O Ângulo Certo

O presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática chega muito perto do essencial quando afirma, acerca de mais uma mudança no programa de Matemática, neste caso no Secundário e com a novidade de passar a contemplar-se “programação” nos conteúdos, que “o problema é que tudo se resume à receita do costume: refundar programas do zero, não se sabe para quê nem porquê, mas rapidamente, muito rapidamente, cortina de fumo para esconder todos os outros problemas”.

João Araújo explica com alguma pontaria parte das questões (do interesse em introduzir programação no currículo desde cedo até à alegada extensão do programa anterior), só não estabelecendo de forma bem clara e sem receios a seguinte conjugação de factores que explica este tipo de opção, na lógica da demagogia costista na Educação:

  • Não há sequer professores para ocupar todos os lugares disponíveis para leccionar TIC no Ensino Básico, andando as escolas a recrutar praticamente qualquer pessoa com uma disciplina de Informática no currículo do seu curso.
  • Por isso, é inútil pensar que se arranjará pessoal para expandir a disciplina de Aplicações Informáticas no Secundário, adaptando-a – como seria desejável – às várias áreas do currículo, das Letras às Ciências.
  • Ao mesmo tempo, a Matemática é aquela habitual dor de cabeça (no Báscio ao Secundário) em termos de resultados, sendo recorrente as queixas de isso se dever à extensão dos conteúdos do programa, escondendo-se que o que está em causa é o tempo para os leccionar de forma conveniente.
  • Logo… nada como cortar conteúdos “tradicionais”, daqueles mais chatos e “trabalhosos” (para usar um termo a que muito recorreram os inquiridos este ano sobre quase todos os exames), e incorporar lá pelo meio a parte da programação, colocando professores de Matemática a dar uma coisa que para os distraídos (e alguns ignorantes) pode parecer próxima da Matemática, mas não é, e até pode propiciar estatísticas de maior “sucesso”.
  • E assim se finge uma Educação Digital sem professores de Informática e se combate a extensão do programa e o insucesso na disciplina de Matemática. Dois em um para a Educação Inclusiva de Sucesso e para o Currículo para o Século XXI.

A lógica da “Matemática para Todos” passa por considerar como “Matemática” qualquer coisa vagamente nas suas fronteiras (distantes). Por exemplo, no caso da História, seria o equivalente a retirar conteúdos mais complexos e “trabalhosos” e passar a contemplar matérias – numa lógica de aproximação do currículo à “realidade local” – como o jogo do pau, a renda de bilros ou as largadas (do Ribatejo a Barrancos, passando aqui pela minha zona) e chamar-lhe “Culturas Locais” no contexto de uma “História para Todos”.

Se juntarmos a isto, a sistemática crítica aos exames do Secundário e o simulacro de debate em torno de novas formas de de acesso ao Ensino Superior, ficamos com um quadro mais próximo do que se pretende com esta “modernização” do programa da Matemática. Basta ver as coisas pelo ângulo certo. A APM aplaude, como sempre, nestas circunstâncias.

4 opiniões sobre “O Ângulo Certo

  1. Muda-se por mudar.
    Introduz-se a programação mas sem professores de informática.
    Introduz-se a Matemática utilitária: Teoria das eleições: Maioria simples e maioria absoluta e método de BORDA. Teoria da partilha: método de Hondt e Método de St. Laguë.
    LITERACIA FINANCEIRA. Trabalho de projeto. Matemática nos salários Salário bruto e salário líquido. Descontos Matemática nos impostos: IVA e IRS Matemática nos descontos e promoções Matemática na poupança e no crédito. Juros simples e juros compostos, Decisões de contração de crédito ao consumo e finalmente a Matemática Científica

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  2. As propostas são ridículas sobre as 2 prespectivas.

    A primeira é tornar o ensino da matemática em algo como o ensino da matemática da mercearia.
    Simplificar a matemática e retirar qualquer abstração? Mas que raio de ensino querem?
    E porque não simplificar o português, e não dar das
    obras literárias?
    Damos apenas recortes de jornal para o jovem poder ler as notícias, mais uns módulos de mensagens Facebook, ela introdução ao tiktok e está feito.
    Da França para cima, todo resto da Europa tem um plano de matemática e ensino da matemática mais exigente que o nosso.
    O sucesso ou insucesso seja do que for não se mede pela exigência e rigor com que é dado.
    O insucesso é consequência da falta de motivação, quer de professores quer de alunos, da falta de liberdade para transformar uma aula meramente expositiva, numa aula dinâmica.
    Há tanto para transformar no ensino, mas tornar algo mais fácil, e consequentemente menos exigente, não é a solução.
    Quanto a serem os professores a dar as aulas de programação, é simplesmente ridículo.
    Existem professores de informática, e devem ser estes a dar as disciplinas de informática.
    Se querem dotar os alunos de Taís competências, e acho positivo, têm de construir vários tipos de curriculum, para aproximar as metas do que ensinar, á área em que se está.
    Para ciências, o curriculum de programação é necessariamente diferente, do de um aplicado a música.
    Mas isto era pedir demais ao ministério da educação.
    Portugal tem tanta gente competente, mas os cargos de gestão e administração são tão fraquinhos.

