5ª Feira

As maiorias absolutas dão, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, em maiorias tendencialmente absolutistas. O “despacho Endesa” é apenas mais um sinal de que a democracia liberal entre nós é muito ténue. A questão nem é se a coisa se justifica (embora qualquer determinação que remeta a fiscalização de algo para o secretário Galamba seja sempre altamente contestável), mas sim se há despachos à medida. A favor de muitos interesses já se sabia, assim como a apatia contra outros. Neste caso, percebe-se que existe uma animosidade clara e que então se legisla à medida, à moda dos poderes do Antigo Regime. Ao mesmo tempo, nega-se ao Parlamento – teoricamente, o órgão soberano num regime democrático liberal – a auscultação de ministr@ss, mesmo quando se sabe que, em regra, el@s vão para lá truncar ou deturpar os factos a gosto, sabendo que não sofrem consequências. Entretanto, enquanto a capacidade de resposta dos serviços públicos é menor, aumentam as nomeações políticas para aqueles cargos que se espalham do poder local ao central, passando pelo regional e intermunicipal, apostando-se no silêncio ou oposição morna daqueles que esperam ainda ficar com algumas fatias, mesmo que fininhas, das pizzas dos entendimentos. Porque mesmo a nível autárquico há muito a embolsar da “bazuca” de que deixámos quase de ouvir falar porque a maioria das “munições” já encontrou o seu paiol.

Sim, começa a adensar-se aquela sensação de claustrofobia, típica de um regime do século XX “à mexicana”.