Sábado

Admiro, sinceramente, quem ainda resiste e procura que o “sistema” funcione de forma menos iníqua, com menos abusos e um resto de democraticidade na vida escolar. Conhecemos o processo que nos conduziu à situação actual – curiosamente houve quem dissesse e ainda diga que é em nome de “mais democracia” e de “inclusão” – mas acho que serão poucas as pessoas que acreditam mesmo nisso. O progressivo desligamento entre quem dirige e se integra na estrutura hierárquica criada pelo ME (agora com variantes municipais) e os docentes “regulares” foi acontecendo de um modo menos acelerado do que o desejado pela agora “reitora” (ainda a ouvi lamentar isso num congresso da andaep há quase uma década, quando já deixara o cargo de mandante), mas contínuo. Temos, como em tudo, bom e mau, até mesmo excelentes exemplos de lideranças, mas parece-me que são mais os de alguma mediocridade profissional e cívica. Por isso admiro quem acredita que, quando o modelo concentracionário está em crescendo, é possível criar bolsas de “abertura”. Sei o quanto isso é e será (cada vez mais) difícil, porque os mecanismos de controlo aumentaram e desapareceram ou são quase residuais alguns dos que ainda podiam funcionar como contrabalanço. No sistema educativo público o sistema de checks and balances foi arrasado quase por completo. E não acho que o período negro tenha chegado ao seu auge. Seja a nível interno – há uma segunda vaga de director@s que em vez de renovação parece trazer mais cristalização – seja externo, pois a classe política ou é a que defende explicitamente que as escolas públicas sejam cada vez mais parecidas, na organização, à lógica das privadas (PS, IL, PSD, CDS) ou apela aos professores apenas quando isso lhe dá jeito (Chega), tendo falhado a sua oportunidade para fazer alguma diferença, devido a preconceitos ideológicos não assumidos com a docência não-superior (Bloco, PCP).

Sei que periodicamente faço este papel de arauto do pessimismo, mas é inevitável ao finalizar cada ano lectivo e ao não encontrar sinais de esperança, apesar de ver muit@s colegas, aos saltinhos ou de bracinhos no ar, em encenações de “felicidade”, de encontros “inclusivos” a “formações” ubuntizadas, não esquecendo aqueloutros mais restritos aos promotores e avaliadores em causa própria de “projectos” como os da abelha distópica ou aparentados, à escala mais global ou mais local. Digamos que dedico a essas iniciativas o mesmo desdém que me é dedicado por quem as organiza de forma a seduzir e anestesiar parte dos docentes, dando-lhes a ilusão de ainda interessarem para algo mais do que executores colaborantes e “felizes” de algo em cuja definição só por manifesta ingenuidade poderão pensar que tiveram voz activa, mesmo que tenham falado e alguém tenha parecido ouvir.

Basta um olhar apenas medianamente atento para perceber que nada bate certo, do “sucesso” de imensos programas e medidas da responsabilidade da tutela e seus emissários nas escolas nos dias pares às imensas críticas a tudo e mais alguma coisa que corre mal e necessita de mais planos e “formações” para os professores, nos dias ímpares. Chegamos ao ponto de os responsáveis pelos planos de recuperação de aprendizagens se autoavaliarem ao nível da excelência ao mesmo tempo que continuam a dizer que as aprendizagens não foram recuperadas devidamente, por culpa da falta de preparação/formação d@s professor@s que não andaram a sorrir, de bracinhos no ar para as fotos no fbook, instagram ou twitter. Chegamos ao ponto do doutor Rodrigues, pai orgulhoso do 54 (em união de facto com o então secretário Costa), continuar a dizer que a legislação foi um sucesso, mesmo se temos conhecimento da maioria das crianças e jovens com necessidades específicas de apoio terem apenas os “remendos” possíveis com abordagem low cost da “inclusão”. Chegamos ao ponto de ter a presidir ao organismo que, entre outras missões,, deve avaliar as políticas educativas, alguém que poucos meses antes andou a vender uma velha cartilha de facção, agora em uso promovido pelo ME, a um grande grupo editorial que a distribuiu com os seus manuais. Chegamos ao ponto de dizer que a “descentralização de competências” não trará intervenção na gestão do pessoal docente ou em matérias pedagógicas, mas depois temos casos concretos de imposição, em nome dos projectos locais de “promoção do sucesso”, de um modelo de organização do ano lectivo ou de opções na oferta educativa das escolas, o que se reflecte naturalmente em necessidades a satisfazer na contratação de recursos humanos.

