Aceito!

Que é como quem diz, reconheço a existência.

Que existe um vírus com propagação pandémica que não se restringe ás páginas dos jornais e televisões. Aceito que não é uma complexa conspiração mediático-político-farmacêutica do grande capitalismo global. Aceito que é melhor tomar uma vacina experimental, mesmo se a sua dosagem é baixa e não consegue imunizar por completo, de uma vez. Aceito que existem comportamentos que podem diminuir os riscos de contágio e propagação da doença, mesmo que sejam moderadamente incómodos para o meu quotidiano “normal”. Aceito que existam pessoas que possam ter outra opinião e que argumentem com essa base. Aceito posições críticas fundamentadas e articuladas, sem ser na base do uso das maiúsculas nas redes sociais ou de gritos nas redes humanas. Aceito dúvidas, que as tenho sobre diversas matérias que não se resumem à pandemia, desculpem, à grande conspiração. Aceito que me chamem “aceitacionista”, se isso significa o que acima está, apesar de, em regra, essa designação seja acompanhada de certificados de imbecilidade e carneirismo.

Há várias coisas, contudo, que tenho mais dificuldade em aceitar, mas agora não quero aborrecer ninguém que já tenha atingido o estádio das certezas supremas (embora por vezes camuflem isso com o discurso do “tenho dúvidas e tenho direito a tê-las em nome da liberdade e da Constituição”) ou que considere todas as oportunidades boas para derrubar a Ciência ao serviço do Grande Capital (desde que isso possa fazer-se sem prescindir de smartphones e aqueles pequenos luxos que a Ciência ao serviço do Grande Capital nos tem permitido nos últimos 100-150 anos).

18 opiniões sobre “Aceito!

  1. 🙂

    Vejo-os à minha volta. Todos os dias. A toda a hora. Em qualquer sítio.

    Borrados de medo.

    São aqueles que ajustam a máscara quando passam por mim na rua. São os seguranças que me perseguem no supermercado e me mandam repetidamente pôr o nariz para dentro da máscara. São os que desinfectam as mãos à entrada de cada loja, e os que me mandam fazê-lo quando não o faço. São os que evitam reunir-se com quem sempre se reuniram. São os que seguem os números e as notícias sem fazerem crítica nem pensarem pela própria cabeça. E são também aqueles que fornecem os números e as notícias. São os que fazem as regras e as impõem sem permissão de escolha. São os que mandam e os que obedecem.

    Borrados de medo, uns e outros.

    Os borrados de medo podem ser qualquer um. Aparecem nos locais mais insuspeitos e surpreendentes. Mas também surgem onde sempre soubemos que a cobardia era omnipresente.

    Os borrados de medo existem em todos os países, em todas as ideologias, religiões e partidos. Nada nem ninguém está livre dos borrados de medo.

    Os borrados de medo podem ser pessoas previamente inteligentes, seguras, afoitas, aparentemente corajosas. E que se revelam agora borrados de medo.

    E há pessoas inseguras, não muito inteligentes, com medo de tudo, que são agora imunes a toda a propaganda evangelizadora dos borrados de medo. E não são borrados de medo.

    Os borrados de medo podem ser profissionais de saúde que inventam mil desculpas para não se aproximarem destes doentes, chegando a usar baixas médicas para não o fazerem. E são seguramente todos aqueles que consideram normal que isso assim seja, e aceitam enviar uns para a frente dos cuidados, e asseguram que os outros ficam na retaguarda. Não foi assim em todas as guerras?

    E claro que aqueles profissionais de saúde que não se desculpam e não fogem, que se aproximam destes doentes, que lhes tocam, que os observam de perto, que lhes falam sem medo nem barreiras, que não são borrados de medo, estes são por sua vez chamados de cobardes, de não resilientes, ou mesmo de negacionistas. Tudo para que os borrados de medo não se sintam mal quando comparados com eles.

    Os borrados de medo podem ser os que se fecham em casa voluntariamente durante 14 dias porque contactaram com alunos de uma escola onde algures noutra turma qualquer um outro aluno testou positivo. Ou então podem tornar-se incapazes de beber água de uma garrafa em cima de uma mesa, atrapalhados à procura de um lenço, tal é o medo de tocar nessa garrafa, fonte assustadora de infecção e de mal e de morte. E podem ser ainda aqueles que exigem testes negativos às pessoas saudáveis e já vacinadas.