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  3. Professores de Matemática a ensinar Pyton? Só poderá vir de alguém que nunca entrou numa escola! Com uma idade média superior a 50 anos, com conhecimentos informáticos obtidos ao longo da vida (na ótica do utilizador). Por a ensinar Pyton será como, nem sei, ensinar Ballet? Poderiam fazer muita formação mas nunca teriam bons professores de Ballet!

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  4. Há algumas questões que merecem esclarecimento:

    1. O que é chamado “refundar programas do zero” é fazer programas que não dependem dos anteriores, mas que retomam a tendência dos programas anteriores a 2012 e realinham com o que se faz noutros países.

    2. Sabe-se bem porquê e para que é que se faz a mudança. No final de 2018 foi nomeado um grupo de trabalho que estudou o assunto, fez uma consulta pública e publicou um relatório com 22 recomendações, lendo-se na primeira: “É urgente a elaboração de um novo currículo de Matemática para todos os ciclos de escolaridade (do 1.º Ciclo do Ensino Básico até ao final do Ensino Secundário). Este currículo deverá substituir todos os Programas de Matemática em vigor (…)”. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Estudos_Relatorios/gtm_27_03_2020_relatorio_final.pdf

    3. Está neste momento em consulta pública (que dura três meses!) um novo currículo para o Secundário, prevendo-se que a versão final entre em vigor em Setembro de 2024. Quase seis anos entre o início do processo e a entrada em vigor de um novo currículo para o secundário não parece uma alteração feita “muito rapidamente”.

    4. Os computadores começaram por ser desenvolvidos para o cálculo científico, com o envolvimento de alguns dos maiores matemáticos do século XX. Muitos dos fundadores das ciências da computação eram matemáticos cujos interesses se orientaram para o estudo da computação (teórica e/ou prática). Desde então as ciências da computação desenvolveram-se e autonomizaram-se, mas não só os seus fundamentos são matemáticos, como a matemática manteve sempre (juntamente com outras ciências) uma actividade científica que envolve a computação. Trata-se das áreas de Análise Numérica e Cálculo Científico. Também a área da demonstração automática está neste momento em desenvolvimento. Há ligações muitíssimo profundas entre a matemática e as ciências da computação. Este artigo sobre o Premio Abel de 2021 é muito claro: https://www.nature.com/articles/d41586-021-00694-9

    5. Um aspecto particular da relevância da computação e da programação para a matemática é afirmada pelo próprio presidente da SPM na entrevista quando diz: “vejo a dificuldade que os meus colegas, matemáticos profissionais, têm para aprender linguagens de programação matemáticas muito simples (mais simples que Python), mesmo sabendo que aprender lhes pouparia imenso tempo e potenciaria o seu trabalho”.

    6. A generalidade das licenciaturas em Matemática tem pelo menos uma disciplina de programação e outra de análise numérica (onde normalmente são desenvolvidos programas simples para executar os algoritmos em estudo). A proposta para o secundário inclui o estudo de alguns desses algoritmos, pelo que a sua implementação em computador, usando uma linguagem adequada, é simplesmente o mais natural. As possibilidades de exploração em Matemática usando pequenos programas são muito vastas.

    7. Pode argumentar-se que não é claro o modo como a programação aparece nos documentos propostos, mas em nenhum ponto está previsto que a programação em Python seja feita de forma independente das aplicações que se estão a desenvolver para a Matemática. Acresce que o uso do Python neste contexto apenas envolve uma pequeníssima parte da linguagem, de utilização bastante simples.

    8. O estudo de algoritmos e a sua implementação em Python está já em vigor em França e de forma muito mais extensa do que nas actuais propostas para Portugal. Pode ler-se num dos programas: “La démarche algorithmique est, depuis les origines, une composante essentielle de l’activité mathématique. Au collège, en mathématiques et en technologie, les élèves ont appris à écrire, mettre au point et exécuter un programme simple.”

    Click to access spe246_annexe_1158907.pdf

    9. A “Matemática para Todos”, como explicou noutra entrevista, no mesmo dia, a Presidente da APM, significa que todos devem ter alguma matemática. Não significa a mesma matemática para todos. Dentro do actual enquadramento do ensino secundário existem quatro programas de Matemática (que estão todos em discussão pública).

    10. Tudo o que está nas propostas é considerado Matemática. Porque a matemática aplicada também é matemática. Aliás países como França e Estados Unidos têm sociedades profissionais especialmente dedicadas à matemática aplicada e industrial, sem deixarem de ser consideradas sociedades de matemática.

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