O Bananal

O Estado português contratou, por ajuste direto, serviços de consultoria para a escolha da localização do novo aeroporto de Lisboa a uma empresa sem funcionários e sem evidência pública de experiência no setor. A Asa Aviation Consulting tem sede em Londres e não dispõe de qualquer forma de contacto.

Sábado

Admiro, sinceramente, quem ainda resiste e procura que o “sistema” funcione de forma menos iníqua, com menos abusos e um resto de democraticidade na vida escolar. Conhecemos o processo que nos conduziu à situação actual – curiosamente houve quem dissesse e ainda diga que é em nome de “mais democracia” e de “inclusão” – mas acho que serão poucas as pessoas que acreditam mesmo nisso. O progressivo desligamento entre quem dirige e se integra na estrutura hierárquica criada pelo ME (agora com variantes municipais) e os docentes “regulares” foi acontecendo de um modo menos acelerado do que o desejado pela agora “reitora” (ainda a ouvi lamentar isso num congresso da andaep há quase uma década, quando já deixara o cargo de mandante), mas contínuo. Temos, como em tudo, bom e mau, até mesmo excelentes exemplos de lideranças, mas parece-me que são mais os de alguma mediocridade profissional e cívica. Por isso admiro quem acredita que, quando o modelo concentracionário está em crescendo, é possível criar bolsas de “abertura”. Sei o quanto isso é e será (cada vez mais) difícil, porque os mecanismos de controlo aumentaram e desapareceram ou são quase residuais alguns dos que ainda podiam funcionar como contrabalanço. No sistema educativo público o sistema de checks and balances foi arrasado quase por completo. E não acho que o período negro tenha chegado ao seu auge. Seja a nível interno – há uma segunda vaga de director@s que em vez de renovação parece trazer mais cristalização – seja externo, pois a classe política ou é a que defende explicitamente que as escolas públicas sejam cada vez mais parecidas, na organização, à lógica das privadas (PS, IL, PSD, CDS) ou apela aos professores apenas quando isso lhe dá jeito (Chega), tendo falhado a sua oportunidade para fazer alguma diferença, devido a preconceitos ideológicos não assumidos com a docência não-superior (Bloco, PCP).

Sei que periodicamente faço este papel de arauto do pessimismo, mas é inevitável ao finalizar cada ano lectivo e ao não encontrar sinais de esperança, apesar de ver muit@s colegas, aos saltinhos ou de bracinhos no ar, em encenações de “felicidade”, de encontros “inclusivos” a “formações” ubuntizadas, não esquecendo aqueloutros mais restritos aos promotores e avaliadores em causa própria de “projectos” como os da abelha distópica ou aparentados, à escala mais global ou mais local. Digamos que dedico a essas iniciativas o mesmo desdém que me é dedicado por quem as organiza de forma a seduzir e anestesiar parte dos docentes, dando-lhes a ilusão de ainda interessarem para algo mais do que executores colaborantes e “felizes” de algo em cuja definição só por manifesta ingenuidade poderão pensar que tiveram voz activa, mesmo que tenham falado e alguém tenha parecido ouvir.

Basta um olhar apenas medianamente atento para perceber que nada bate certo, do “sucesso” de imensos programas e medidas da responsabilidade da tutela e seus emissários nas escolas nos dias pares às imensas críticas a tudo e mais alguma coisa que corre mal e necessita de mais planos e “formações” para os professores, nos dias ímpares. Chegamos ao ponto de os responsáveis pelos planos de recuperação de aprendizagens se autoavaliarem ao nível da excelência ao mesmo tempo que continuam a dizer que as aprendizagens não foram recuperadas devidamente, por culpa da falta de preparação/formação d@s professor@s que não andaram a sorrir, de bracinhos no ar para as fotos no fbook, instagram ou twitter. Chegamos ao ponto do doutor Rodrigues, pai orgulhoso do 54 (em união de facto com o então secretário Costa), continuar a dizer que a legislação foi um sucesso, mesmo se temos conhecimento da maioria das crianças e jovens com necessidades específicas de apoio terem apenas os “remendos” possíveis com abordagem low cost da “inclusão”. Chegamos ao ponto de ter a presidir ao organismo que, entre outras missões,, deve avaliar as políticas educativas, alguém que poucos meses antes andou a vender uma velha cartilha de facção, agora em uso promovido pelo ME, a um grande grupo editorial que a distribuiu com os seus manuais. Chegamos ao ponto de dizer que a “descentralização de competências” não trará intervenção na gestão do pessoal docente ou em matérias pedagógicas, mas depois temos casos concretos de imposição, em nome dos projectos locais de “promoção do sucesso”, de um modelo de organização do ano lectivo ou de opções na oferta educativa das escolas, o que se reflecte naturalmente em necessidades a satisfazer na contratação de recursos humanos.

Mas isto é apenas uma amostra do que anda a acontecer, enquanto se multiplicam artigos idiotas sobre os rankings, como se estes fossem a causa de qualquer coisa de que apenas são o retrato das consequências de políticas públicas que nas escolas procuraram mimetizar lógicas empresarias na gestão em combinação com a erosão da função pedagógica essencial, que é a preparação das novas gerações para o futuro, a qual passa por lhes dar as ferramentas essenciais para serem cidadãos activos e não apenas seres falantes, capazes de produzir uns bitaites generalistas. Há dias, lia um texto de um colega (que acredito bem intencionado, para além dos seus interesses comerciais) a “vender” abordagens “integrais” do que fazer nas aulas, como se a maioria de nós não tivesse descoberto a farinha em pó há muito tempo e ainda andássemos a dar aulas “não integrais”. E eu estou cansado deste pessoal que, tendo encontrado um nicho de negócio (um outro é o da “felicidade”, que também motiva muitas emoções virtuais nas redes sociais), depois me tenta convencer de que descobriu o caramelo mais doce da Educação, quando já estamos na fase do salgado. Ou do pessoal que, quando se começa a apontar inconsistências ao que afirma responde “eu sei do que falo porque sou [preencher qualificação, que raramente é de professor@] e estudei [colocar nome de pedagogo ou teórico da Educação a gosto, daqueles defuntos e bem defuntos que se leem em qualquer cadeira ou seminário da formação inicial ou profissionalizante]”, mesmo que tenham escrito uma barbaridade completamente desajustada ao tema que revela o contrário da autoridade que pretende exibir.

É tudo mau? Não, não é. Mas cada vez é menor o que é bom e raro o que é excelente. Por isso, admiro quem acha que pode inverter esta tendência. A resistência deve ser a última a morrer antes de desaparecer toda a a esperança.