Ler E Escrever Será Para Todos?

Não deveremos ter um “Português para todos” que não exclua quem não consegue ou sequer se interessa por ler ou escrever palavras com mais de 6 letras, frases com mais de 6 palavras e textos com mais de 6 linhas bem espaçadas? Como já lá por fora se aventou… não será culturalmente pouco inclusivo e mesmo algo xenófobo apontar os erros a quem escreve qualquer coisa?

Alunos do 1.º ciclo com dificuldades na escrita e interpretação de textos

E não me venham agora sempre com a desculpa da pandemia… se estavam em casa, até tinham mais tempo para ler e tudo… o problema é o que leem e o estímulo que lhes é dado para lerem mais do que ecrãs.

Mas Que Raio Quer Dizer Isto?

“A Matemática que se ensina tem de ser para todos”

Eu li a entrevista, sei a resposta da entrevistada (basicamente é a mesma há décadas, pelo que a coerência dá um ponto de crédito contra os dois negativos do imobilismo conceptual), mas o chavão demagógico sempre me deu uma certa urticária.

A conclusão óbvia é acabar-se com os exames, para depois parecer que “todos” aprenderam.

Sempre defendemos que a certificação e a avaliação final do ensino secundário, para alunos que são avaliados durante três anos pelos seus professores, não deve depender de uma prova de duas horas, com todos os constrangimentos que conhecemos aos exames. A aferição do sistema para garantir uma maior equidade entre os diferentes actores e momentos do processo avaliativo pode ser feita de outras maneiras.

Não se trata apenas da “aferição do sistema”, mas mesmo da regulação externa do porreirismo natural de uns que acabam por lixar quem leva as coisas menos na base tu “tásssse!”.

6ª Feira

Há uns dias falava com uma colega contratada que esteve na minha escola durante uns 5 meses, a quase 400 km de casa. Estava no meu grupo, (200) leccionando H.G.P. e Português. Quando a baixa médica da colega que estava a substituir terminou, teve de se ir embora, em busca de nova colocação. Felizmente, conseguiu colocação pouco depois, ligeiramente mais perto, a pouco mais de 350 km da família e amigos. Mas no grupo 230, tendo passado os últimos quatro meses lectivos a dar aulas de Matemática e Ciências. Porquê? Porque fez um daqueles cursos de “professor generalista”, criados em tempos da troika Maria/Jorge/Valter para aplicar ao 2º ciclo (e quiçá ao 3º) uma lógica de professor multifunções – mais do que propriamente monodocente – em que qualquer pessoa pode servir para fazer qualquer coisa, independentemente do que isso signifique para docentes e discentes. No caso de alguns colegas contratad@s que conheci com esta formação, não é sequer de estranhar que, para completarem horário, estejam numa escola com horário do 200 e, em simultâneo, em outra, no 220, 230 ou mesmo 240.

Porque o professor como peça de engrenagem, intermutável, tem sido uma das facetas da política de desqualificação académica dos docentes e à sua separação de um saber disciplinar específico (“enciclopédico” para o ministro dos advérbios que nesse particular apenas mudou alguma terminologia, mantendo a prática de desvalorizar o Conhecimento em prol das fancarias de ocasião) que se tem desenvolvido nos últimos 20 anos, sem qualquer oposição digna desse nome na esfera política, da esquerda “radical à direita mais extremada (salvo muito escassas excepções), tendo chancela de vários especialistas que consideram que “saber ensinar” deve estar antes do “saber” e que isso afirmam – verdade seja dita – há variadíssimas décadas, parecendo discos riscados.

Essa minha colega, sendo rapariga de recursos, conseguiu “mudar o chip” num par de semanas, mas há quem tenha de o fazer ao longo do mesmo dia, saltando entre escolas, aqui ensinando uma coisa, ali outra, conforme o que está disponível. Os “liberais” apoiam esta “flexibilidade”, do ponto de vista da “gestão racional dos recursos humanos”, os teorizadores da esquerda patchouly apoiam-na do ponto de “transversalidade curricular e pedagógica” e os outros assinam por baixo, porque não estão para se chatear sequer com o assunto.

Por tudo isto, quando leio que o governo mandou abrir mais vagas para os cursos de formação de professores, num contexto de resposta muito tardia a uma “emergência”, fico com muito receio com o tipo de cursos que vão existir e se não será apenas mais um passo para que a docência se torne uma função indiferenciada, em que a formação é uma espécie de pout-pourri, sendo os futuros professores lançados às feras depois de umas demãos e besuntadelas dadas em seminários semestrais feitos a correr sobre um pouco de tudo e nada de quase tudo em particular.

E será mesmo que aquela de integrarem estágios práticos logo nos primeiros tempos dos cursos não será apenas uma forma de arranjar rapidamente quem “tape buracos” de forma barata e dê a ilusão de estar a resolver um problema que só existe porque se afastaram à força uns 20-30.000 candidatos à docência, devidamente qualificados, alegando “rigor na selecção e recrutamento” (a PACC de MLR aplicada por Crato e muito evocada por Justino) ou a “boa governança das finanças públicas” (as regras dos horários a concurso de Alexandra Leitão, na esteira de muitos que a antecederam como subscretários das Finanças para a Educação)?

Voltando aos colegas “generalistas”… será que alguém percebe o nível de exigência que implica andar-se a leccionar 4-5-6 disciplinas ao mesmo tempo (basta juntar uma DT com Formação Pessoal e Social e a sacrossanta Cidadania e Desenvolvimento) em duas ou mais escolas em troca de uma posição precária e materialmente pouco compensadora? E entre este “alguém”, inclui muita gente que bate no peito em defesa dos professores quando acha que isso lhe pode dar votos ou destaque mas, no concreto, nada fez para impedir estas situações.