Sábado

A escolha de Domingos Fernandes para presidir ao CNE, não sendo algo inesperado, pois corresponde apenas a mais uma fase no total controlo de todos os organismos que regulam a Educação em Portugal, não deixa de representar uma nova fase no modo de encarar a posição. Não se trata do alinhamento político d@ ocupante do cargo com @ ministro em exercício. A generalidade das escolhas anteriores seguiram essa lógica. Até temos mais um “bostoniano” no cargo, juntando-se ao grupo que desde há muito constitui o núcleo permanente do CNE,

O que é manifestamente novo é o facto de recair em alguém que durante os últimos anos foi o principal mentor de grande parte das políticas desenvolvidas ao nível das metodologias pedagógicas e de avaliação implementadas pelos governos de que o actual ministro fez parte. Podemos ter mais ou menos reservas em relação ao perfil das anteriores escolhas, mas não se foi buscar alguém ligado de forma umbilical às políticas em desenvolvimento e que nos últimos meses viu a cartilha dos seus ensinamentos ser distribuída com os manuais de um grande grupo editorial. Não acreditando eu em neutralidades absolutas ou imparcialidades totais, espero, no entanto, que exista um decoro mínimo em tudo isto que nos transmita a vaga sensação de estarmos a viver um momento de completa asfixia do debate e da liberdade de ensinar em Portugal, com um mesmo nicho ideológico a controlar tudo, esvaziando por completo as funções originais de organismos que deveriam ter uma função técnica (as direcções-gerais), de fiscalização (IGEC) ou de aconselhamento (CNE). Agora temos organismos que se limitam a ser braços armados do poder político, negando qualquer leitura da legislação que contrarie as orientações políticas e andando pelas escolas a verificar se está a ser devidamente aplicado o guião do agora presidente do CNE para a avaliação dos alunos. Isto para não falar da completa instrumentalização da formação contínua.

Como é possível acreditar que vai existir alguma avaliação independente ou um aconselhamento do governo nesta área da governação, minimamente aberto a visões alternativas, se lá foi colocado o principal operacional que nos últimos anos esteve a coordenar os avanços no terreno das duas concepções e “tropas”? O mais lastimável é que a nulidade das oposições em matéria de Educação, aliada a alguma encoberta cumplicidade de certas figuras que vão do PSD eduquês à esquerda “radical” muito inclusiva, faz com que tudo isto aconteça sem qualquer tipo de sobressalto. Parece tudo normal e não me admiraria nada que agora se sucedessem os elogios á escolha, atendendo ao “perfil”, ao “currículo” e ao “percurso” do antigo secretário de Estado de Guterres, avaliador muito favorável das políticas de Maria de Lurdes Rodrigues (aqui, pp. 28-29) e apoiante explícito das políticas de José Sócrates para a Escola Pública.

16 opiniões sobre “Sábado

  1. Isto vai ser muito mau, nos próximos anos… Quem poder fugir que fuja… Era necessário haver um movimento contestatário a partir das escolas, para que houvesse alguma voz contra este ataque sem precedentes ao ensino público! A situação é ainda mais grave quando se intromete na própria autonomia pedagógica dos professores, ao nível da metodológico, devidamente consagrada no Estatuto da Carreira… Há uma tentativa de enxovalhamento público, como nos tempos de MLR, e pior, um controle total das escolas pela máquina socialista … É inacreditável que teorias requentadas, e altamente contestadas por vários estudos académicos, estejam a destruir a própria orgânica das dos agrupamentos e a saúde mental dos professores, com um mutismo generalizado dos fazedores de opinião…
    O senhor Ministro da Educação sabe, ele bem sabe, que a maioria dos professores é contra toda esta loucura de mapas, grelhas, projectos , inutilidades avaliativas … e é isso que ele não perdoa!

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  2. Se eu fico sem salário, porque pedi licença sem vencimento de longa duração, que entra em vigor a 1 de Setembro, será que os professores não conseguem fazer uma greve de 1 ou 2 semanas, para mostrarem aos pais o que estes indivíduos estão a fazer à escola pública e aos seus filhos?…

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  3. Não vejo razão para tanto pessimismo. Para além da tutela, das direcções-gerais, da IGEC e do CNE, há outros actores da educação que, esses sim, podem e vão – estou certo – repor a racionalidade em termos da educação. Estou a pensar, claro, no directores, pois são professores, colegas. E estou a pensar nos colegas propriamente ditos. Quem está no terreno, seja no gabinete bunkerizado, seja na sala de aula ou no conselho de turma ou no departamento curricular fará o que deve em termos morais e profissionais. Estou cheio de confiança.

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    1. Há diretor@s completamente desvinculad@s da realidade, em delírio com o ME. Só se vão queixando das plataformas que têm de preencher e mesmo assim vão delegando isso noutros, para se irem pavonear em frente aos seus SEnhores. Mais do que diretores, agasta-me ver os colegas apáticos e obviamente os que já se infetaram com esta demência.

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      1. Meu caro, eu estava a ser irónico. O meu pessimismo é total. Nós, os que defendem uma escola humanista e emancipadora, não somos amostra representativa da classe. Somos a minoria, os residuais, os indesejáveis, os proscritos. A escola está atolada na merda. No mar de diarreia, os “colegas” sào os cagalhões. Se tem dúvidas, espere só pela ronds de conselhos de turma de avaliação que se avizinham.

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  4. É uma pescadinha rabo na boca. Um círculo perfeito e que nós, nas nossas escolas e agrupamentos, vamos avaliar de excelente.
    Eu já ando a responder a vários inquéritos de avaliação disto e daquilo. Optei por avaliar tudo com nota máxima. Sugiro que façam o mesmo, talvez alguém note, lol. E tem a vantagem de não se perder tempo a ler seja o que for.

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  5. Ao contrário da maioria dos comentadores aqui presentes, eu estou muito feliz com a nomeação do “bostoniano” Domingues Fernandes, o homem que inventou a “Ciência da Avaliação”. Com Domingues Fernandes, João Costa, Rui Trindade (daqui do Porto carago), Matias Alves, Ariana Cosme, etc,,,,,o ensino tenderá muito mais rapidamente para o caos. Sem professores, e com esta onda de fanáticos construtivistas, o último a sair que feche a porta. Resta infelizmente começar do zero. Espero que depois haja redenção.

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