E As Minhas Aprendizagens Perdidas?

A passagem para a “Escola Secundária” e do 2º do Preparatório para o 7º Unificado foi daquelas que abalariam a psique mais equilibrada. E nem vos falo do ambiente da coisa para um tipo paz d’alma como eu (sim, o mais possível), que por aqui há amig@s suficientes desses tempos e lugar, para ter de explicar demoradamente o contexto de completa anarquia em que funcionava quase tudo (excepto as turmas A, claro, de que eu estive sempre muito longe como se percebe pelo 7º J e mais tarde por um 9º M, se não estou em erro). Basta dizer que quando a um dos cromos mais difíceis não apetecia fazer (ou faltar a) um teste, havia ameaça de bomba a partir da cabine telefónica mais próxima e parava tudo.

Nem me lembro quando começaram as aulas do 7º ano (penso que esticou quase até Novembro) e vê-se logo que não estive no meu melhor com aquele 4 em Matemática (o jovem professor era o nosso dt e namorava com a professora de Geografia, tema que ocupava muitas das questões que lhe colocávamos quase todos os dias ou certamente sempre que ela faltava, enquanto ele corava como um tomate cereja cultivado em estufa de Odemira ao mesmo tem que pensava na sua desforra nas notas finais) Em História, a professora nem avaliou os parâmetros, mas deve ter sido porque era embirrante que se fartava e levou 3 anos atormentar-me os miolos (a única “estabilidade” que tive do 7º ao 9º e bem que a poderia ter dispensado). Os “Trabalhos Oficinais” eram daqueles em que se tinha uma área por período e só me lembro que tive 6 aulas de Dactilografia no 1º período. Não faço ideia do que tive no 3º período. Não sei se repararam que no caso de Educação Física, no impresso, nem estava previsto que existisse qualquer “nível global atingido”. Também não foram avaliados os parâmetros, mesmo se o professor em causa viesse, anos mais tarde, a chegar a fazer parte do Conselho Directivo.

Como se percebe entre as aulas previstas e as dadas há um belo fosso. E era o 3º período. Foram dadas 195 das 268 calendarizadas (72,8%). Eu assisti quase de certeza a 194 e não a 193 aulas, porque a tal professora de História marcava falta a quem chegasse um milésimo de segundo depois do toque, em especial se fosse rapaz todo suado, a chegar em grupo, do campo de cimento onde jogávamos uma modalidade desportiva a que chamávamos futebol porque tinha baliza (sem rede) e bola (às vezes, porque também valia qualquer garrafa de plástico). E ela adorava arranjar um motivo para implicar comigo, o que se manteve no 8º e 9º anos. Nem sei se foi uma espécie de “psicologia inversa” ou o desejo de fazer uma espécie de compensação que me fez acabar em professor de História.

Mas indo ao “essencial”… nunca ninguém me/nos compensou pelas aprendizagens perdidas.

17 opiniões sobre “E As Minhas Aprendizagens Perdidas?

  1. O problema hoje é que querem tudo (e mesmo tudo, desde os testes às atitudes) quantificado até às milésimas!

    Eu também tive, como aluno e como professor, avaliações qualitativas durante o ano letivo, que depois se convertiam numa avaliação quantitativa. No secundário, aplicavam-se avaliações de Mau, Medíocre, Satisfaz, Bom e Muito Bom. Simplificava todo o processo (não como a canseira de agora em que tratam os testes como exames!), com grelhas e grelhinhas, que não lembram ao diabo…) e, no fim de contas, avaliava-se tão bem ou melhor do que agora. Agora? Ai Jesus se tudo o que as criancinhas fazem não é quantificado! Cai logo o Carmo e a Trindade! E porquê?

    Porque todos duvidam do trabalho do professor e usam as contas dos testes e das grelhas para avaliar o seu trabalho, Como se o trabalho de um professor se medisse por aí…. Santa ignorância….

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  2. Eu pensava que o termo “aprendizagem(ns)” com que agora os eduqueses patrocinados pelo SE Costa enchem a boca era recente. Afinal estava enganado.
    O que diria o Valter Lemos de tanta falta de assiduidade por parte dos docentes…

