Longo, Descritivo, Mas Rigoroso (E Cómico, Se Não Fosse Trágico)

O inspector foi à escola

(…)

Vamos lá operacionalizar isto.

De cada vez que cada um dos 129 alunos da professora Joana resolve um item, ela vai escrever 129 pequenos textos que ajudem cada um dos seus alunos a perceber se cumpriu a tarefa com sucesso, se a cumpriu com algum sucesso, se tem de se esforçar e estudar um pouco mais ou se está completamente perdido relativamente àquele assunto, tudo isto acompanhado pelos respetivos smiles, desde a boca com a concavidade voltada para cima e os olhos a brilhar até ao esgar mais furioso, com os dentes a ranger, passando pelo estimulante piscar de olho, já que os coraçõezinhos não serão apropriados na relação professora-aluno.

Imaginando que a correção minuciosa da tarefa, a produção do pequeno texto descritivo e a busca do smile apropriado pode levar uns 15 minutos por item, que um teste de avaliação pode ter dúzia e meia de itens, que se fazem vários testes de avaliação por ano, nunca menos de meia dúzia (mas que, segundo as orientações superiores, devem ser muitos e frequentes), não sobra tempo para a senhora professora Joana escovar os dentes.

(…)

Em suma, o que durante séculos bastou para os alunos compreenderem em que nível se situava o seu desempenho, que era o feedback constante dado no decorrer das aulas e a nota atribuída pelo professor nos instrumentos de avaliação, agora não é suficiente. Vossas Excelências consideram que os atuais alunos, que andam muito distraídos com as “redes”, não conseguem compreender o que é um 31%, depois de, insistentemente, o professor o chamar à atenção para o fraco desempenho nas aulas. Talvez haja alguns para os quais 31% é suficiente. Então, cabe ao professor explicar, bem explicadinho e por escrito, que 31% é um nível insatisfatório, que o aluno tem de estar com mais atenção nas aulas, sem telemóvel, que tem de praticar mais, que deve trazer sempre o manual e o caderno diário, caneta, lápis e borracha, em vez de, como já aconteceu várias vezes, aparecer de mãos a abanar, pedir uma folha solta ao colega do lado, e ficar à espera que alguém tome a iniciativa de lhe emprestar uma esferográfica (se é que pretende escrever alguma coisa).

(…)

3ª Feira

Uma semana de leituras e preparação para a ficha global do ano. Fichas formativas, sem ser para avaliação formal, antecipando conteúdos e tipos de questão. Ficha global formal com um apanhado dos conteúdos do ano e da última leitura orientada realizada. Resultados abaixo do razoável em tudo o que implica estudo ou um pouco mais de investimento na escrita. Ou memória de competências essenciais (como as aspas nas transcrições, o uso das maiúsculas, de pontuação). Dá-se o fidebéque sobre os erros cometidos ou as questões a que nem se tentou responder. Então faz-se nova ficha formativa aos alunos com piores resultados, indicando que quem quiser pode voltar a fazer exactamente a mesma ficha que fora apresentada anteriormente, apenas para efeitos de melhoria da nota (e, claro, demonstração que as aprendizagens, pelo menos em parte, sempre foram feitas). Até tremo só de pensar que, pelas dúvidas colocadas, as coisas estão longe de melhorar, antes pelo contrário. Nem sempre, por muito que se recorra ao mel da abelha, se obtém o doce desejável.