Pode Vir Aí A “Direita Fascista” Para Tomar O Poder?

Umberto Eco traçou-nos 14 elementos distintivos de um “fascismo eterno” ou Ur-Fascismo (há quem se limite a dizer que são apenas 11) que seria algo endémico nas sociedades modernas, prestes a despertar da letargia a qualquer momento oportuno. Por estes dias há quem por aí ande a acenar com esse bicho-papão, curiosamente ao mesmo tempo que afirma que esta crise só serve para reforçar o PS e a possibilidade de chegar a uma maioria mais robusta, quiçá absoluta, perante a debilidade das direitas tradicionais e o que se afirma ser o “suicídio” do PCP e do Bloco ao chumbar o Orçamento para 2022. Clama-se que o Chega pode chegar aos dois dígitos e que isso pode ser uma tragédia nacional, porque nos pode arrastar para a tal deriva fascizante.

Discordo a vários níveis, alguns dos quais passam pela necessidade de algumas pessoas estudarem a História sem ser apenas pelos artigos de divulgação deste ou aquele historiador mais estimado (e já repeti que Rosas ou Ramos são apenas as duas faces de uma mesma moeda simplista na análise destas coisas, sendo mais recomendável ler o António Costa Pinto dos bons anos 90).

Mas para ficar mais curto e conciso eu resumo as coisas:

  • O PCP começou a perder parte do seu eleitorado tradicional de protesto quando passou, além dos Orçamentos, a fazer de muralha d’aço do PS em matérias menores, incluindo o bloqueio de audições ou inquéritos parlamentares em casos que, tivessem ocorrido em 2011 ou 2001 ou 1991 ou 1981, haveria gritaria da grossa. Veja-se o caso Cabrita. Aliás, os vários casos Cabrita.
  • O Bloco é uma amálgama muito urbana e fluida no país, como se percebe pela sua inexistência quase total a nível autárquico. Cresceu e tem vivido do mediatismo de algumas das suas personalidades mais destacadas. Só perderá votos se esse destaque mediático for reduzido. Um pouco como acontece com a Iniciativa Liberal; existem numa sociedade do espectáculo, em que a política se reduz muito à imagem e à capacidade de aparecer nos jornais e televisões. Ou de “fazer notícias” como agora se nota no caso da IL (é para o que serve o “Mais Liberdade” criado pelo clone do emplastro), algo que antes era mais a especialidade do Bloco.
  • O Chega tem ganho em especial com as perdas do PCP, bastando analisar onde, no Portugal vermelho tradicional, começou a ver as suas votações aumentar e recentemente eleger vereadores. Só que isso significa a migração de votantes que admiram posições firmes e aparentemente hirtas (não estou a dar a entender que são por isso justas ou sequer adequadas), mais do que propriamente a adesão a um programa ideológico.
  • Indo agora ao essencial das obsessões de alguns prosadores ou curiosos apresentados como analistas ou politólogos nas televisões e para encurtar ainda mais as coisas: o André Ventura não passa de um engomadinho que se tivesse de vestir uma camisola negra miliciana e ir para a rua bater nos opositores (não é esse um dos elementos mais claros da acção política fascista?), borrava-se todo, pois não tem nenhum Ernst Röhm que lhe valha ou sequer um Himmler que o rodeie de uma guarda pretoriana em desfiles intimidatórios. Não estou a menorizar o “perigo” que ele constitui ou a “relativizar” seja o que for. Apenas estou a olhar para um tipo que pode partilhar alguma estridência e arrogância com o Benito ou o Adolfo, mas ficamo-nos por aí. O resto é anedótico.

Portanto… vamos lá a reduzir um bocadinho a denúncia dos enormes perigos que podem vir por aí, pois muito do que Eco escreveu sobre o Ur-Fascismo, desculpem-me, mas já está entre nós, em tantos quadrantes, da novilíngua à acusação de traição a toda a dissidência, da representação do inimigo como forte e fraco ao mesmo tempo à obsessão pela criação de enredos/narrativas.

Querem coisa mais “fascista” do que não querer eleições? Ou que desprezar o que resulta de votações num Parlamento democraticamente eleito?

14 opiniões sobre “Pode Vir Aí A “Direita Fascista” Para Tomar O Poder?

  1. O que estes políticos merecem (todos, desde a esquerda até à direita) é um cartão vermelho bem claro!
    Uma grande manifestação pública que reunisse um milhão e juntasse pais, alunos e professores.
    Na última semana do ano era na mouche!
    O mote: a paragem imediata destas mixórdias educativas e o fim da corrupção.
    Só sociedade civil e nada de deixar colar os oportunistas do costume.

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  2. O PS conduz o país às bancarrotas, a direita vai mais longe do que as Trucas e parece salvar-nos. Depois voltam os Sócas e os Costas e a m…a é a mesma. Tem sido esta a «estória» desde o 25 de Abril.

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  3. Esqueces os contextos diferentes…e as redes sociais…O ventura não tem um himmler mas é questão de tempo até o ter..a exemplo do vox aqui ao lado..o BE vai no caminho do Podemos..e o PCP vai estaganar e mirrar até ser no fim desta década um a especie de cds taxi…o rotativismo é questão de tempo..o Il podia ser algo diferente mas está verde e não sei se tem capacidade para crescer por aí além..https://www.rte.ie/brainstorm/2021/0315/1204047-ireland-europe-far-right-politics/Five traits (namely ‘openness’, ‘conscientiousness’, ‘extraversion’, ‘agreeableness’, and ‘neuroticism’) are found to be significantly associated with a series of outcomes from personality disorders to success in exams and relationships. They have also been found to correlate with political opinion. Those with a high score for ‘openness’ (creative, intellectually curious) tend towards the left, while those with high scores for ‘conscientiousness’ (organised, diligent, etc) tend towards the right.
    The emergence of the far-right, or more accurately the ‘radical right’, is a new phenomenon in Irish politics. So where did they come from? The rise of the radical right reflects a 40 year trend in politics across Europe. For decades, politics in almost all countries was dominated by centre-right and centre-left parties. These political parties reflected the class systems of industrialised economies where a homogenous group of unskilled and semi-skilled working-class voters aligned with their chief economic interests.

