Sábado

Dois chavões muito ouvidos por aí: “agora, não interessa apontar culpados” ou “na altura não era possível saber que…”. Em regra, estas platitudes são ditas por quem tem responsabilidades directas numa situação pouco razoável ou na tomada de decisões manifestamente erradas. não apenas agora, mas já na altura. Muito do que envolveu as habilitações para a docência, métodos de profissionalização, formas de recrutamento para os quadros e de gestão da carreira docente (estrutura, progressão, avaliação), em especial nos últimos 20 anos, com agravamento com a “bolonhização” faz parte de um conjunto de decisões que era possível antecipar serem erradas e que foram tomadas por gente que agora aparece por aí com “soluções” nas mãos que, no essencial, significam um retorno ao que existia há cerca de 25 anos. Por uma vez, tal salto para o passado não é completamente errado, pois o que esteve mal foi o que se decidiu fazer durante as últimas duas décadas.

Os “culpados”? Sabemos bem quem são, por muito que tentem alijar-se de responsabilidades ou dizer que em seu tempo não era possível antecipar o futuro. Mas são os mesmos que pedem responsabilização aos outros, que é como quem diz, aos professores. O exemplo maior, todos sabemos, é o da senhora que, cehagada a sua vez, se recusou ser avaliada para aceder a um cargo que o exigia, mas mesmo assim deixaram chegar a “generala”. Porque interessa que identifiquemos estas criaturas? Para que não lhe seja dado novamente um benefício da dúvida, porque há pilecas que a partir de certa altura pouco aprendem, apenas mantendo os vícios de outrora. Em termos humanos, sobra-lhes em vontade de poder e de uma indisfarçável ganância material, o que lhes falta em humildade e capacidade para perceber que deveriam sair da frente e deixar de atrapalhar ainda mais as coisas. Já fizeram suficiente m@rd@, raramente o admitiram ou admitem, mas orgulham-se da “experiênca”. Ide catar-vos.

E de quem se escreve assim em tom de irritação retórica? Dos decisores políticos na área da Educação que validaram políticas a que aderiram por conveniência oportunista ou convicção errada, apesar de se lhes ter dito que não devia ser assim, que as coisas estavam erradas daquela forma, pois o sistema iria ou entupir ou implodir, mas que era muito pouco provável que fosse funcional. Mas também há os que ficaram calados, de forma estratégica, apostando que a invisibilidade em momentos críticos, lhes assegurasse carreira futura. E eis que temos muitos por aí desde 2015, seres que primaram pelo silêncio até 2011 e só acordaram com a troika, como se não tivesse sido antes que tudo começou. Leio, abismado, prosas e citações em que chilreiam passarinhos e quase sentimos o aroma das flores da Primavera, a quem pactuou – salvo honrosas excepções – com o afunilamento da formação docente, com o esvaziamento do seu conteúdo académico, com a proletarização e precarização do exercício da docência, com o aviltamento público dos professores e mesmo com a pura e dura truncagem ou falsificação das informações lançadas para a comunicação social e opinião pública acerca de algumas dessas matérias. Se lhes apontarmos o que escreveram (ou fizeram por não escrever) queixam-se de ser “vítimas”, de serem injustamente “perseguid@s”, quando levaram os últimos 15-20 anos a organizar a vidinha em cima desta nova realidade, fazendo “estudos”, assegurando “consultorias”, criando “modelos”, assegurando negócios com o Estado central e autarquias dispostas a pagar quase sempre aos da sua cor, “soluções” que antes já tinham sido financiadas enquanto “projectos” ou “estudos”.

É nó mínimo ridículo ter alguém que esteve ao lado do ministro Crato, quando instituiu a PACC, num organismo como a DGEEC, agora, em 2022, na pele de directora da Pordata, a apresentar projecções sobre as necessidades de professores e número de alunos sem aulas por essa causa. Acaso não teria sido essa a sua missão em 2012? Antecipar que estavam em desenvolvimento políticas erradas, que levariam ao afastamento de muitos candidatos à docência? Ou ouvir o ex-ministro Justino que, como presidente do CNE, se esforçou por demonstrar o elevado encargo que a classe docente implicava para as finanças públicas? Ou toda a tropa fandanga do PS que validou os despautérios da tripla MLR/Lemos/Pedreira, de forma activa ou pela sombra, e agora anda, de deputados porfírios a arianas formadoras passando por rodrigues inclusivos e sucedâneos menores, por aí a despejar flexibilidades e inclusões em formações, com a benção do vizir que agora já é finalmente califa da Educação?

Eu sei que vamos ter de os aturar e ouvir mais uns anos, pois não há volta a dar aos círculos de influências da corte costista (versão joanina), mas que ao menos exista um mínimo de decoro e não tentem dizer que trazem “novas soluções” para “um problema premente” quando apenas se pretende voltar ao que já foi, nem estava mal, mas vocês ajudaram a destruir. Tenham um pingo de decência e aquietem-se. Fiquem lá com os subsídios para os “estudos”, os “apoios” para os “grupos de trabalho” e “estruturas de missão”, mas tenham ao menos o pudor de passarem despercebid@s. E de não virem com a treta do “interesse dos alunos”, pois foi esse que desrespeitaram em primeiro lugar quando levaram anos a amesquinhar quem está com eles todos os dias.

21 opiniões sobre “Sábado

  1. Quando no seminário do SIPE, há 8 dias, ouvi o Alexandre Ventura, quando questionado sobre as decisões que levaram à falta de professores, respondeu que águas passadas não movem moinhos.
    Ia me dando uma síncope de raiva!

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    1. E ficaste calada com a tua síncope?

      É que vejo muitos dos que por aí andam com síncopes baterem-lhes palmas quando vão às escola em vez de lhes virarem as costas.

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      1. Não sou eu de certeza. Aliás, tive que sair para ir apanhar ar porque podia correr muito mal. Ando a avolumar mágoas e raivas com este tipo de gente.

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