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  3. O que eu gargalhei!!! Pois eu tenho mesmo tipo de história de vida escolar. o meu 7º ano era o 7º R. Lerem bem! 17 turmas! E o que o Paulo teve de embirranço por parte de História, eu tive em F.Q e dois anos ( n8º e 9º), com a professora a sibilar-me que eu nunca teria positiva na sua disciplina ( e eu era mesmo mesmo uma paz de alma) e não tive, apesar de ser uma aluna de 4 e 5 (s) que hoje daria direito a perguntarem á criatura o porquê daquela nota. Ironia. No 1º ano que fui dar aulas, voltei a essa escola e lá estava a criatura, igual a si mesma, mumificada. Eu tinha horário misto (tarde e noite) e ela só noite. Com a redução de idade e e a redução por conta de ser nocturno , creio que tinha duas turmas que ela despachava a rigor, logo antes do final do período, pois os alunos desapareciam ( os persistentes eram os que queriam fazer o 9º ano, estava a começar essa pressão e mesmo assim, ela despachava-os). Ei-la a regressar dez minutos após o toque , a rosnar que ninguém aparecera, sumariava os alunos não compareceram e ia-se embora. Desconheço o lhe faziam depois, se ela não tinha alunos.
    Mas eu comecei em 88 a dar aulas ( e poderia ter começado em 86 mas fiz outras coisas na vida) e fui encontrar um sistema muito semelhante ao que o Paulo descreve e que eu tive como aluna. A grande tarefa era não borrar a pauta e não confundir o verde e o vermelho de faltas justificadas e injustificadas. Justificações? Nenhuma. Actas? havia mas acho mesmo que era para provar que estivéramos presentes. Previstas e dadas? Não me lembro de as pedirem. Mas sei que todos os professores faltavam – eu fartei-me de ter furos e de jogar badmington e eram turmas e turmas a jogar qualquer coisa ….e , já como professora, havia professores que faltavam. Sobretudo, ninguém queria aturar o básico. O verdadeiros professores tinham o Complementar. Por isso, tanto como estudante e como professora ( que ainda frequentava a faculdade) percebi que a regra era: salvavam-se aqueles que, mesmo vindo de meio social mais desfavorecido (adoro eufemismos) , lhes dava para serem bons alunos. Em casa, alimentava-se o rigor e a importância da escola.
    Quem não viveu isto, e seja mais novo, talvez não perceba como é mesmo muito confuso a quantidade de coisas que a minha geração, a do Paulo, viveu e o contraste entre o antigo e o actual. Não que se defenda o saudosismo, mas sem dúvida que só para falar em termos humanos, mesmo na relação com os putos, era totalmente diferente. E sim, marcávamos muito mais a vida dos alunos. Hoje, é mais raro e nem temos capacidade para os conhecer. Com 200 alunos, como se pode?

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    1. Embora seja muito mais nova, recordo-me bem do prazer de ouvir o segundo toque e gritar “feriaaaaaaaaaado”! Éramos tão felizes!
      Os jovens de hoje não o saberão porque não têm comparação, mas nós sabemos! 😀

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  4. No meu 10 ano a professora de Português era licenciada em Matemática e a de Latim em Alemão. No 11 e 12 a coisa não melhorei . Por aqui se pode aquilatar da qualidade das aprendizagens. Mas com boa vontade de todos, alunos, professores e família lá conseguimos fazer os exames nacionais e entrei na Faculdade de Letras do Porto , em História.
    Essa geração triunfou, singrou na vida e nunca se queixou da falta de aprendizagens.

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    1. Sim! Lembro-me perfeitamente da ameaças de bomba. Acho que começou com a implementação dos exames nacionais (antes não havia) e pela primeira vez soube o que eram RGAs!!

      Agora? Os alunos nem sabem o que isso é. Têm assento nos CGerais, nos CTurma, mas nem se dão ao trabalho de ir às reuniões! Amorfos! Nos telemóveis o tempo todo.

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  5. Leio e é idêntico ao que passei. Estou vivo e não traumatizado. Aprendizagens perdidas? Muitas. Concordo com o Manuel e ers64. Os verdadeiros traumatizados serão estas comanditas das ciências ocultas e obscuras e os politiqueiros dos partidos portugueses…mais os seus amigos de opinião publicada.

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  6. Aprendeu-se o que não se sabia ser “resiliência”.
    Era mesmo “calo”, daquele que ajuda a encarar os eduqueses como uma espécie de engomadinhos daqueles tempos, em regra os protegidos do “sistema”, que agora se armam em compungidos com as vítimas que el@s nunca foram.
    Se quero voltar ao passado? Não, mas ilustrar que muito do que agora existe, já existiu, só que num contexto completamente caótico ao qual soubemos sobreviver.

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  7. Também tenho por aí uma ou outra ficha informativa similar às apresentadas… Ai as aulas previstas mas não dadas em algumas disciplinas… então no 9 ano já parecia mal pois foram quase dois períodos sem professor de Matemática (ainda tentaram enfiar-nos em outras turmas com evidente desconforto para todos) até surgir um salvador, um jovem estudante de engenharia da Universidade do Porto e que teve dificuldades iniciais em controlar uma turma de 29 alunos … Também tive aulas de Matemática lecionadas pelo professor de Geografia, mas o senhor poderia ser da área de Economia, disciplina que também lecionava no 9 ano. Havia muitos feriados para alegria da malta.😁
    Ah! Até havia exames no 9 ano, mas quem obtivesse uma determinada média e não tivesse níveis negativos no terceiro período do 7, 8 e 9 anos, dispensava! À conta disso, safei-me!
    As aulas de Educação Física foram sempre ao sabor do vento e no Complementar até eram facultativas… Recordo que o docente de Filosofia do 10 ano faltava “bué”, mas era muito “fixe”… Eu era aluna da área D – Estudos Humanísticos.

