Por Acaso, Não Me Parece Assim Tanta A Preocupação Com A Falta De Professores…

… no relatório do CNE sobre o Estado da Educação em 2020 (ver em anexo). Comparando com as prosas com olhares pessoais sobre a pandemia, parece-me escasso o espaço dedicado ao assunto e nulas as sugestões para ultrapassar o problema que deve ser novo, pois não deu tempo a que escrevessem sobre isso. Mas não me espanta muito que isso aconteça, pois ainda há poucos anos, em estudos feitos em parceria (pelo menos na divulgação) com o CNE, o projecto aQueduto passou completamente ao lado do assunto, quiçá na crença de que o congelamento na carreira também teria congelado a idade e estado de conservação da classe docente.

Este Gajo, Desculpem, Este Senhor Doutor Gajo Foi O Que Validou Tudo E Mais Alguma Coisa Nos Tempos Do Engenheiro E Agora Tem A Distinta Lata De Ainda Aparecer Com Conversas Destas?

O fundamental “é que a estrutura de carreira dê o devido reconhecimento ao crescimento profissional do docente”, diz Paulo Santiago, especialista da OCDE.

Relembremos o seu apoio à ADD da “senhora reitora”, que lixou por completo a “estrutura da carreira” e qualquer “devido reconhecimento” do “crescimento profissional do docente” (e este apoio foi ainda em tempo de “titulares”). Olhem-no aqui em 2012 a criticar a “cultura” das escolas portuguesas e dos professores por não andarem de “porta aberta”. Mais recentemente, apareceu de novo a validar políticas que só servem para sobrecarregar os professores de burocracias redundantes, mas para ele é tudo “formativo” e críticas mais ou menos explícitas aos professores por não saberem avaliar os seus alunos.

Domingo

Ouço uma e outra e outra e outra vez dizer que a Escola não mudou e que está igual ao que era e precisa mudar. Isto cansa ao fim de um par de décadas ou mesmo mais décadas, praticamente desde que sou professor. Vamos lá por partes: as aulas que eu tive na primária são muito diferentes da generalidade das aulas que agora existem no 1º ciclo. Sim, há alguém que fala mais (em teoria) e quem ouve mais (em teoria), mas já chegaremos a essa parte. Quanto a recursos, relações na sala de aula muito também mudou. Se o espaço físico e a organização do tempo não se transformou radicalmente? Não, mas também não se transformaram radicalmente os espaços físicos e tempos do Hospital ou do Tribunal, para ficar por apenas duas outras instituições fundamentais do Estado. A relação entre médico e paciente mudou radicalmente, o consultório passou a ser na sala de estar, com pufes e gamificação, “à descoberta da doença”? A relação entre juiz, advogados e arguidos mudou radicalmente, passando todos a “construir a justiça” na sala de audiências? Já dei estes exemplos, pelo menos um par de vezes a cada ano e a cada revoada de relatórios disto ou daquilo. A Escola mantém alguns traços de permanência e isso não é necessariamente mau. O problema é que há gente que já é um pouquito idosa, que já não entra numa sala de aula há 20-30, quiçá mais anos, e acha que tudo se passa como no seu tempo, quando davam aulas chatas, mesmo quando pensavam que davam aulas interessantes. Pior, há quem ache que as aulas são semelhantes às que traumatizaram claramente algumas personalidades há mais de meio século, quiçá há uns 60-70-80 anos.