Uma opinião sobre “Boa Noite

  1. Cenas da Vida Educacional

    As noites de Carmelinda estreitavam-se como os dias de um qualquer assalariado. Era assim desde que o padre cura, despedidos os clientes após a missa dominical, lhe tinha abreviado a coreografia — a saia arregaçada e os caracóis ruivos num rodopio, deslizando nas lajes das traseiras da igreja—, para lhe pedir que aceitasse entrar na sacristia para uma confissão.
    — Qual confissão, senhor padre!? Sabe que eu não me ajeito nessas coisas.
    O pároco agravara a suspeita com a resposta dada:
    —Não faças caso. Sou eu que tenho de te confessar uma inquietação.
    Na penumbra incensada da sacristia, a voz do padre impunha-se com severidade:
    — Rapariga, como se não bastasse o desprezo com que tratas Deus Nosso Senhor, vagueando pelos campos sem escola, missa ou catequese, agora vens cirandar para o adro da igreja durante a missa para me distrair os fiéis! Não vejo que utilidade queres dar à tua vida nem como pensas tomar marido.
    Mas a vida dá muitas voltas e na maior parte das vezes não faz sinal com o pisca-pisca quando vai virar. Por vezes, aquilo que para uns é o anátema do insucesso escolar, para outros perspectiva-se como um modelo de formação ao longo da vida. Depois de ter ouvido o padre durante meia hora no mais absoluto silêncio, Carmelinda sentiu o chamamento de uma vocação. Pelos vistos, havia um enorme carência de bons e compassivos escutadores e até o pároco precisava de alguém que o ouvisse, nem que fosse passando um raspanete.
    Como não se admitiam mulheres na parte de dentro do confessionário, acabou por cair nas boas graças do dono do estabelecimento de diversão nocturna local: o Dorme-em-pé aparelhara o antigo celeiro em nau que vogava, noite adentro, num mar de insónias que, de outro modo, seriam totalmente improdutivas. E nesta jornada se cruzou com Carmelinda na sua demanda por um templo onde pudesse oficiar em conformidade com a sua recente vocação.
    Ao princípio dançava para animar os clientes. Quando notava que o olhar deles se turvava e a cabeça se inclinava sobre o copo, Carmelinda abandonava a ignorada pista de dança e abeirava-se da mesa. Tinha o dom de antecipar a necessidade urgente de confissão. De mansinho, deslizava para a cadeira vazia e pousava o olhar no tampo da mesa. Depois, com lento pudor, espreitava o cliente através daqueles grandes olhos cor de avelã que asseguravam a absolvição mesmo aos mais perdidos.
    No início escutava-os distraidamente, como sempre tinha feito com os professores na escola. Porém, com o tempo percebeu o que era aprender. Na sua imaginação, as histórias dos outros continuavam por caminhos que só a ela pertenciam. Umas vezes amplificava-as, outras desviava-as do desenlace esperado. Comparava-as e encontrava para elas novos sentidos e finalidades diversas. Por fim, ficou enredada naquela teia de narrativas e deixou de ter vida própria, a tal ponto se entrajou com os sofrimentos do próximo.
    Deste modo se instituíra a rotina laboral de Carmelinda, a qual começava com um grunhido do Dorme-em-pé, que a espreitava todas as noites à chegada por cima das olheiras que quase lhe chegavam ao bigode, e se prolongava até ao amanhecer, quando um raio de sol se esgueirava pela janelinha no alto da parede do antigo celeiro, incendiando as volutas de fumo poeirento e fazendo rebrilhar o cinzeiro na mesa do canto. Nesse momento, Carmelinda sentia que Deus, por pouco que fosse, reparava nela.

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