    São borrados de medo as autoridades de saúde que mandam para casa centenas de milhares de pessoas saudáveis, porque contactaram ligeiramente com um caso positivo, ou até apenas porque contactaram com alguém que contactou com um caso positivo.

    São autoridades de saúde, mas borrados de medo.

    São borrados de medo todos os que gritam “ponha a máscara!” e “desinfecte as mãos!” e se afastam sempre ligeiramente quando alguém se aproxima para falar com eles.

    Os borrados de medo não podem nunca permitir que a sua cobardia seja desmascarada. E a sua estratégia de dissimulação é essencial, até para eles próprios e para a sua auto-estima.

    É absolutamente necessário que o seu comportamento seja considerado nobre e belo e correcto, e que o dos outros seja visto como mau, irresponsável, egoísta e inconsequente. E é com violência e raiva e ódio que se referem e atacam os que não são borrados de medo, como eles são. E sobre esses fazem chover insultos, processos disciplinares na ordem dos Médicos, ou multas e repressão por parte da polícia.

    Para além da repressão violenta, os borrados de medo usam também a evangelização. A evangelização dos outros é essencial. Para que se convertam em borrados de medo também. Os borrados de medo são exímios no uso de todos os meios evangelizadores. A toda a hora. Sem descanso.

    Usam cartazes enormes de publicidade, mostrando pessoas gravemente doentes, dizendo que uma máscara, uma janela aberta ou dois metros de distância poderiam ter evitado aquele sofrimento. Manipulam informação e dados, que fornecem todos os dias sem excepção, falando de “casos”, de internados e de mortos, do nosso e de outros países, mas sem nunca explicarem a gravidade relativa das coisas, sem dizerem a quantos dos “casos” nada de especial acontece, ou de que forma tantas outras doenças matam tanto mas tanto mais do que esta. A saturação das cabeças com a repetição das informações manipuladas é um excelente meio evangelizador.

    E há-que evangelizar, fazer a re-educação das massas, e mostrar-lhes a mesma informação manipulada vezes e vezes sem conta, até que se re-eduquem.

    Até que se tornem borrados de medo como eles.

    Os borrados de medo estão sempre borrados de medo. Se não for com os números do presente, é com os números do passado. Ou então são os números do futuro que os aterrorizam. Ou os de outros países. Ou de outras variantes. Se não é a (escassa) gravidade da doença, são as suas consequências futuras, que afinal parece que não existem. Por que os borrados de medo estão sempre borrados de medo.

    Os borrados de medo explicam que aquilo que fazem não é (nunca!) para sua protecção pessoal (não!), mas sim para proteger os outros, os seus pais, os seus filhos ou uma tia velhinha de quem muito gostam.

    Porque eles não são borrados de medo, (disparate!) são, isso sim, pessoas responsáveis, preocupados com os outros.

    Deve ser por isso que ajustam a máscara quando passo por eles desmascarado na rua. E que me interpelam e perseguem e insultam quando não a uso. Deve ser para me protegerem a mim.

    E a vacinação das crianças também deve ser para as proteger a elas, e não para os proteger a eles, os borrados de medo.

    Os borrados de medo começaram por nos dizer que era só até vir uma vacina. Depois que era só até estarmos todos vacinados. Depois que era a terceira dose. Os ingleses já falam da quarta dose. Outros dizem que agora tem de ser até vir uma nova vacina que impeça a transmissão.

    Os borrados de medo eram borrados de medo antes da vacina e continuaram a sê-lo já vacinados. Eram borrados de medo antes de terem a doença e continuaram depois de recuperarem dos seus sintomas ligeiros.

    Os borrados de medo serão sempre borrados de medo.

    E os que não o são, não o eram antes, nem o são depois.

    Porque os que não são borrados de medo aceitam simplesmente os riscos inerentes a estarmos vivos. Para os borrados de medo nenhum risco é pequeno o suficiente para que deixem de ser borrados de medo.

    É muito perigoso ir contra os borrados de medo. O medo é uma força poderosa, que os torna inabaláveis nas suas crenças e agressivos com quem lhes demonstra o seu ridículo borrado de medo. Quem anda sem medo, sem máscara, sem distanciamento, sem desinfecção… e sem consequências desse comportamento, esse é um indivíduo mortal para os borrados de medo. Essas pessoas são a criptonite e a némesis dos borrados de medo. Porque desmascaram o medo verde-vómito que os cobre.

