Domingo

Uma coisa é estabelecer uma relação proveitosa entre Escolas e Familias, entre os directores de turma e encarregados de educação, outra aceitar ou incentivar uma porosidade imensa, em que os limites e fronteiras se esboroam e existe uma já vale tudo nos contactos entre alunos, professores e familiares. As culpas não são unívocas, mas é óbvio que são maiores da parte dos adultos que não parecem perceber que uma relação saudável em regime de 24/7 talvez possa estabelecer-se a 2, quiçá em modelos familiares a 3, 4, 5, mas é praticamente impossível a 20-25-30 ou o que calhar. Se queremos regressar à “normalidade” pós-pandémica (mesmo se a pandemia continua), isso não pode ficar-se apenas pelo deixar a máscara e voltar a ficar outra vez ao portão das escolas, entupindo entradas e saídas, em conversas de ocasião. Voltar à normalidade também é parar com os excessos que marcaram o período não presencial em matéria de contactos escola-famílias. Já expliquei que não uso o WhatsApp para contactar alunos ou encarregados de educação, limitando-me ao mail e ao telefone institucional da escola, salvo circunstâncias muito excepcionais. Nada me obriga a algo diverso, desde que continue a cumprir com os meus deveres. Por isso, não telefono a pedido ou a gosto, assim como envio as informações relevantes para todos os (teoricamente) interessados. Não sou dado a apaparicanços em busca de simpatias e validações externas, mas não deixo de dar as informações que acho indispensáveis. No período “anormal” da pandemia ouvi e li de tudo um pouco, desde que era excessivo nos meus mails semanais até que me recusava a receber encarregados de educação (o que era a regra, então, não apenas nas minhas paragens), passando pelo caricato de me acusarem de “assédio” (!) porque comuniquei que NÃO faria contactos a partir do meu telefone pessoal em horário não laboral.

Por isso, acho que muito do que vem na peça do Expresso sobre o “novo” modo de transformar a vida dos professores num consultório aberto a toda a hora também resulta do receio em se ser pouco simpático e receber queixas por marcar as fronteiras com clareza. Tal como as regras na sala de aula devem ser definidas com clareza em devido tempo, com a margem indispensável para episódios excepcionais, também as regras dos contactos entre professores e encarregados de educação (ou outros familiares dos alunos), só ganham se não forem arbitrárias, confusas ou laxistas. Por vezes, há quem só colha aquilo que semeou. Eu prefiro colher alguma incompreensão, mas no horário adequado. E quanto a pressões, já se sabe que sou pouco “impressionável” e que tenho dois cotovelos, mesmo em termos digitais.

6 opiniões sobre “Domingo

  1. “”The van der Luydens,” said Archer, feeling himself pompous as he spoke, “are the most powerful influence in New York society. Unfortunately–owing to her health–they receive very seldom.”
    She unclasped her hands from behind her head, and looked at him meditatively.
    “Isn’t that perhaps the reason?”
    “The reason–?”
    “For their great influence; that they make themselves so rare.”
    (“The Age of Inocence”, by Edith Wharton)

    Aprendamos a fazer-nos difíceis, para ganharmos algum respeito. É muito difícil chegar à fala com um médico num hospital, pois estão sempre ocupados. Fora do serviço é impossível.

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  2. Isso mesmo!
    Há professores que acham que são melhores por darem o seu próprio número de telefone.
    Que vergonha, que falta de profissionalismo!
    Respeito consegue-se se respeitarmos as formalidades próprias de um estado civilizado.
    Trabalhar numa escola não é compatível com intimidades.

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  3. Aviso logo. Não faço telefonemas. Só se forem urgências tipo cabeça partida. Só atendo EE no horário de atendimento. Têm de marcar com antecedência e só atendo dois por hora. Não dá tempo para todos? Temos pena.
    No fim de semana não respondo a mails da escola. O meu telefone é privado e é meu, pelo q não está ao serviço. Não uso WhatsApp para a escola. Só para amigos.
    Não gostam? Temos pena.
    Já disse que sou só professor. E não me pagam para mais. Não sou psicólogo, assistente social, animador cultural ou entertainer. Só e apenas professor.

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  4. Completamente de acordo Manuel!
    Também ajo dessa forma!

    Na pandemia recusei dar o meu nº pessoal de telefone…era o que faltava…mas a escola ainda insistiu(??).

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  5. Subscrevo tudo. Nem que o ME me tivesse dado um telefone “profissional ” não estaria contactavel fora da “hora de expediente”. Como não deu lá terão que contactar por email. Fora disso, nem nada…

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