Tudo Ao Contrário

Se as crianças e jovens “vivem em função das tecnologias” é nossa obrigação recentrar-lhes um pouco as prioridades, senhor director Manuel pereira e não ir de forma acrítica na onda. Uma coisa é aderir à tecnologia como um meio, uma ferramenta, outra “viver em função” delas. A escola até pode ir “ao encontro da motivação e interesses dos alunos” mas sem abdicar daquela que ainda é a sua função principal: educar. Ou da secundária: socializar. Preferencialmente… ou melhor, prioritariamente num contexto humano e não digital. Olhe que a miudagem reage também muito bem ao contacto humano. Experimente, volte às salas de aula umas semanas, uns meses, quiçá um ano. Não acredite no que dizem, que é a partir do gabinete que se conhece melhor a escola e nunca acredite que consegue estabelecer laços do mesmo género dos professores que estão lá com eles, os alunos, toos os dias. Acredite que não o estou a enganar. O meu caro é que parece ter-se perdido, algures, nessa vontade de querer parecer “moderno”. Não ceda à facilidade dos chavões ou à espuma dos dias. Distinga o que é mesmo “essencial” das parlapatices transitórias.

Público, 21 de Fevereiro de 2021

Inovação Linguística!

Não chega o AO90! Há que ir mais longe. Na newsletter de uma Faculdade em que passei uns bons anos (licenciatura+mestrado+núcleo de investigação) e que agora parece querer ser muito modernaça, temos na mesma edição a insistência numa mesma grafia, quiçá resultado da ida do estagiário ao google tradutor e não se perde mais tempo com isso. Se assim não foi, ainda pior, que se isto é ensino “superior” eu mando-os já de volta para o 5º ano estudar as homófonas, que tenho quase a certeza terem sobrevivido às “essenciais”.

Isto são pormenores? Talvez.

Como Produzir Excluídos Digitais?

Redobrando a exigência de recorrer a serviços online – mesmo antes da pandemia – como se fossem mais fáceis e até mais baratos, quando parte da população não tem os meios para a eles aceder ou não o consegue fazer em condições de uso eficaz. O enorme erro é confundir uma sociedade digital com o número de pessoas que usa smartphones que cada vez as incapacitam mais para as tarefas mais simples.

Encontro por aqui uma necessidade evidente de “formação” dos decisores políticos (e muitos outros, de empresários liberais a chefias “jovens” da administração pública) em sociologia aprofundada da realidade portuguesa. Nem todos vivem(os) no tuítas ou nas tertúlias dos urbanitos do bloco aos ditos liberais.

2ª Feira

Mais uma semana, mais um estudo. Mais um estudo sobre as competências digitais dos docentes. Mais um estudo em que se detectam necessidades de formação em coisas digitais. Aguardo pela semana em que exista um estudo sobre a qualidade de certas formações que andam por aí a ser oferecidas, se fazem algum sentido atendendo aos meios técnicos disponíveis ou se sequer aquilo da “capacitação digital” está mesmo a ser levada a sério. Eu fiz, em especial em 2020-21 várias formações online sobre uma série de plataformas e “ferramentas” interessantes que, depois, não consigo implementar na sala de aula. Nem vou falar dos limites das contas “básicas” (leia-se, gratuitas), que servem de isco para pagarmos a assinatura mensal ou anual individual, porque poucas escolas escapam ao pão com manteiga que a google ou microsoft servem. Tentem colocar uma turma de 28 alunos a trabalhar com o PowToon e nem sequer conseguem “costumizar” o boneco do utilizador sem que aquilo fique às voltinhas, voltinhas, por falta de banda musical. E com o Genially vamos pelo mesmo caminho. Para quando um outro estudo sobre o material disponível nas escolas (e salas equipadas) e a avaliação do que é possível efectivamente fazer? Mesmo com estes computadores emprestados aos alunos. Se todos os levarem para a aula e ligarem e entrarmos num quizz, quantos se aguentam sem estar sempre a sair e entrar do jogo, se não for daqueles com mais “animação” e, por isso”, mais “estimulante” e “atractivo”?