Mas A OCDE (E Até O Próprio CNE) Não Dizia(m) O Contrário, Nem Sequer Há Muitos Anos?

Durante muito tempo, havia quem se esforçasse por desmontar aqueles estudos que garantiam que em Portugal os professores progrediam muito depressa e ganhavam muito no topo da carreira, tomando como boa e válida a estrutura da carreira docente que está no papel. Esses estudos (da OCDE ou derivados) sempre ignoraram a diferença entre a carreira nominal e os salários brutos inscritos nas tabelas com a realidade vivida por todos nós. Embora com interrupções no início, estão quase a passar 35 anos que comecei a dar aulas, 30 deles de forma consecutiva. Em outros tempos, até devido à única bonificação decente que recebi (mestrado concluído em meados dos anos 90, que o doutoramento de quase nada valeu), com a estrutura de carreira do momento em que nela entrei, estaria já no último escalão há anos, o que equivale ao 9º escalão actual. Estou no 7º, índice 272, tendo sido obrigado a passar por dois (incluindo o actual) que antes não existiam e ainda levado com o sistema de quotas e o congelamento.

As alterações introduzidas no período Sócrates/MLR criaram distorções, posteriormente agravadas de tão descaradas maneiras (as entradas por várias “portas do cavalo” a pretexto disto ou daquilo), que entedia repetir o que fui escrevendo em década e meia de intervenção pública mais visível. Há quem tenha praticamente a minha idade e esteja entre o 4º e 5º escalão. Há quem, com mais de 60 anos e cerca de 40 de serviço, por causa da abjecção que é a ADD, esteja no mesmo escalão que eu, o que acho de uma enorme injustiça, por muito que exista a quem desgostem os “velhos” que um dia também serão. É uma vergonha que ao fim de uma carreira profissional de 4 décadas se leve uma reforma líquida de 1200-1300 euros, se a pessoa estiver a 3-4 anos do limite de idade da aposentação. Há quem com 32-35 anos de serviço leve menos de 1000 euros, mas isso ainda desperta fúrias, de natureza diversa, com as quais tenho muito pouca caridade, seja a partir de fora da classe docente, seja a partir de dentro dela (o que ainda é mais abjecto, quando há quem queira elevar-se à custa dos outros ou querer mais para si, prejudicando terceiros). Quantas vezes, aceitando uma pseudo-legitimação encomendada à OCDE e àquelas figuras que foram parceiros preferenciais de secretários de Estado, Valteres ou Joões.

Que o Conselho Nacional de Educação venha agora concluir que há quem “aos 45 anos no 1.º escalão de uma carreira que tem dez patamares de progressão, já tendo coleccionado em média quase 16 anos de tempo de serviço” é de uma enorme hipocrisia porque durante 15 anos o CNE validou, por acção ou inacção, um conjunto de políticas que levou a que isto fosse possível. Professores contratados, nem sequer no 1º escalão, em horários temporários e/ou incompletos, deslocados centenas de quilómetros do seu domicílio de origem, com mais de 40 anos de idade. Realmente, que há-de querer isto? Algo que deveria cobrir de vergonha quem tem como missão estudar e aconselhar as políticas públicas da Educação, para além de um papel cerimonial e muito respeitoso dos protocolos. E que prefere divulgar os estudos publicamente em parcerias mediáticas, em vez de o fazer de modo autónomo e com um maior respeito pelas próprias escolas, com as quais praticamente não estabelece qualquer tipo de relação directa. Agora é que anunciam um “alerta”?

Grande parte dos elementos do CNE foi conivente com tudo isto, a começar por quem lá está refastelado há décadas, sem que grande coisa se lhe tenha visto ou ouvido acerca disto, excepto em ocasiões de circunstância. E virem com esta conversa da docência não ser atractiva para eventuais novos candidatos é deixar de lado que ela deixou de o ser, há muito, mesmo para os que nela se encontram. É apagar da História a activa colaboração com as políticas para a carreira docente de Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato, mas também dessa inexistência em tal matéria que foi Tiago Brandão Rodrigues. Apesar de uma composição cheia de pessoas de falas mansas (passei por alguma iniciativas, conheço em pessoa algumas delas, umas até com boas intenções, mas sem qualquer tipo de capacidade de intervenção consequente), o CNE esqueceu-se dos professores, porque ideologicamente muitos dos seus elementos acham que os alunos são o centro único da Educação e assim cristalizaram algures à entrada dos anos 80.

Em coerência, deveriam sair dos seus cadeirões e irem dar-lhes aulas – ou melhor, irem estimular o seu interesse pelo conhecimento – em vez de largarem, de forma bissexta, umas lágrimas de crocodilo.

Vão-se catar!

Quem Quer Atravessar O Deserto Durante Quase 5 Anos?

É a questão que se coloca à agora chamada “direita tradicional” (PSD+CDS). Será que quem antes tanto lutou pelo poder tem mesmo esse espírito de sacrifício, para mais sabendo que nem deverão conseguir chegar ao fim da “seca”, por tantos exemplos anteriores? O Expresso tem por ali umas notícias a relançar Rangel e Melo, mas penso que é um daqueles empurrões envenenados, a menos que seja com a garantia de uns quantos lugares em administrações quando tiverem de ser afastados para dar lugar aos que irão verdadeiramente herdar os ossos que o PS deixar por roer daqui até quase ao final de 2026.

Então, Porque Faltam Professores?

Tenho algumas ideias sobre as razões, mas é sempre melhor esperar pelos “especialistas” e mais um qualquer atrasado estudo prospectivo. Se possível daqueles que ainda há 2-3 anos diziam que eram em excesso. Mas que têm a distinta lata de fingir que não o disseram, para agora aparecerem com “soluções” para problemas que garantiram não existir.

Em relação ao ano lectivo de 2010/2011, houve menos 16,6% alunos no 1.º ciclo, menos 18,6% no 2.º ciclo e menos 12% no 3.º ciclo, revela o relatório do Conselho Nacional de Educação.

5ª Feira

Aguardo, com alguma paciência e muito desinteresse, pelos apelos intensos à “luta” por parte daqueles que a adormeceram meia dúzia de anos em troca de uns lugares para os camaradas em alguns nichos do Estado e mais uns méreis de mel mal coado. Chamem-me depois desertor da luta, se eu apresentar dúvidas ou críticas, que eu vou rir-me muito.