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    1. Fuquei dispensadá dos exames de 9. por ter tido 5 a tudo excepto desenho. Feriados, bué… era uma alegria, mas aprendia-se e escolhíamos a área que nos fascinava.Qual psicologia para orientação vocacional? Fui para humanidades e adorei, apesar de um secundário cheio de greves de alunos e professores não profissionalizados: advogados, padres, comerciantes, poetas, médicos…

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    2. O meu de Filosofia também era “curtido” e contava muitas anedotas. De Filosofia é que não aprendi grande coisa e foi o único teste em que copiei sem vergonha ou arrependimento, com o caderno aberto do meu parceiro Jorge ali entre nós, na última fila. Deu para 13 ou 14 e já foi muito.

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    3. Maria: deve ser mais nova do que eu. Houve um ano e único, que foi obrigatório exames de 9º ano independentemente da média do aluno. No ano seguinte , acabaram. Hoje, tenho a certeza de que aquela parafernália inútil fez movimentar os professores , até porque, estou mesmo a ver a cara de muitos, a terem de aturar vigiar e corrigir exames de básico. Como aluna, que tinha uma excelente média, senti-me injustiçada a não percebia qual era o objectivo. Também nunca ninguém nos explicou. Conclusão: já havia no Ministério que andasse a fazer experimentações.

      Quanto a ameaças de bomba e já como professora, e no início dos anos 90, pelo menos por cá, eram habituais, pois havia alunos que iam à cabine telefónica ali perto e “avisavam” a escola. Lá vinha a GNR e os cães. A razão tanto podia ser por haver testes, ou então, outra coisa catita, que também foi outra experiência, a das Provas Globais, no Secundário. Ou seja, exames para todos, feitos a nível de escola, que todos tínhamos de corrigir como em exames, cada professor encarregado de uma determinada parte , e depois trocava-se com outro colega que iria verificar se concordava com a nossa correcção, ou discutíamo-la ali mesmo, e daí terem de ser corrigidos na escola por isso mesmo. Havia uma percentagem da dita que contava para a nota final. Depois, os alunos começaram a fazer manifs e alguém se lembrou de acabar com elas. Afinal, era avaliação contínua, para quê mais extras? –
      Valham-me os Deuses mas eu sinto-me uma espécie de Frankenstein do Ministério da Educação. É só experiência (s) !

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  8. O que é possível verificar é que a assuidade dos professores naquela época era, provavelmente, mais baixa do que nos nossos dias. E isso não significava que não aprendíamos igualmente. A nossa retaguarda é que era diferente.

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    1. El Greco: os professores tinham os chamados artigos 4º’s. Que descontavam nas férias. E eram dois por mês. ( foi instituído antes do 25 de abril para as mulheres , funcionárias do estado, atendendo a que muitas faltavam devido ao período menstrual e assim, poderiam justificar a falta, ignoro se com desconto de ordenado, ou de férias). O que, na prática, dava 12 dias em 9 meses, mas não esqueçamos o haver meses com férias… No 12º ano tive professoras que faltavam no Natal para ir a Vigo aos saldos, outros não sei a razão. Todavia, no básico, faltavam mais. Tudo isto porque, o ensino obrigatório até ao nono veio já era eu professora; e agora é até aos 18 anos. O que significa que os professores , naquela altura, tinham consciência dos exames, de exigir bastante a quem seguia para o Complementar e exames. havia uma competência científica louvável, mesmo que não fossem de estratégias de motivação. E, sobretudo, quem ia à escola, gostava de ir às aulas, mesmo que depois se celebrassem os feriados.
      Nota: alguém aqui acha que se pode tratar de saudosismo. Para quem não estiver atento, isto não está a acontecer só cá. Em França, não há professores, há muita gente a reformar-se ou de baixa e o sistema deles de substituição está a mostrar que nem os substitutos querem essa tarefa. E as queixas são iguais, sobretudo no que respeita à burocratização de tudo.
      Em Espanha, passa-se o mesmo. Mas a idade de reforma é, creio, aos 60, Perguntei recentemente a amigo espanhol que é lá professor. Por lá,espantem-se, querem acabar com a Filosofia! :)- Para ser mais correcta. este caso é na galiza.

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