Sobre A Formação De Professores – Carlos Ceia

Texto que era para ser inserido em comentário ao post “Domingo”, mas que achei ser mais interessante destacar como texto autónomo. Acrescento apenas que, tal como critico, não me incomodam críticas à minha forma de ver as coisas, pois sei o quanto posso ser ácido.

O QUE FALTA FAZER NA FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES

Permitam-me entrar nesta discussão, de forma construtiva. Passo ao lado da questão da culpabilização, porque não me parece ajudar a resolver o problema.

Há muita falta de estudo a quem se pronuncia sobre a formação inicial de professores (não me refiro a si, mas os comentários que leio nos seus posts revelam isso mesmo). É fácil generalizar, quando não se tem a mínima consciência do que foi feito nos últimos 15 anos pelo menos. Se ignorarmos as alterações introduzidas ao sistema em 2007 (Bolonha) e depois em 2014 (a lei actual), as opiniões generalistas não passam de palpites infelizes.

Após o DL 43/2007, tudo mudou. Até hoje, os planos de estudos dos mestrados em ensino foram sendo ajustados, corrigidos, actualizados, após 3 processos de avaliação externa (A3ES) muito exigentes e muitas vezes até com algum excesso de zelo. Muitos cursos foram simplesmente reprovados e nada a dizer disso, porque é sinal de que o sistema de controlo de qualidade funciona. A cada processo de avaliação externa (o último, de 2021, está praticamente concluído e muitos planos de estudo foram mais uma vez corrigidos), tentamos melhorar o que nos parece não funcionar bem. Não nos escondemos em modelos de perfeição que não existem. Mas o que temos feito é bem feito, assumo isso e repito. Não me diz nada posturas de dizer mal por dizer mal. Quando um sistema funciona bem, parece que é um crime dizer que funciona bem. Prefiro encontrar sempre formas de aperfeiçoamento do que formas de achincalhamento gratuito e sem fundamento (uma vez mais, não me refiro aos seus comentários, mas a algumas reacções aos seus comentários).

O que tenho tentado defender é que o problema da falta de professores não se explica por uma má legislação sobre a formação inicial. Podia contar-lhe aqui algumas histórias de falta de crença de vários ministros da educação no problema, que verdadeiramente foi ignorado no passado, porque eles acreditaram que nunca chegaríamos à situação actual. Sempre avisei, quando me pediram a opinião, que estavam enganados e que mais valia prevenir naquele momento do que mais tarde, quando o tempo não permitisse resolver a situação rapidamente. Em vão, pois tal aviso foi sempre ignorado.

Agora o que falta fazer? Se for para mexer no DL 79/2014, que seja para melhorar a velha questão da prática profissional. Em 2007, não quiseram assumir que um professor em formação também podia ser professor e ser pago por trabalho em full time nas escolas onde se formavam. Um estudante de um curso de formação de professores era isso mesmo: um estudante e não um professor, por isso não podia ser pago. Essa lógica falhou, até hoje. Esse é o ponto fraco, nunca resolvido, dos mestrados em ensino. O segundo ponto fraco foi também o ter sido retirado aos orientadores (chamados agora professores cooperantes) não só as horas de redução para poderem orientar como qualquer remuneração por esse trabalho difícil. Ainda conseguimos que o Valter Lemos publicasse um despacho, ainda em vigor, autorizando 2 horas de redução, após muita pressão que fizemos. Mas não chega.

O documento enviado pelo ME ao CRUP em Novembro de 2021, se se transformar em lei, vai complicar ainda mais a situação, porque prevê que a responsabilidade da prática profissional passe exclusivamente para os CFAE (já assumi publicamente que deviam ser todos extintos) e os conselhos pedagógicos das escolas cooperantes, sem mencionar, uma vez mais quaisquer contrapartidas financeiras e de redução de horário para os professores cooperantes. Será uma trapalhada jurídica, como já tentei explicar. Vai estragar o que funciona bem e que podia ser melhorado de outra forma, reforçando verdadeiramente a prática profissional (nada a opor a isso), mas implicando um investimento sério por parte da tutela (e não sei se o próximo ministério das Finanças quer assumir esse investimento).

Para não me alongar mais, repito o que disse: retire-se dos 900 milhões de euros do Plano de Recuperação e Resiliência verba para apostar a sério em bolsas de formação (inicial e contínua) e subsídios para os professores colocados/deslocados da sua área de residência e muita coisa mudará.

