Pequena Nota Biográfica

|A partir da obra de Bernardim Ribeiro, Saudades. História de menina e moça| (séc. XVI)

“Menina e moça, me levaram de casa de meu pae para longes terras.”

Assim foi comigo. Aos 12 anos, vim para casa de meus tios para poder prosseguir os estudos. Na pequena aldeia onde nasci (Azinheira de Barros, concelho de Grândola) apenas existia escola primária. Na sede do concelho existia um colégio interno com mensalidades incomportáveis para a maior parte das famílias da aldeia. Assim, surgiu no meu horizonte Setúbal.

“Vivi ali |aqui| tanto tempo, quanto foi necessario
para não poder viver em outra parte.”

Da minha infância, recordo os tempos em que brincava às escolas, com outras meninas da minha idade. Guardava os cadernos usados e, mesmo quando não tinha companhia para a brincadeira, sentava as minhas bonecas nas cadeiras em volta da mesa, colocava-lhes os cadernos em frente e, claro, era eu a professora.

No final da 4a classe, realizei o exame de admissão ao Liceu e à Escola Comercial. Tive o privilégio de ter um pai que amava a Liberdade que apenas teoricamente conhecia, por múltiplas razões, mas que me deixou “escolher”. Afinal, o que eu queria mesmo era ser professora e o Liceu proporcionava-me a formação para poder concretizar o meu sonho.

E o sonho de menina concretizou-se anos mais tarde. No ano lectivo de 1986-87, iniciei o meu périplo por esta profissão tão essencial e tão digna, mas tão persistentemente maltratada. Em 1989-90, regressei à minha escola, ao Liceu Nacional de Setúbal, já então Escola Secundária du Bocage. Não como aluna, mas como professora. E foi gratificante encontrar ali muitos dos professores que me ajudaram a crescer. Jamais esquecerei o abraço carinhoso da minha querida professora de História do 3o ano (actual 7o), dra. Maria Helena Cabeçadas, que me recebeu na escadaria da entrada com um imenso sorriso. Como foi bom regressar à minha escola de menina e moça e adolescente.

Como era “provisória” (os eternos contratados da actualidade) apenas ali permaneci nesse ano lectivo, mas voltei em 2000-2001 e por aqui permaneci até que um problema de saúde me afastou da profissão, em Outubro de 2019.

Foram cerca de vinte anos a partilhar esperança e anseios com todos aqueles que aqui, neste espaço de memórias, se cruzaram comigo, principalmente os meus alunos e os meus colegas. Guardo comigo gratas recordações da profissão que exerci ao longo de quase 40 anos. Nunca me arrependi da minha opção, mas se fosse hoje, não sei o que decidiria.

“Muito contente fui eu n’aquela terra |nesta profissão/e
nesta escola|; mas…, em breve espaço se mudou tudo aquilo
que em longo tempo se buscou, e para longo tempo se buscava!
(…) Das tristezas não se pode contar nada ordenadamente,
porque desordenadamente acontecem élas.”

Sim, saio da minha profissão com algumas mágoas, fruto das injustiças que se cometeram contra esta profissão. O desrespeito permanente pelos professores, a desconfiança no seu trabalho, os entraves à progressão na carreira, os cerca de sete anos de serviço sonegados, a carga de trabalho burocrático ou a sobrecarga do trabalho não lectivo, os intermináveis contratos a termo, as longas viagens entre casa e escola, os baixos salários, etc. Tudo isto foi acompanhado pela desumanização da Escola em geral e da minha escola em particular.

Assim, aos que partiram, rendo a minha homenagem.
Aos que se aposentaram ou vão aposentar-se, deixo os meus desejos de muita saúde para desfrutarem em pleno desta nova fase das suas vidas.
Aos que continuam na profissão e a ela se dedicam quase incondicionalmente, deixo a minha solidariedade e uma palavra de Esperança.
A todos os que fizeram parte deste meu percurso, deixo o meu muito obrigada.

Maria de Fátima dos Santos Patranito
Professora do grupo 400, entre 12 de Novembro de 1986 e 01 de Abril de 2022

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