Sábado

“Professor, eu não tenho nenhuma imaginação”. Ouvi esta frase, ou uma sua variação, por diversas vezes esta semana, na sequência do pedido, a finalizar o teste de Português de 6º ano, para que os alunos imaginassem “uma cena em que te encontres a bordo de um navio pirata e prestes a enfrentar um ataque inimigo”, acrescentando que não se esquecessem de usar diálogos Mais nada, mais nenhuma condição, de mínimos ou máximos de palavras. Nos dias anteriores, excepção feita ao tema, já lhes tinha dito que a parte de produção escrita seria com estas características, mas, tendo terminado a leitura de Os Piratas de Manuel António Pina, não seria propriamente uma surpresa.

O mesmo número de vezes, respondi que não acreditava que não tivessem imaginação, apenas não estavam a tentar, sequer, imaginar qualquer coisa a partir de algo que já conhecessem, tivessem lido ou visto em filme. Que na idade deles (11 anos, em média) a imaginação deveria estar em boa forma e que era difícil acreditar que não conseguissem imaginar uma cena de um ataque de piratas. Alguns lá tentaram avançar, mas um punhado não tentou ou, ao fim de duas linhas, desistiu e ficou a olhar para a folha. Não se tratou de qualquer caso (talvez um!) de pura e simplesmente se estar nas tintas. A verdade é que – ao contrário do que por vezes se diz – não sentirem capacidade para criar algo seu e passá-lo para o papel. Outros colegas conseguiram-no e houve mesmo quem perguntasse se podia acrescentar uma página do caderno.

Em regra, todos os anos há um par de alunos que passa por este tipo de “crise”, seja de confiança ou mesmo de “imaginação”. Mas o número vem aumentando, não achando eu que é falta de capacidade, mas sim de atitude perante o esforço que é pedido e que vai além de extrair informações de um texto ou estudar conteúdos. A “criação” parece algo que, em vez de equivaler a liberdade, se assemelha a um dever indesejado. Claro que é fácil relacionar esta atitude com a crescente dependência de gadgets que já trazem quase tudo feito, bastando seguir os caminhos pré-estabelecidos. Não sei se é apenas isso. Não tenho dados para avaliar se é algo mais geral do que o que resulta da minha observação directa de 56 petizes, dos quais 10-15% se revelam incapazes de alinhavar mais de umas 20 palavras, antes de desistirem, por muito que os estimulemos ou provoquemos. Não me venham com a pandemia a este respeito, que é treta. É algo diferente. Também não tem a ver com qualquer “mudança de paradigma”, nas necessidades de ensino/aprendizagem. è apenas algo que me deixa desconfortável, mais do que desiludido. Que eu gostaria de não ver aumentar ainda mais nos próximos anos. Porque quando aos 11 anos se desiste de fazer algo, quando não se têm quase limitações, chegando mesmo a dizer que seria mais fácil terem instruções muito mais restritivas e direccionadas, isso não prenuncia nada de muito bom.

9 opiniões sobre “Sábado

  1. Penso que é tudo o que o Paulo aponta. Porém, trata – se, também, mesmo, de falta de imaginação, de vocabulário, de redação, porque as nossas crianças, não leem nada, nem lhes leem, nada, igualmente!!!! Então, estão ocos.

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  2. Não vale a pena. A educação tem que ser uma grande avenida… rumo ao canudo.
    É ver a reportagem que vem hoje, no público, sobre o instituto superior técnico.

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    1. Mostrei aos meus alunos o filme de animação “Pedro e o Lobo”, de Suzie Templeton. Alguns alunos, alguns considerados “bons”, não gostaram porque era “muito lento”. Desanimo cada vez mais e penso que o poder transformador da escola é cada vez mais diminuto

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  3. A explicação é simples mas é preferível apresentar a versão longa
    em https://www.ineteconomics.org/perspectives/blog/the-dollar-system-in-a-multi-polar-world

    Curiosamente, é a leste, nomeadamente no Japão, que se propuseram mudanças mais radicais.
    Criaram-se mesmo escolas piloto para potenciar a imaginação porque o modelo
    económico vigente já não permitia crescer.

    A grande dificuldade está no facto de que esse tipo de ensino, para não cair no facilitismo
    e numa desestruturação que deixa as crianças incapazes de andarem pelo seu próprio pé,
    necessita de, para além de uma aposta política inequívoca e recursos financeiros adequados, recursos humanos que não disponíveis em muitos países.

    https://www.forbes.com/sites/pegtyre/2019/05/19/teaching-innovation-and-creativity-in-japan-is-spinach-the-problem/

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  4. A minha experiência mostra precisamente o contrário. Em situações semelhantes (sim, também tenho 6º ano) são raros os alunos que se limitam a escrever as 200 palavras indicadas como máximo. No teste mais recente, apenas um aluno se ficou pelas cento e trinta e tal palavras. E imaginação é coisa que não lhes falta! No início do 5º ano alguns ainda me vieram também com essas desculpas da falta de imaginação, mas rapidamente deixaram de o fazer. E todas as aulas há alunos que lêem à turma textos escritos por si mesmos, que são comentados pelos colegas, dando sugestões de melhoria. Têm imaginação a rodos, muito mais que eu próprio.

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