    Por isso, estamos perdidos. Os borrados de medo são implacáveis. É necessário que todos os outros cumpram as suas regras de borrados de medo, para que fique disfarçada a sua fraqueza vergonhosa.

    Os que não são borrados de medo não querem nem saber o que os borrados de medo fazem. Mas os borrados de medo precisam de controlar tudo aquilo que fazem aqueles que não o são.

    O que seria do mundo, se cada um pudesse decidir fazer o que queria em relação ao vírus? E se nada de diferente atingisse os que nada fizessem e andassem sem preocupação nem medo, na sua vida normal? Os borrados de medo seriam descobertos.

    Não pode ser.

    Coragem não é não ter medo. Coragem é ter medo, e enfrentar esse medo, e agirmos como se não sentíssemos dentro de nós esse medo. E, quando agimos como se o medo não existisse, ele efectivamente vai diminuindo dentro de nós até desaparecer.

    Cobardia não é ter medo. Cobardia é ter medo e entregarmo-nos ao medo e ficarmos paralisados e condicionados na nossa acção por causa dele. E, quando condicionamos aquilo que fazemos ao medo que sentimos, ele vai crescendo e aumentando, dominando-nos cada vez mais.

    Cobardia é ser-se borrado de medo.

    Os borrados de medo estão à nossa volta. São quem manda em nós. Querem que todos sejamos como eles. Eles odeiam quem não é borrado de medo, porque o nosso comportamento desmascara a sua cobardia.

    Os borrados de medo são o Novo Normal.

    Tiago de Abreu, médico, especialista em Medicina Interna

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      1. Ocorreu-me um pensamento: como será que este senhor doutor médico tratará os seus doentes, idosos ou de grupos de rico, que lhe transmitam o seu medo da pandemia… chamar-lhes-á cobardes e “borrados” ou guarda isso para as prosas no Observador?

        Porque é este tipo de atitude que eu tenho dificuldade em aceitar. O que não hesita em ofender quem não partilha a sua “iluminação”.

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  2. Os “Médicos pela Verdade” gostam dele:
    https://m.facebook.com/medicospelaverdadeportugal/posts/133006075200842

    https://www.medicospelaverdadeportugal.com/blog/post/133800/carta-aberta-enviada-por-um-dos-nossos-m-dicos-a-diversas-entidades-do-nosso-pa-s

    No caso desta “carta”, o problema é que ele não teve camas covid para dispensar, mas antes ao contrário.
    Será que admitiu isso?

    Porque a credibilidade das posições deve ser confrontada com todos os factos e não apenas com os seleccionados.
    será que se passou o que ele antevia naquela “carta”?

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  3. As camas de hospital sempre existiram, a Gestão Hospitalar é que foi e é caótica.
    Chegou-se ao ponto de ter hospitais com imensas camas vazias mas sem profissionais atolados em fatos de astronauta com medo de praticar a sua profissão.

    O “borrados de medo” foi uma expressão metafórica .

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    1. Não tem nada de metafórico, pretor.
      Basta passar pelas páginas dos “x pela verdade” para observar o vocabulário que é usado em relação a quem consideram carneiros e acéfalos, como ainda há uns dias aqui fui chamado.
      Do lado dos “aceitacionistas” existe alguma arrogância e má educação? Sim, mas ao menos há quem tenha dúvidas.
      Do lado dos auto proclamados críticos a violência verbal (e não só) é uma evidência sempre que entram em “grupo”.

      E depois há aquela coisa chata de mudarem de posição sem o assumir.
      Quando a Suécia tentou a “imunidade de grupo” com uma estratégia mais libertária, deram-se vivas.
      Mas agora, não se admite que falhou e já se diz que a “imunidade de grupo” é um mito.
      Decidam-se.
      Ao menos, eu admito que não sei e apenas vou verificando que o que chamam “vacinas” reduz imenso os sintomas da doença, mesmo antes da variante que dizem ser menos agressiva (por agora).