Mas isto é apenas uma amostra do que anda a acontecer, enquanto se multiplicam artigos idiotas sobre os rankings, como se estes fossem a causa de qualquer coisa de que apenas são o retrato das consequências de políticas públicas que nas escolas procuraram mimetizar lógicas empresarias na gestão em combinação com a erosão da função pedagógica essencial, que é a preparação das novas gerações para o futuro, a qual passa por lhes dar as ferramentas essenciais para serem cidadãos activos e não apenas seres falantes, capazes de produzir uns bitaites generalistas. Há dias, lia um texto de um colega (que acredito bem intencionado, para além dos seus interesses comerciais) a “vender” abordagens “integrais” do que fazer nas aulas, como se a maioria de nós não tivesse descoberto a farinha em pó há muito tempo e ainda andássemos a dar aulas “não integrais”. E eu estou cansado deste pessoal que, tendo encontrado um nicho de negócio (um outro é o da “felicidade”, que também motiva muitas emoções virtuais nas redes sociais), depois me tenta convencer de que descobriu o caramelo mais doce da Educação, quando já estamos na fase do salgado. Ou do pessoal que, quando se começa a apontar inconsistências ao que afirma responde “eu sei do que falo porque sou [preencher qualificação, que raramente é de professor@] e estudei [colocar nome de pedagogo ou teórico da Educação a gosto, daqueles defuntos e bem defuntos que se leem em qualquer cadeira ou seminário da formação inicial ou profissionalizante]”, mesmo que tenham escrito uma barbaridade completamente desajustada ao tema que revela o contrário da autoridade que pretende exibir.

É tudo mau? Não, não é. Mas cada vez é menor o que é bom e raro o que é excelente. Por isso, admiro quem acha que pode inverter esta tendência. A resistência deve ser a última a morrer antes de desaparecer toda a a esperança.

19 opiniões sobre “Sábado

  1. Muito bom, Paulo, como sempre 👏👏👏 Quanto a pedir a demissão do ministro, isso já não convence ninguém! Houvesse resistência, nas escolas e, na maioria, e tudo seria diferente. A mudança começa por dentro, não em manifestações folclórica s.

    Gostar

    1. Então, não vale a pena fazer nada? O Luís Costa faz uma boa proposta. Percebo o seu desânimo, colega, mas é preciso agir. A colega e eu agimos nos nossos contextos locais, sentindo a resistência da apatia e conivência de quem está ao nosso lado, e a prepotência de quem está acima de nós. Uma manifestação permite estabelecer a ligação entre as minorias das diferentes escolas, passando a imagem de uma classe unida. Mais: produz, pelo menos com alguma eficácia, essa união. É preciso recordar 2008?

      Gostar

  2. Somos uma gota no oceano, mas o oceano começa sempre numa pequena gota.
    É difícil, mas cada vez mais temos de resistir e sobretudo discutir com quem está ao nosso lado nas escolas.A “máquina/sistema” parece poderosa e distante, mas vive das nossas ações ou então somos meros autómatos.

    Gostar

  3. Pois, 2008 foi bom. Sentimos o que nunca tinha acontecido até aí. Daí para cá, cada um voltou ao seu “quintal” assiste – se a uma degradação brutal, de tudo, nas escolas e o individualismo, por isto ou por aquilo, domina. Não era preferível, o movimento de contestação começar entre nós?

    Liked by 1 person

  4. Gosto muito da malta que apela a manifestações periódicas com pedido de demissão, em especial quando no resto doa no não fazem nada de útil para ajudar os colegas.
    Não sei se é o caso do Luís Costa, mas pelo tipo de “bocas” que ele gosta de “amandar” aos outros …

    Gostar

  5. Tenho tido recentemente colegas muito nov@s a trabalhar comigo, que ainda nem chegaram aos trinta anos. Falo-lhes de como era o ambiente de uma escola antes da reitora, mas percebo pela falta de brilho nos seus olhos que é impossível sentir saudade do que nunca se vivenciou.

    Gostar

    1. Exacto. E entram num modelo que acabam por considerar natural e torna-se muito complicado motivá-los para uma “luta” que não sentem ser del@s, nem sequer a encaram como podendo significar a defesa do seu futuro. Claro que os saudosistas da Avenida não compreendem isso porque falam só uns com os outros. Ou então mandam.

      Liked by 3 people

  6. Boa tarde, a propósito da falta de apoio aos alunos com dificuldades de aprendizagem, corro o risco de ser injusto mas não consigo culpar apenas a legislação pelas falhas no apoio a estes alunos. Num dos últimos conselhos de turma chateei-me com a postura da colega do ensino especial por me parecer que havia ali alguma dose de petulância numa atitude em que ela se assumia como guru da sua especialidade e me encarava como seu ajudante no processo de, por assim dizer, ‘ensino/aprendizagem’.
    Não quero entrar em pormenores, mas devo dizer que naquele conselho de turma só duas colegas me apoiaram explicitamente… os colegas mais novos calaram-se.
    Dadas as perspetivas, dada a atitude subserviente que se instala na nossa classe, só posso estar contente por estar a menos de 8 anos da reforma.

