Luso-Portugalidade Global

Azerbeijão- Geórgia em futsal. Pausa técnica. No banco do Azerbeijão, o treinador brasileiro fala em português com os quatro jogadores de campo, brasileiros naturalizados (o guarda-redes, o único azeri então a jogar, nem sequer fingia tomar atenção). No banco da Geórgia, o treinador georgiano fala num português mal amanhado com três dos jogadores de campo, brasileiros naturalizados, dois deles a jogar em Portugal, recomendando “calma”, “passa” e “taque” (ataque?) ao pivô Vilela.

O Tédio Como Defesa Da Saúde Mental

Estava a ler mais uma prosa de outro economista transformando em especialista instantâneo em Educação e “aprendizagens perdidas” por causa da pandemia. É o bostoniano hifenado Aguiar-Conraria, que faz uma espécie de reflexo no Expresso da economista Peralta, ambos subitamente compungidos com os imensos males que as pausas escolares fazem nas crianças mais desfavorecidas. O texto contém diversos disparates e afirmações carentes de demonstração, mas ele já afirmou que não receia dizê-los (aos disparates), pelo que me passou logo parte da vontade de contraditar aquelas certezas formatadas pelos preconceitos. Por outro lado, muito daquilo não é novo e já me entedia tentar explicar o bê-á-bá das coisas a gente que alia a pesporrência a uma arrogância académica nascida de se ser do “superior”. Falam em estudos, mas raramente os dados confirmam realmente as conclusões que apresentam e há momentos em que tentar contraditar quem assim argumenta chega a ser um atentado à nossa saúde mental e eu já tive a minha conta a esse respeito nos últimos 15 anos (para falar apenas em anos-blogue), parecendo-me escusado voltar a martirizar-me a tentar fazer entender algo que vai contra as crendices de quem já decidiu o que está certo e errado.

(basta ver que há quem fale em meses a fio de escolas fechadas, quando em 2020 fomos dos que tivemos as escolas fechadas abaixo da média; entretanto, a situação actual está representada aqui, com Portugal a fazer parte dos países que se considera não terem ainda tomado quaisquer medidas restritivas ao contrário de boa parte da Europa Ocidental)

Há muitos anos que há quem se lamente que os alunos podem fazer um percurso de “sucesso” com imensas “aprendizagens por realizar” em variadíssimas disciplinas. Mesmo naquelas em que atingem a “positiva”, pode haver o caso de até nem ter feito mais de 50% das aprendizagens previstas e/ou desejáveis que, graças às “atitudes” e ao emaranhado das justificações burocráticas, passam de ano. E não me venham com tretas, que não é assim, que se assim é a culpa é dos professores que não se esforçaram. Não se esforçaram uma m€rd@, ok, que o ónus da prova e da culpa não poem ser só dos malandros que um dia decidiram passar de alunos a professores “não-superiores”, tendo perdido praticamente toda a muito exaltada presunção de inocência ou o benefício da dúvida quando algo corre mal. O sistema está montado para fingirmos sucesso, fabricarmos sucesso, quantificarmos sucesso. Mas, mesmo se muita coisa melhorou nos PISA (e quer-me parecer que anda por aí muita tentativa de pré-justificar potenciais derrapagens futuras), a verdade é que as “aprendizagens” realizadas efectivamente estão longe de ser satisfatórias ou boas. Portanto… a pandemia piorou as coisas? Sim, piorou o que já não estava bem. Podia ser de outra maneira? Não sei. Mas é por causa de algumas semanas sem aulas presenciais que é o descalabro? Não propriamente, porque esse descalabro resulta em boa parte das políticas dos últimos anos e da falta da devida preparação desde 2020 para as novas vagas pandémicas.

Portanto, em defesa da minha saúde mental, ainda bem que o tédio me desencorajou a réplica mais detalhada e específica sobre os preconceitos que alguns economistas estrangeirados apresentam como evidências certificadas sobre as aprendizagens “perdidas” das criancinhas em Portugal, branqueando dessa forma o falhanço das políticas sociais da governação dos últimos 5-10-15 anos. A realidade das “desigualdades” tem origens bem mais profundas e endémicas do que esta ou aquela interrupção do ensino presencial.

Sábado

Penso que a questão da “maioria absoluta” pode ter ficado definitivamente afastada ontem à noite, com a ida do “absoluto” Sócrates à CNN Portugal. O que poderia parecer mais uma péssima ideia, provavelmente acabou por ser serviço público, pois ver e ouvir aquela figura mais uma vez a repetir uma narrativa gasta e mitómana pode ter valido dezenas de intervenções políticas de outras figurinhas deprimentes que andam por aí. Não sei a audiência da coisa, mas só fazer lembrar que aquele tipo teve, graças a uma maioria absoluta, mais de 4 anos para perverter ainda mais o sistema democrático e quase o fez, é remédio decisivo para qualquer pessoa sensata querer repetir a fórmula, para mais com um dos seus ministros e muitos descendentes da sua corte. Não será por acaso que Passos Coelho não aparece a dar entrevistas ou a fazer intervenções muito mediáticas, pois também sabe o lastro da sua maioria absoluta. Portanto, paradoxalmente, obrigado, CNN Portugal, por um inesperado serviço se interesse público.