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      1. A Suécia falhou a imunidade de grupo como todos falharam.
        Agora já viste o números na Suécia? melhores que Portugal , onde para ir dar um peido á esquina se usa máscara!?
        A mortalidade total, por todas as causas, na Suécia, continua absolutamente normal. Sem destruição da sociedade por confinamentos ou máscaras&gel.
        Com racionalidade, continuam pelo segundo ano a comprovar que o “resto do mundo” é gerido por políticos ou comissários políticos sem escrúpulos.

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  4. “Foi por puro desconhecimento da real situação no terreno, por incapacidade de gerir as camas disponíveis (em maior número do que era habitual), por mero medo (originado pela ignorância) de que a situação se descontrolasse que tudo se precipitou – fecharam-se os cuidados primários de saúde, parou-se grande parte da atividade hospitalar, apostou-se num confinamento extremista, com a justificação de que era necessário evitar o colapso dos hospitais. Erro, após erro, após erro.”

    Antonio Ferreira
    Médico e Professor na universidade do Porto

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    1. Uma coisa são os erros da gestão hospitalar, outra dizer que a pandemia não mata e se morre “com covid” mas não “de covid”.

      O problema é que se está a escorregar da crítica à gestão da pandemia para outra coisa que já se viu em outras paragens.

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      1. Falei da gestão hospitalar porque começaram a falar de número de camas.
        Qualquer doença mata. Esta abaixo dos 40 anos tem um numero de mortos irrelevante estatisticamente falando.
        Em portugal:
        Abaixo dos 19 anos morreram 3 crianças.

        No intervalo dos 49 anos até aos 19 anos morreram 252 pessoas.

        Morreram 548 pessoas no intervalo [50 ;59]

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    1. Eu não compreendo essa “relativização”, colocando par a par doenças não infecciosas com doenças infecciosas.
      Morres de AVC ou cancro por razões completamente diferentes das que estão na origem de contágios virais ou bacterianos.

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    2. Certamente por lapso esqueceram-se de divulgar quantos morreriam na pandemia se não tivesse sido tomada qualquer medida, estratégia que, começo a pensar, deveria ser seriamente encarada, a bem da regeneração do planeta e da espécie predadora dominante, dado que a coexistência dos dois se vem revelando cada dia mais problemática.
      As Descobertas também não teriam tido lugar se os empreendedores nobres que as congeminaram não tivessem a possibilidade de engajar à força nas naus o número necessário de marinheiros. Quem estaria disposto a passar largos períodos de tempo sem ver a família e arriscar a morte certa por doença ou acidente no mar?
      Hoje somos chamados a fazer a nossa quota de sacrifício para bem da humanidade. Se isso implicar que os governos, em vez de tornarem os testes, vacinas e certificados obrigatórios para ir à discoteca, tornarem a não-vacinação e a contaminação alargada obrigatórias, que havemos de fazer? É um pequeno preço a pagar pelo progresso da humanidade e pela diminuição da idade de acesso à pensão de reforma. E por este andar nem precisamos de tornar esse gesto cívico obrigatório porque haverá com certeza um grande número de voluntários. Tratemos pois de encontrar um vice-almirante e façamo-lo emergir das profundezas de um qualquer oceano onde a pescada se faz cada vez mais rara e cara, para que se possa implementar um serviço de triagem para encaminhar esse voluntários para os centros de contaminação. Complementemos esse gesto altruísta com a instituição de um sistema de acompanhamento para verificar se os contaminadores estão por sua vez a propagar a infecção ao número mínimo de semelhantes requerido para o sucesso da operação. Criemos uma tabela fotogénica com cores e linhas mandatórias, abaixo das quais será necessário passar a inocular o vírus nos cidadãos e nos seus animais estimação.
      E mais ainda, usemos a esmola da Europa que agora nos chega para pagar a tempo e horas às farmacêuticas que fornecerem as doses de vírus activadas e aos laboratórios contratados para criar as necessárias mutações.
      A bem da Nação.

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  5. Curiosamente passou de moda ir buscar esse exemplo da Suécia quando o septuagenário que profetizou a imunidade de grupo se veio mais ou menos retratar. Como se engasgou a meio da sua caturrice neo-eugenista, tiveram que se desculpar também os mais altos responsáveis da nação.
    Note-se que com menos confinamentos o Costa lá da zona foi até corrido primeiro que o nosso, em Junho de 2021.

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