Porque Será?

Expresso, 18 de Fevereiro de 2022

Muito se explica pelas imensas aleivosias vindas do topo nos últimos 15-20 anos, mas olhem que nos últimos 5 a 10 se começou a perceber o quão mal fazem as lideranças locais que se foram tornando progressivamente tóxicas, à medida que se foram “descolando” dos que já não reconhecem como pares. E o pior – acreditem – ainda está para chegar, porque à geração dos grandes dinossáurios na Pré-História seguiu-se a dos predadores, mais pequenos, mas mais impiedosos. A esperança é que esses acabaram por se extinguir ao fim de algum tempo. Não sei é se será ainda no meu. Eu podia explicar melhor a analogia, mas acho que até para fracos entendedores, isto basta.

Adenda: vejo-me obrigado a explicar, após vários avisos, que aquele “acabaram” não é uma gralha, ou um “acabarão” enganado (não é que eu não gralhe que me farte). Às vezes a linearidade não é o melhor método de expor uma ideia. Ou seja… eu sei que os tais predadores se extinguiram, mas não sei se eles se “extinguirão”. Muito menos os actuais predadores no meu tempo. Assim perde a graça, pelo menos para mim (que nunca quis ser paleontólogo e baralho os cretácicos todos, mesmo se só existe um) mas fica a explicação quase tão extensa quanto o post.

6ª Feira

Que tanto se fala sobre o regresso à “normalidade”, à “vida normal”, parecendo que com isso se significa apenas ir trabalhar, não usar máscara, não confinar os contactos “de risco” e poder entrar em cafés e restaurantes. Há mais coisas, mas isso parece ser “a vida normal” para tanta gente que escreve e fala, mas parece esquecer que nessa “normalidade ” se incorporam “com normalidade” (o Paulo Bento diria “com dranquilidade”) uma massa imensa de anormalidades para que quiser pensar sobre isso. Porque se tornou “normal” horários de trabalho desregulados, baixos salários, precarização, impostos e taxas a subir mais do que qualquer inflacção ou a maioria dos salários, um orçamento que apenas nega o prolongamento de garantias à arraia-miúda e recua sempre perante quem tem como advogados os autores ou conhecidos/amigos de autores das leis ou contratos que podem contestar em nome dos direitos que adquiriram apenas para si. E o que dizer dos verdadeiros clamores (a começar pela sempre muito vocal economista Peralta) para o regresso da “normalidade” às escolas? De que normalidade fala a senhora doutora? Apenas a que se fica pela superfície das máscaras e horários e da conversa fiada sobre “aprendizagens” não realizadas, como se sem pandemia todas se realizassem, ou pelo menos uma parte média das ditas “essenciais” num modelo que prima pelo “sucesso” dos indicadores de “sucesso”.

Estou farto da anormalidade dos que acham que “a vida normal” é o que havia antes da pandemia, como se fosse tudo coisa virtuosa e “normal” aquilo que o bom sendo dificilmente assim classificaria. Mas como muito patego comum já se considera “normal” se lhe deixarem tirar a máscara sem ser quando vai ao telemóvel, em caminhada, a fumar ou a falar com o canídeo defecante, o melhor é escolher-se já a economista peralta para super-ministra das Finanças e Liberdades da Educação. E o economista Conraria pode ir para super-secretário da Economia, Empreendedorismo e Outras Coisas Fixes em Educação.