Relatórios De Auto-Avaliação

Como a encenação não pode parar, lá andamos outra vez a fazê-los, como se tudo isto fosse um rigor de ciência séria, quando na maior parte dos casos não passa de um enorme fingimento. Porque, apesar de já terem passado uns anitos disto, continuamos a ter, em termos de referenciais para as classificações (e no caso dos professores já não faz mal que a avaliação seja feita especificamente para estabelecer uma seriação de “desempenhos”), desde as coisas mais disparatas e inexequíveis (um caso que conheci foi o de pedirem a elaboração, por ano, de “três provas de avaliação externa” para se ter menção de “mérito”, mas como o presidente da sadd se arma em “inovador”, vale tudo) até à completa ausência de indicadores ou níveis de desempenho que permitam perceber porque se atribui um 8,1, um 8,4 ou um 8,8 ou qualquer outra classificação a quem é avaliado.

Em relação a isso, para o bem e o mal, há que os obrigar a cumprir a lei que defendem mas não gostam de praticar. Os “elementos de referência” para a avaliação interna são “a) Os objectivos e as metas fixadas no projecto educativo do agrupamento de escolas ou da escola não agrupada; b) Os parâmetros estabelecidos para cada uma das dimensões aprovados pelo conselho pedagógico”. Pelo que percebo isto raramente é respeitado e no caso da alínea b), já li uma sadd alegar que existe “silêncio da lei” em relação a este dever do CP, revelando até que ponto a responsabilidade pela avaliação dos colega está, em casos como este, entregue a gente que tem dificuldade em compreender um texto. E não chegam parâmetros com advérbios de formulação indefinida como “frequentemente”, “regularmente” ou “periodicamente”, pois é tão periódico ou regular algo que acontece de ano em ano como o que ocorre todas as semanas.

Por outro lado, não se esqueçam de ler o que o artigo 19º determina e não permitam leituras demasiado extensivas do que lá está, porque também me consta que andam por aí a circular “aconselhamentos selectivos” para quem está nas graças de quem acha que tem todo o poder de mando nisto, nomeadamente ao nível da forma como a análise dos resultados, o contributo para as metas do Projecto Educativo e o contributo da formação “para a melhoria da acção educativa” devem surgir de forma bem explícita, para que não aleguem que não “reflectiram” sobre as práticas. Uma pitadas da lengalenga maiata não fará mal, pelo que devem polvilhar um ou outro parágrafo com “monitorizações”, “feedback” e “avaliação criterial” e “análise conjunta” disto e aquilo (disto com os alunos, daquilo com os colegas).

É tudo uma grande treta, mas há que fazer as “elites locais” justificar as arbitrariedades que não se permitem à arraia-miúda, quando se trata da avaliação dos alunos.

9 opiniões sobre “Relatórios De Auto-Avaliação

  1. Há um caso – eu conheço este muito bem, mas julgo que não será o único – que me tem revoltado até às “entranhas”: não interessa se preparas bem as aulas, se te empenhas na sala de aula com os alunos, se te preocupas com os mais lentos, com os que têm mais dificuldades, com os mais indisciplinados, com os que, não tendo esses problemas, aborrecem-se porque querem andar mais depressa, se és organizada e coerente com os conteúdos e as metodologias, se varias as estratégias, se trabalhas todas as competências, se fazes as tuas próprias fichas de trabalho e testes que aplicas aos alunos, incluindo os adaptados, sem recorrer a outras “fontes”, se usas recursos variados e se produzes tu mesma os materiais de suporte para explorar os respetivos conteúdos, se monitorizas o trabalho dos alunos, fazes a avaliação formativa e dás feedback, etc. Podes dar umas aulas de “caca”, uma grande confusão, sem trabalhares as competências com os alunos, fazeres tudo a correr para dizer que cumpriste o programa e saltares etapas, que no fim podes ter 8,9. E porquê? O que verdadeiramente interessa para a SADD é se dinamizaste atividades ou “projetos” que dão visibilidade à escola/ao agrupamento e estes apareceram no jornal da terra. O que importa é (a)parecer, e não ser.

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  2. a lei, se fosse usada inteligentemente, permitia que não houvesse lista negra na progressão mas como não há corporativismo na classe docente, os professores são os piores inimigos entre si…
    portanto, pode-se fazer isso tudo no relatório que inevitavelmente vai sempre haver profs atirados para a lista negra; isso só termina quando se revogar a lei que criou as vagas para progressão nos escalões.

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    1. Só se consegue dar esse uso inteligente à lei se todos alinharem.*
      Ora, basta alguém achar que merece as menções sujeitas a quota, para a SADD não terem grande margem de manobra.

      * Como trabalhamos quase todos em agrupamentos, com as guerrinhas típicas entre ciclos/escolas, não vejo como se possa alinhar tanta gente.

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  3. O “feedback” dos alunos por escrito passou a ser essencial.
    A “abelha Maia” no seu melhor.
    Temos de justificar tudo, vou passar a ter uma grelha para avaliar os pedidos de ir ao WC durante as aulas e claro a autoavaliação d@s alun@s, por escrito.

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  4. #Paula :verdade, 👏👏👏exatamente, em muitos agrupamentos. Eu vivi essa realidade e continuo a acompanhar, n casos que repetem o modelo. Um nojo, uma fraude, uma destruição deste país.

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