Carlos Ceia

Leituras

The aid offered by the West may help, but it cannot relieve Volodymyr Zelensky of the terrible predicaments he must manage in the weeks ahead.

Putin’s not a fascist, totalitarian or revolutionary – he’s a reactionary tyrant

‘There is literally no paper trail’: How Russia experts say Putin hides a fortune

Putin’s Latest Speech Is a Terrifying Echo of Stalin

Memórias

À boleia de uma troca de mensagens com o Prudêncio sobre coisas de há mais de uma dúzia de anos.

Contra a avaliação dos docentes enquanto mistificação

Os subscritores desta declaração recusam participar numa mistificação e não vão entregar a sua ficha de auto-avaliação.

(…) Ana Mendes da Silva, Armanda Sousa, Fátima Freitas, Helena Bastos, Maria José Simas, Mário Machaqueiro, Maurício de Brito, Paulo Guinote, Paulo Prudêncio, Pedro Castro, Ricardo Silva, Rosa Medina de Sousa e Teodoro Manuel (professores)

Público, 13 de Junho de 2009

Domingo

Na 6ª feira ouvi algumas críticas, baseadas em estudos que uns conhecem e outros não, nessa interessante assimetria de circulação da informação, acerca da qualidade da formação inicial de professores, mas também da formação contínua. Claro que em surdina, quando eu comentava que andamos sempre a ouvir os mesmos a dizer uma coisa e o seu contrário, sem nunca saírem de cena, ouvi quem dissesse que não interessa agora ir em busca dos culpados. Algo que estou exausto de ouvir. Da obsessão judaico-cristã com a culpa passou-se para a total desresponsabilização hiper-moderna. Ora, a mim custa ouvir quem apoiou as asneiras aparecer agora a admitir que as coisas não correram bem, mas que quem fez a asneira não deve ser culpabilizado porque a não fez por querer, pois não tinha informação suficiente para antecipar o desfecho.

Sejamos claros: é mentira. Tinham informação mais do que suficiente para saber que a formação inicial de professores em aviário bolonhês não era a melhor solução. Já em 1987 eu sabia disso e era ainda finalista de História, vindo Bolonha muito longe, e esta malta que tem acesso a todos os estudos e mais alguns não sabia? Só agora é que aparecem a dizer que dois terços dos professores que formam outros professores não têm qualquer experiências dos níveis de escolaridade para que preparam docentes? Que muita formação inicial de professores é um exemplo dos maiores de pedagogias inactivas, transmissão de saber livresco e preconceitos vários? Basta falar com os alunos desses cursos quando temos a sorte de nos aparecerem, fresquinhos, nas escolas, em substituições. E ficamos a saber tudo aquilo que não lhes ensinaram, até porque nem saberiam o quê e o como. Se esta minha crítica, generalista, é injusta? Porventura será, mas parece que até já há estudos a confirmarem o que afirmo desde que decidiram que se profissionalizam professores antes de eles terem um ano de aulas a sério, tudo certificado por professores que nem esse ano tiveram. Agora querem recuperar o modelo que ajudaram a enterrar e não querem que lhes digamos isso? O tanas ao quadrado!

Quanto à formação contínua temos de tudo, bom, mau, razoável e excelente. O problema é que o muito bom e excelente é quantas vezes feito à revelia do sistema montado em torno de Braga e do centro da certificação das formações, aprisionado pela corte costista que o tornou um dos pontos nevrálgicos do controlo ideológico da formação disponibilizada aos professores. O que na lei se determina é que a formação seja dada a partir das solicitações da “base”, das escolas e professores no terreno e não imposta a partir da super-estrutura político-burocrática que só valida créditos e financiamentos para aquilo que está de acordo com as conveniências políticas dos senhores do momento (que já vai longo) e das inclinações ideológicas dos nichos académicos que fazem parte da constelação daqueles. Porque será que não se diz com clareza que os CFAE são, em tantos casos, profundamente condicionados nas suas propostas e que os que escapam a isso é com base em muita resistência e imaginação para dar a volta ao novelo? Por causa disso, nascem ao lado propostas de formação interessantes, mas pagas e bem pagas, se alguém quer mesmo aprender alguma coisa de novo e não a cartilha a parafrasear os decretos. Há quem se amofine com o “negócio das explicações” para os alunos, mas faça vista grossa ao “negócio da formação” para os professores. Porquê? Se querem mesmo saber é fazer uma pesquisa nem muito exaustiva acerca dos nomes e linhagens. Olhem… façam um estudo que coloque o nome nas alimárias, que sempre serviria para alguma coisa.