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  4. Gostei de ler, no entanto, prefiro sempre a versão longa na análise destes fenómenos. Não sendo historiadora, respeito quem sabe de História, por isso, aguardo a versão longa. O que ouço aqui e ali não me permite generalizar, mas há gente que quer o Salazar de volta e que não votava , mas, desde que o Ventura começou a dizer coisas, já vota, acho mesmo que foi à custa da abstenção que o Chega cresceu, mas é só um feeling. Entretanto que fazer quanto ao planeta? Não me interessa voto útil só para deprimir o Chega, Tenho o PAN e quero-os com percentagem forte a nível nacional. Sei que não concordará, mas fica o registo do que vou fazer, uma vez que já vi aqui no Quintal apelos ao voto útil no PSD que nunca fará nada determinante em relação à descarbonizaçao, à redução drástica da pecuária, à desindustrialização da produção agrícola e reforma da floresta e combate à desflorestação ou à monocultura de eucalipto. O PAN revelou responsabilidade nesta votação do orçamento. Que mal viria a Portugal se o Costa acabasse o mandato com a devido desgaste? Mal nenhum a meu ver, pelo contrário. Achei o Costa demasiado bem disposto, não terá sido por acaso, vem aí subida das taxas de juro ….

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  5. A História também ensina que o modelo da extrema direita não é o das camisas castanhas. O nacional-socialismo seguiu e o modelo que estava, desde o início do século, a ser financiado pelos germânicos na Rússia com o intuito de a enfraquecer. Mais tarde, os progroms eram também comuns às duas potências, até nos seus alvos preferenciais.
    Se quisermos encontrar os modelos preferenciais da extrema direita, é talvez melhor procurarmos os exemplos mais recentes na América do Sul. Começa-se por criar dificuldades económicas na população através de disrupção dos transportes e dos abastecimentos.
    Uma caricatura suave desta técnica de golpe de estado seria algo semelhante ao que aquele senhor advogado fez para animar o verão em que faltou a gasolina aos banhistas no Algarve.
    A mais recente encenação de democracia representativa na Europa não fenece nas ruas açoitada por um qualquer cabo da guarda: escorre pelos cabos da internet juntamente com o hipertrading. E todos tinham sido avisados, pelo que se percebe o pouco que a estimavam.
    De facto, tudo somadinho, quantos anos de verdadeira democracia usou a incipiente humanidade que jura a pés juntos ter atingido um nível de conhecimento inconciliável com o regresso dos papões? Muito pouco para que alguém que conheça a História possa ficar sossegado.
    O Ventura é perigoso? Não. O perigo reside em nós.

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    1. O problema é sabermos do que falamos quando falamos em “extrema-direita”. Porque acontece o mesmo com aquela da “esquerda radical”. Há fenómenos muito diferentes.que tendem a não se distinguir com clareza.

      Por exemplo, em Portugal, sempre que o CDS teve uma deriva mais “direitista” perdeu votos.
      Os partidos que se filiam explicitamente na tradição autoritarista do Estado Novo ou similar não têm quase expressão eleitoral.

      Porque o Chega atingiu valores mais altos?
      Pela mesma razão que outros partidos de protesto (ou mesmo de nicho), num passado mais ou menos recente, conseguiram sucessos eleitorais num par de ocasiões.

      Neste caso, é apenas porque o ventura aproveitou a cooptação dos partidos de protesto pelo PS na geringonça e porque o CDS perdeu um rumo.

      Houve muita crítica à análise do Riccardo Marchi ao Chega porque se dizia que ele “normalizava” o fenómeno ao integrá-lo em tendências correntes na Europa e não só. Mas ele está muito mais certo do que aqueles que querem ver no Chega ora o fantasma de um Salazar que detestaria a fugura do Ventura, ora de um Trump ou Bolsonaro, sem perceberem que a única coisa que os une é um oportunismo sem ideologia clara.

      VAmos a exemplos próximos: o Chega entrou numa aliança governativa nos Açores, onde tenho vária gente conhecida e parentes por afinidade. Acham que alguma coisa mudou mesmo por lá? Nem por isso. O rotativismo é que vence sempre. O PSD, mesmo fraco, consegue anular um Chega em busca de migalhas do Orçamento, como o PS fez por cá às muletas “radicais”.

      Ahhh… que o PCP e o Bloco são democráticos e o Chega não é!
      Pois, quando entramos em matéria de Fé, é complicado.
      Os partidos vão a votos, apresentam as suas propostas… temos muito mais meios do que há 100 anos. As opções fazem-se.
      Como recorrente derrotado em muitas coisas em que acredito (e sportinguista), aprendi a lidar com a adversidade, sem ter de demonizar de forma hiperbólica aqueles de que desgosto. Posso chamar-lhes demagogos, oportunistas, idiotas, etc, mas daí a ir logo para o papão das crianças vai um salto que não dou.

      O Ventura é um pé de salsa, ponto final.

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  6. “A avaliação no 5° e 7°”
    Já viram um pum do pam?! Do pã…
    Sempre quero ver se outros também mandam puns para aliciar professores?! E depois de apanhados os votos, nada…
    Urgente acabar com as ditaduras nas escolas. A ver o que diz e direita domuscrática…
    Somos aqueles que somos e temos a opinião pública a considerar-nos os mais fiáveis de Portugal!

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