    Gostar

      1. Óquisto chegou !

        A “colega” de EE ajuda em quê ?
        a) se não sabe nada de nada
        b) se anda na escola a passar tempo ; a transportar um NEE às aulas curriculares ; a escrevinhar (plagiar) uns relatórios , peis e afins que é de fugir .
        c) se nunca estudou , verdadeiramente
        d) se o seu lugarzinho é a primária ou a creche .

        Pergunta ; que valor tem o que deita pela boca fora?
        ( o grande problema está nos milhões que ingloriamente se gastam com as quase 8000 criaturas deste quilate, recebendo como se de professores se tratasse.
        Isto não é um ataque às pessoas em si. Não! É apenas questionar o que andam a fazer)

        Liked by 1 person

        1. Maria,

          Já percebemos os seus traumas de estimação.
          Mas, por acaso, há docentes da EE que sabem mesmo o que fazem.
          Sim, houve oportunistas a aproveitar a onda.
          Mas também há “professor@s do Liceu” que tiraram cursos nos tempos do braço no ar e não pescam nada dos assuntos que ensinam, limitando-se a debitar manuais.
          Mas é aí que as “lideranças” se devem mostrar à altura.

          Liked by 1 person

      2. Outra coisa que os colegas de EE devem ter é formação para o trabalho que se propõem fazer, predisposição para o fazer e também dava jeitinho um mínimo de empatia com os garotos.
        A colega Maria tem toda a razão na questão do lugarzinho…
        Pronto, lá disse mais do que queria..

        Liked by 1 person

  7. Egos e mais egos. Porque um é do ensino especial, porque outro tem formação de baixo quilate, porque outros são novinhos, por isto e por aquilo. Enquanto não houver solidariedade nas escolas, enquanto dominar o oportunismo, enquanto acharmos que a ” minha estratégia de luta” é a melhor que a “tua”, enquanto não olharmos para o espelho e estivermos a perguntar ” espelho meu há alguém mais belk do que eu?”, não vamos a lado nenhum e todos iremos ser esmagados. Temos de ser solidários, na medida daquilo que podemos fazer, sim porque não podemos pedir a um contratado que aufere 1100 euros por mês e que paga de renda 750 euros que faça uma greve de uma semana. Temos de ser estrategas, solidários e inteligentes nas lutas. Os que mais podem deverão compensar os que quase não podem. Mais solidariedade, menos oportunismo e menos egoismo.

    Gostar

  8. “A resistência deve ser a última a morrer antes de desaparecer toda a a esperança.”
    Eu diria que, no seu texto, o Paulo “resumiu”, refletindo claramente, não só o que todos pensamos, vemos e sentimos no dia-a-dia, e sobre o qual neste seu espaço (O Meu Quintal) vamos deixando relatos, desabafos, confissões, protestos, expressões de resistência e sugestões, mas também, e sobretudo, o fiel “estado da nação” da Educação e da Escola pública em Portugal, sem esquecer, assumidamente, o@s principais responsáveis pelo seu agravamento. E é nessa e com essa sua e nossa resistência que vamos vislumbrando alguma esperança de união e de mudança. Contudo, confesso que, lá no fundo do poço de resistência, o reflexo do brilho da luz da esperança começa a ser cada vez mais difícil de vislumbrar. Há demasiadas nuvens a pairar no céu e não parece que, no Parlamento e nas instâncias intermediárias que nos representam, tenhamos alguém capaz, e suficientemente corajoso para nos ouvir, defender e ajudar a fazer a tão necessária e urgente mudança. Nos meus piores pesadelos, continuo a ver um estado de desunião, hipocrisia, bajulação, subserviência e conivência entre pessoas e poderes, onde o que mais prevalece é a prepotência de alguns sobre a maioria dos que vão pondo em causa, resistindo e protestando, muitas vezes com laivos de requintada perversidade, como se de verdadeira autoridade e legitimidade se tratasse. Mas o que mais me preocupa, citando o Paulo, é “Mas isto é apenas uma amostra do que anda a acontecer, enquanto se multiplicam artigos idiotas sobre os rankings, como se estes fossem a causa de qualquer coisa de que apenas são o retrato das consequências de políticas públicas que nas escolas procuraram mimetizar lógicas empresarias na gestão em combinação com a erosão da função pedagógica essencial, que é a preparação das novas gerações para o futuro, a qual passa por lhes dar as ferramentas essenciais para serem cidadãos activos e não apenas seres falantes, capazes de produzir uns bitaites generalistas.” Tudo isto é verdadeiramente triste.

    Liked by 1 person

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.