Sábado

Não sou um fundamentalista do dress code na escola e na sala de aula. Compreendo certas reservas, mas a minha atitude é mais com o que se faz com o que se (não) veste do que com as vestimentas em si. Nesse aspecto sou um pouco laxista, confesso. O que tenho dificuldade em admitir é o uso de paramentos ou acessórios para tentar provocar ou desafiar, sem qualquer justificação razoável.

Por exemplo… abandonámos as máscaras que eram um incómodo imenso para as crianças e jovens, porque impediam a comunicação, ver-se as expressões, a cara, etc. Logo… acho profundamente [pi-pi-pi] que certos simpáticos alunos insistam em querer usar os chamados hoodies com capuzes a tapar-lhes quase toda a cara. Até porque começou a estar calor e abafado nas aulas climatizadas ao estilo-ME sem festa da Parque Escolar.

Há um par de semanas, um aluno de 11 anos que vai comigo em mais de 350 aulas em 2 anos (Português+CD), estrela em ascensão nas camadas jovens do Sporting, foi avisado aí pela 231ª vez para tirar o raio do capuz para que eu lhe visse os olhos e a maior parte da cara. Sim, como nas 230 vezes anteriores, tirou-o mas, como numas 165 dessas vezes, mal eu me virei para outro lado da sala, voltou a colocá-lo, ainda mais enterrado pela cabeça abaixo.

Desta vez, ao contrário das outras, fruto de um certo cansaço com o ritual, não lhe repeti o pedido, cheguei perto dele e, contrariando as regras do chonismo disciplinar “inclusivo” (calma, o aluno mão é de qualquer minoria étnica ou cultural, não era um statement identitário desse tipo), tirei-lho da cabeça com a minha mão e íamo-nos ficando por ali. Só que uma colega relativamente nova na turma, um pouco mais velha e proveniente de uma escola a norte do Tejo, com atitude de diva dos direitos das crianças, acusou-me de estar a desrespeitar o colega com o meu acto. O que, até por estar com a matéria quase toda dada, funcionou como oportunidade para, numa aula de Português, revisitarmos a “Cidadania” dada no primeiro semestre (ela não esteve presente) e aquilo que deve ser considerado “respeito”, não apenas numa sala de aula.

E, entre outras considerações mais “assertivas” da minha parte sobre o tema, inquiri o aluno em causa acerca do que aconteceria se ele, nos treinos do Sporting, desrespeitasse de forma sistemática as indicações do treinador (parece que ainda há quem lhes chame mister). Se, por exemplo, seria incluído nos seleccionados para os torneios de final de época fora do país (um em Inglaterra, outro em Espanha). Ao que ele respondeu que não, que seria excluído e que, provavelmente, ainda levaria uns “amassos” dos mais velhos e capitães de equipa, por se estar a armar em parvo. Mas que – e isso seguiu-se a outra pergunta minha – ele nem sequer considerava – lá está” – “desrespeitar” o treinador e que isso tinha feito parte das regras comunicadas logo no início da temporada aos recém-chegados.

E aqui concordámos que, se calhar, eu tinha o mesmo direito a exigir o “respeito” que um petiz de 11 anos sabe dever ao seu treinador de futebol, até porque, bem vistas as coisas, ainda não está provado que ele vai ser o novo cristiano, palhinha, rafael leão, quaresma ou bruno fernandes. E foi então que voltei a trazer a colega “indignada” à conversa, perguntando-lhe se agora já percebia melhor as coisas e a razão da minha atitude. Baixou a cabeça, com um sumido “sim, stor” a sair-lhe a custo. Estive quase a dizer-lhe que não gosto do “stor”, mas como escrevi, ela só está há relativamente pouco tempo na turma.

8 opiniões sobre “Sábado

  1. Estas alunas e alunos muito conscientes dos seus direito (excepto à educação, claro) são os primeiros a amochar, não só perante o treinador, mas perante o patrão ou o gestor. O que é triste é que nem se apercebem da contradição. Não sabem o que é ser respeitados numa escola (o que passaria pelo reconhecimento do valor dos prafessores e da sala de aula como espaço de aprendizagem em conjunto, em liberdade). No local de trabalho, não exigirão ser respeitados.

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  2. O que me entristece, é que situações ÓBVIAS como esta, tenham que ser explicadas por A+B, não vá a generalidade dos leitores (mais ou menos versados em pedagógicas de inclusão ou psicologia populista) julgar que se pode tratar de falta de inteligência emocional do docente.
    Está tudo muito absurdo. E piorará… digo-o fundamentadamente e sem dramatismos negativistas.

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    1. Há quem confunda “inteligência emocional” com aceitação de tudo.
      Ora, esse tipo de inteligência manifesta-se no modo como se adequa uma reacção a determinada acção, pelo que muda conforme os contextos.
      Portanto… apareçam em certos contextos certos “formadores” e depois falamos.

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      1. Aqui está um caso de estudo para a pedagogia inclusiva, que preconiza que os petizes têm de sentir-se bem, ajudando à aprendizagem. E por isso, a legislação também trouxe muita documentação informativa onde se recomendava que se respeitassem as caracteristicas individuais, sugerindo aplicar acomodações para que o jovem não ficasse ressentido, e portanto, não aprendesse. Assim, desde a posição na sala de aula, passando pela utilização do humor e terminando no mobiliário (propondo pufs), o que interessava era que o estudante estivesse motivado psicologicamente. Logo, é deixar o capuz colocado, o boné, sentar-se no chão, usar os auriculares, etc., etc, criando a tal predisposição por se sentir que está numa aula ‘porreiraça’ e logo é ‘fixe’ aprender.
        E não adianta informar cinicamente que a sociedade não funciona assim, porque há boa maneira cultural tuga, ‘isso depois logo se vê’…

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