. Holística é a melhor, não classificar, mas avaliar no todo integral e sem glúten ou lactose. No meu caso, em turmas onde dou 2 ou 3 disciplinas, já tenho DAC garantido só com essas.

Ahhhh… é muito importante falar alto sobre o “projecto” em espaço público da escola, em ar casual, mas sério, anunciando a forma como está a decorrer tão bem e que os alunos estão a adoráre!

No fim, atiram-se foguetes, batem-se palmas, apanham-se as canas e assinala-se com cruzes e polegares ao alto na plataforma respectiva que a actividade foi um sucesso xalente.

Podia acrescentar mais uns detalhes, mas acho que fica a ideia. E pode sempre arranjar-se uma “formação” se alguma entidade formadora for amiga. Ou produzir um “guia” ou “manual de boa práticas” se o secretário ou um cortesão da primeira fila garantir o prefácio.

E ainda dizem que isto é complicado.

16 thoughts on ““Projectos”

  1. Glossários

    “A gente já ná pode mais com essa porra em eduquês .
    Passem aqui pela venda que os compadres do mata- bicho traduzem essa m..da num vernáculo à nossa maneira, mas mais apelativo c….lho ” – vocifera o Coxa

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  2. O meu projeto é ensinar e desenvolver as competências. Depois de um par de anos a “inovar”, fartei-me e até voltei a escrever no quadro.

    O máximo de inovação é usar a Classroom para poupar papel e fazer uma espécie de dossiê de apoio o estudo.

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  3. Tal e qual. E ainda faltou referir a os selos, bandeiras, diplomas, acrílicos e outras coisas lindas para a xôra diretôra ir receber numa cerimónia em que batem todos palminhas uns aos outros.
    Ela até foi ao cabeleireiro de propósito cobrir aquelas brancas… pois aquilo da direção é até à reforma.
    Ah… e levar uma escolha de alunos (dois ou três no máximo para não se portarem como habitualmente na escola) para demonstrarem como agora são empreendedores xalentes.
    A vaidade vacuidade desta elite que manda e manda muito!

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  4. O triunfo do fundamentalismo ISCTE impera nas escolas misturado com o deslumbramento saloio de alguns colegas que à espera do Excelente e do Muito Bom deixam de ser docentes e intermediadores de aprendizagem. Depois vem um PISA e descemos a pique como sempre. O tal senhor Crato falava em preparar o aluno em exames, e eu, com o meu subconsciente esquerdista resisti. Tenho de pedir penitência e ir a Fátima…Nessa altura subimos no PISA e no TIMMS, tendo, neste último, ultrapassá a Finlândia. Porém agora, com a tal aprendizagem por “projetos” iremos para ao fundo da tabela.

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  5. Sei de colegas que passam 13 horas nas escolas, só com a porcaria dos projetos!!! Mas, porquê que não dizem.,”basta”!, não fazemos. Os professores são os culpados do terror que estão a viver!

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  6. Maravilhoso texto! Obrigado.

    Sim. Quando, há anos, criaram as disciplinas de “Área de Projeto” e “Estudo Acompanhado” (Deus as tenha em eterno descanso…) eu disse logo: “‘Projetos'” é o que tenho feito toda a vida, desde que comecei a escola! Já lá vão umas décadas valentes…. Só que se dava outro nome. Eram “Trabalhos”. Ponto final.
    De repente, alguém preferiu o anglicismo “project” para parecer mais moderno, sei lá, e vai daí toca a chamar-se “projeto”.

    Resumindo, só é gente quem faz “Projects”. Irra, que povo atrasado.

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  7. Agacham-se!!!
    Para quê?
    1.Obter as boas graças do diretor, pois este dá bons horários, boas turmas, watt ever…
    2.Obter Muito Bom ou Excelente na avaliação.
    3.Autoconvencer-se da sua proficiência e utilidade num mundo superficial e vazio.
    Portanto, o esquema está todo montado de forma a fazê-los vergar.
    Também não há quem os defenda efetivamente. Solidariedade é palavra desconhecida no meio escolar e nos países pequenos.

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