Ainda Há Margem Para Espanto?

Quase… quando se lê alguém a desvalorizar hoje, o que ainda há poucas semanas se erguia como grande causa de indignação. Realmente há “especialistas” e “especializados”. Uns fazem estudos por encomenda. Outros produzem opinião à medida de cada momento. O decoro anda mesmo, mesmo escasso.

E por falar nisso… quanto passará até à grande entrevista do ministro Costa ao DN/JN/TSF?

Está Quase A Abrir A Época Da Caça Aos Milagres

Daqui por uma semana é o primeiro ensaio, o dos finais de Básico e Secundário. O “sucesso” transbordará, com instruções precisas do topo para as bases, em cascata pelas coordenações e chefias intermédias. depois, será a vez dos restantes anos não terminais ou apenas de final de 1º e 2º ciclo. Pelo que me consta, até tem havido sessões de “formação” para malta com décadas disto reaprender a avaliar pela bitola mínima do que é “essencial”, sob ameaça velada de uma qualquer “visita”.

Já defini as minhas quotas para a a produção de milagres: aceito ir até 10%, o que dá 3 milagres (um dos grandes, dois dos habituais) por turma (são de 28 alunos). Terei em conta as ponderações adequadas para grupos minoritários e/ou desfavorecidos. Sendo 6º ano, não me vou meter nas questões de género. Se me vierem evangelizar com beatices toscas, a ver se o potencial milagreiro pode ser maior, posso sempre demonstrar que já lia a Despertai! nos anos 80 e que comprei intermitentemente os calendários da petizada em calções. Não há carência de me mandarem vias segundas e terceiras dos escritos do doutor Fernandes. Aliás, ainda bem que não tenho de adoptar manuais este ano, ou os que trazem a cartilha eram logo colocados fora da lista.

Um Enorme Processo De Mistificação Em Curso

A falta de professores não resulta dos número de professores que estão em situação de mobilidade (por doença, por exemplo, ou por cedência a outros serviços públicos), por falta de gente diplomada ou certificada ou por causa do regime de recrutamento ou contratação. Essas são as desculpas atiradas para a opinião pública para dar a sensação que os motivos são, de certo modo, “endógenos” (há muitos professores a fazer outras coisas, há falta de gente para dar aulas ou as escolas deveriam contratar directamente os professores), de modo a esconder que continuam a existir milhares de pessoas com experiência na docência e certificação profissional para a exercer só não o fazendo por causa do que foi feito à profissão e respectiva carreira a partir de “fora”, através de uma investida continuada que aliou políticos a opinadores mediáticos no sentido de desqualificar, proletarizar e precarizar a docência.

Um professor contratado directamente por um director não fica mais estável ou ganha mais por causa disso. Pelo contrário, fica muito mais dependente e vulnerável do que se for colocado por um concurso nacional sem “entrevistas”. Muita gente (que continua a concorrer externamente) abandonou o exercício regular da docência porque ela se proletarizou, com as remunerações dos professores contratados a ficarem cada vez mais próximas do salário mínimo e as dos professores com uma carreira longa a terem sofrido um enorme apagão que o actual ministro apresenta como responsabilidade da troika, quando os congelamentos foram decretados e mantidos pelo seu partido.

E essa mentira, que repete de entrevista em entrevista, qual deputado porfírio, revela muito da natureza e carácter de quem tem a responsabilidade de resolver um problema sobre o qual teve muitos anos de silêncio, seja quando andava a tratar da sua vidinha, seja quando já estava no governo.

Eis o que disse ao Expresso, usando aquela parlapatice do não ser possível “refazer uma história” (afinal, quando se indemniza alguém a quem se causou danos, não é isso mesmo que acontece?)

Mais recentemente, na entrevista à Renascença, insistiu em atribuir quase todas as responsabilidades pela escassez de professores (e não só) ao período da troika, mas há factos (sim, ainda interessam a quem não tem uma abordagem “holística” das causas e efeitos, do que aconteceu antes, durante e depois) que o contradizem. Eu volto a colocar aqui os períodos de congelamento da carreira, para que se perceba que eles antecederam a vinda da troika e perduraram depois da sua saída em 2014.

O ministro Costa parece o exemplo acabado daqueles alunos que ele diz que apenas “empinam” a matéria e a esquecem a seguir. Ou pior, que nem sequer chegam a aprender seja o que for. Ou o pior de tudo… que até aprendem, mas depois dizem que não sabem e que o professor é que não lhes ensinou.

A troika fez muitas malfeitorias, que eu me lembro de denunciar já lá vão quase 10 anos (nessa altura, o que piava o actual ministro sobre esse assunto?), mas não é responsável por tudo. E há quem tenha arriscado e tenha falado em devido tempo contra as manigâncias troika quando o shôr ministro voava baixinho, caladinho lá pelos corredores da fcsh e do largo do rato. Assim como contra o engenheiro e a agora reitora. Que o ministro Costa esteja desmemoriado de tanto ubuntu na moleirinha até se percebe… o chato é se não passar de pura desonestidade política. Afinal, é ele que gosta de “refazer a História” a gosto. Mas terá de aguentar com quem não vai na conversa e lhe apontará sempre as derivas para os “factos alternativos”. Em suma, quando mentir.

Phosga-se!

O Paulo encontrou como, lá por fora, já se ensaiam métodos de criação de “professores instantâneos“, porque a vaga anti-docente não aconteceu só por cá. E não me venham como faz o ministro Costa, insinuar que foi apenas coisa da troika ou da “Direita”, porque o PS alinhou nessa onda desde 2005 sem qualquer hesitação.

Devenir prof en 30 minutes ? Le rectorat de Versailles recrute via un job dating des professeurs pour la rentrée. Syndicats et enseignants dénoncent la méthode et ses conséquences.

5ª Feira

Pelos comentários que ontem me foram aqui deixados acerca da mobilidade por doença, fiquei com a sensação que a falta de professores em escolas da Grande Lisboa ou Algarve poderia ser resolvida com professores dos quadros de escolas de Braga, Visei ou Bragança que pediram a dita mobilidade. Sei que sou um céptico impenitente , mas tenho algumas dúvidas acerca da viabilidade desta “situação”. Entretanto, fui ler as regras em vigor em relação à dita mobilidade e verificar se não existem exigências e garantias de rigor no processo. E até existem. E também lá se lê que:

12 — Por decisão da entidade competente, os docentes a quem seja autorizada a mobilidade por doença, podem ser:
a) Submetidos a Junta Médica para comprovação das declarações prestadas;
b) Sujeitos a verificação local pela Inspeção-Geral da Educação e Ciência para comprovação das situações de facto, e das relações de dependência de auxílio e apoio declaradas.

Se isto não é cumprido por incompetência ou cobardia das “entidades competentes” é outra coisa. Ou se a IGEC não tem meios, porque anda pelas escolas a fiscalizar se a avaliação é feita pela nova cartilha maiata.