E Os Que (Ainda) Cá Estão?

Sobre política educativa, muito mais haveria a escrever acerca do que disse Rui Rio, mas não vou estar com aquelas tretas do politicamente correcto do costume, só para evitar ser considerado “corporativo”. Até porque ele se dirigiu directamente aos professores e há que lhe tentar explicar que a combinação entre promessas vagas e a manutenção do que mais desagrada aos professores de carreira não pode passar em claro. Na ausência do texto completo do discurso de hoje (nem no site do PSD está), vou valer-me do que em alguma comunicação social surge como citação directa, pois não tive paciência para ver e ouvir tudo.

Comecemos pelas promessas aos professores vindouros, a partir de duas notícias:

Não é compreensível que a uma profissão tão decisiva para a formação das novas gerações, ou seja, para o futuro do país, não sejam conferidas a dignidade e as condições de trabalho que merece. Um Governo do PSD terá de dar uma especial atenção aos professores“, defendeu, sustentando ser necessário tornar “a profissão mais atrativa par aos jovens”, mas também “ser criteriosos e exigentes na sua seleção”.

“um Governo do PSD terá de dar uma especial atenção aos professores, desde a sua formação inicial, até ao seu recrutamento e profissionalização. Temos de tornar a profissão mais atrativa para os jovens”, afiançou, reiterando que “se não o conseguirmos, vamos enfrentar no futuro uma grave carência de professores”.

Não sei bem se isto quer dizer que irão reformular os cursos de formação de professores (na linha do “aproveita-se tudo”, em especial se for a partir de projectos de pseudo-voluntariados, como algumas iniciativas que por aí apareceram) se querem “localizar” (leia-se, municipalizar) o recrutamento dos docentes à imagem do que já acontece com os chamados “técnicos especializados”, se pretendem criar um novo modelo de profissionalização. Também não é claro que o “rigor” e “critério” na selecção dos professores significa um regresso à PACC ou se é apenas conversa fiada, tudo se resolvendo com a atribuição de mais poderes aos directores para recrutar (rigorosa e criteriosamente, claro) os professores ao seu preceito.

Quanto ao “tornar mais atractiva para os jovens” a profissão docente não sei se tem como reverso torná-la mais detestável para os “não-jovens” ou propor a troca (que alguns defendem por aí, talvez pensando que não chegarão a “velhos”) de mais uns 100 euros à entrada por menos 200 ou 300 à saída. Por outro lado, na sua enorme miopia, Rui Rio ainda parece não ter entendido que a “grave carência” de professores já existe. Pior, não percebe a sua causa.

O homem chega ao ponto de dizer que “reduziram o número de alunos por turma, mas de forma tão atabalhoada, que agora se debatem com a falta de professores em alguns grupos de docência”, não se percebendo se defende que o número de alunos deve aumentar, como já defendeu o ex-presidente do Conselho de Escolas, que não tardou no aplauso a este discurso. Ao que parece, acham que faltam professores em Português, T.I.C., Francês ou Geografia porque o número máximo de alunos por turma desceu num par, mesmo se repetem que o número global de alunos está em queda, no que é um paradoxo que não lhe(s) ocorre à inteligência. Tenhamos esperança que, afinal, Rio defende a redução de alunos por turma, mas não de forma “atabalhoada”, quiçá, apenas em algumas disciplinas.

Para os que estão na carreira, com décadas de serviço, nada se diz de verdadeiramente concreto quanto à “dignidade” e às “condições de trabalho” merecidas porque a primeira é amesquinhada a cada esquina por gente ligada ao PSD, que entre outras continuidades defende a manutenção do modelo único de gestão escolar e do modelo de avaliação do desempenho quando declara de modo demagógico que “considerá-los todos como iguais é, neste como em todos os demais setores da nossa sociedade, não só desvalorizar o mérito e a competência, como ignorar um elemento absolutamente decisivo para o sucesso, que é o brio profissional”. A verdade é que com um sistema de quotas como o que temos e com a responsabilidade pela sua implementação entregue a comités que são escolhidos a dedo num órgão seleccionado, no essencial, pel@s director@s como é o Conselho Pedagógico, dificilmente o “brio profissional” e a “dignidade” se conseguem rever, como se tem constatado ao longo desde últimos anos, onde imperaram a arbitrariedade, o compadrio e, em tantos casos, a pura e simples incompetência.

Mas Rio nada tem contra tudo isso, porque de Educação nada percebe (nem está interessado em perceber, pois a encara apenas na perspectiva da “racionalidade” economicista) e o seu principal conselheiro nessa matéria é um dois principais defensores deste modelo de gestão escolar, da municipalização da Educação e do actual sistema de avaliação docente, mais ou menos detalhe purgativo. Basta ver como o PSD votou nestes seis anos (que Rio considerava horríveis na Educação), sempre que ao Parlamento chegou alguma proposta no sentido de alterar o “paradigma” existente.

Portanto, em relação aos professores de carreira, em especial aos que estão desanimados e a quererem sair o mais cedo possível, nenhuma esperança é dada que algo de significativo mude. Por mim, fiquei perfeitamente esclarecido e não adianta mandarem os do costume “aclararem” a posição do líder, garantindo estima imorredoira aos docentes que têm aguentado com tudo e mais alguma coisa nos últimos 15-20 anos, se nada têm para lhes oferecer sem ser mais do mesmo.

(há uma expressão inglesa que se aplica maravilhosamente a Rio sempre que fala de Educação e que é thick as a brick)

19 opiniões sobre “E Os Que (Ainda) Cá Estão?

  1. Os que ainda cá estão viram a luz, receberam a benção à tanto aguardada e entraram na dimensão cósmica da coisa: Qual Finlândia, qual Singapura, qual carapuça! Viva o velho e bom modelo das escolas africanas (talvez com algumas excepções da África do Sul) e brasileiras, modelos superlativos que todo o mundo quer copiar. Eu salvar-me-ei porque tu salvar-te-ás.
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  2. Mas estas larachas do rio não passam disso mesmo: larachas!
    Revolve as entranhas o oportunismo do piscar de olho ao eleitorada professoral, a ignorância do homem, a banha balofa do seu conselheiro educativo e a miséria educacional sugerida pelo rio roncador.
    O outro lá continuará também a dar ceara para talhar a direito aos amigos arianos. De educação esta gente nada sabe nem quer saber. Interessa é votos e ter muito porco do partido com um lugar bem juntinho à pia.

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      1. Não votaria nele, mas ouvi tudo e nada do que disse é condenável, antes pelo contrário e nada tem de extrema direita fascizante , o colega tem uma perfeita dicção, um discurso claro e parece pessoa calma. Por que razão o ofendem à partida, penso ate que deve ser bom professor. Acho feio este tipo de comentário.

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  3. E os que ainda cá estão?
    Já deram e continuam a dar muito.
    Romperam a cabeça a servir de cobaias a todos os decisores medíocres que passaram com vontade de “deixar a sua marca” nem que fosse numa bancada de futebol.
    Pagaram todas as troikas e rombos dos larápios de cartola,
    na má fama que colaram maquiavelicamente aos professores, no ordenado que lhes subtraíram e no tempo de serviço que lhes roubaram.
    Formaram gerações inteiras em turmas sobrelotadas, expostos ao frio, ao amianto, a burocracia, à indisciplina e à prepotência dos munícipes e dos seus peões diretores.
    Têm um saber que ainda é de boa cepa.
    Têm uma experiência acumulada de décadas que fez este país sair dos mais altos níveis de analfabetismo na Europa para passar a ser um dos que mais licenciados de qualidade produziu para fornecer a países avançados carentes de mao-de-obra qualificada.
    Mas…
    como…
    continuam a ter políticos de vistas curtas à frente do país,
    o melhor é:
    Continuar a desistir de ser professor?

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  4. O Rio…
    Tenho ideia que cheguei a votar nele quando estava na CM Porto.
    Não foi mau presidente de câmara no que respeita à gestão da educação pública municipal, muito embora tenha permitido os mega-agrupamentos no seu concelho. E no momento da escolha da escola da filha, optou sempre pela educação privada, embora morasse perto das escolas públicas mais “in”.

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  5. sao todos iguais … amam a escola publica mas para os seus rebentos la vai a privada

    Lembram-me aqueles que promovem o ensino profissional até mais não … depois nunca metem la os filhos

    hipócritas de shit

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  6. A tónica nos mais jovens e na atratividade é, provavelmente mais um engano geracional…

    Afinal, o ECD atual, na sua génese previu aspetos de carreira que foram obliterados (desde a MLR até a esta saga do 5º e 7º escalão) quando a geração de professores que entrou nessa altura começou a chegar aos pontos médios da carreira, transcorridos 20 – 30 anos, como se está a ver …

    Portanto, as propostas políticas de quem quer que seja, ou são para o conjunto de todos os docentes ou então, focando-se na entrada da carreira, devem ser lidas como mais uma traição aos “docentes ainda não iniciados” anunciada para daqui a uns 10- 20 anos…

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