6ª Feira

Ontem, ao final do dia, vi o ministro Costa e o seu secretário a anunciarem que se tinham reunido com os sindicatos para combinar reunirem-se outra vez em Setembro e Outubro no que pareceu ser apenas algo para marcar calendário e que se teria resolvido com uma troca de mails ou uma videoconferência de 15-20 minutos. Mas eu percebo que o calor humano é sempre importante e que talvez estivessem todos com saudades de dar a sensação de estarem a fazer qualquer coisa de útil. O ministro Costa anunciou que “para o ano” irão vincular mais professores, apesar de o concurso para o próximo ano lectivo já ter acontecido. Deve ter-se enganado, o que nele começa a ser uma regra. Um honest mistake, claro, de governante pouco habituado a estas coisas de aparecer em primeiro plano a propósito de assuntos chatos, depois de meia de anos mais dedicada a eventos fofinhos. Anunciou mudanças no processo de selecção e recrutamento de professores, como se fosse esse o problema para a escassez de docentes em alguns grupos disciplinares mais atingidos por baixas médicas de longa duração. Claro que o problema não é esse. Por exemplo, no SNS, a falta de médicos de determinadas especialidades não é explicada pelo processo de recrutamento, mas pelo facto da remuneração e as condições de trabalho não serem as mais atractivas. No caso dos professores, como profissão qualificada de 2ª ordem, acha-se que o problema não passa por aí, mas sim por dar mais poder aos directores para escolherem directamente quem querem nas suas escolas, numa lógica que sempre me espantou, quando aos professores comuns se diz que devem aceitar todos os alunos que lhes entram pela porta. Ou seja, às “lideranças” exige-se menos do que aos “liderados”. Mas talvez faça sentido, de tão desabituados que alguns lideres estão da sala de aula ou tamanha a vontade de delas fugir o mais depressa possível.

Mas o que para mim é mesmo um problema sério é que isto vai ser decidido, no essencial, por três pessoas em quem não confio minimamente, mesmo se são medidas que não me atingem. Só que não é por isso que vou ignorar que os Joões e o Mário vão tomar decisões relevantes sobre milhares (ou dezenas de milhar) de actuais e futuros professores, quando o seu histórico mais ou menos recente (um é o governante com maior presença no ME em democracia como ele já se gabou e os outros são uma espécie de réplica má do par Statler e Waldorf dos Marretas, entre os dois com mais de meio século longe do quotidiano escolar) é deplorável. Seja pela hipocrisia, seja pela truncagem da verdade, seja pela cedência a jogatanas políticas em que a defesa dos interesses dos docentes (missão central de qualquer sindicato que se firma representá-los) esteve longe de ser a primeira ou segunda prioridade.

A minha confiança no “protocolo negocial” anunciado só não é zero por questões meramente académicas, pois há que ter em conta que pode acontecer uma singularidade de tipo cósmico que contrarie todas as probabilidades. Já percebi o sentido da coisa e quais os principais beneficiários das medidas; já percebi que qualquer dos negociantes está apenas preocupado na imagem projectada acerca do seu papel na “resolução” de um problema que é em grande parte de sua responsabilidade, por longa ineficácia negocial, com destaque para o período iniciado em finais de 2015, quando fizeram o pacto de mútua colaboração e divisão da polónia, desculpem, da manipulação da classe docente. Isto é como colocar os lobos a decidir o melhor destino a dar aos cordeiros. Até podem engordá-los um pouco, mas já se sabe com que intenção.

Esperar que em 2022 ou 2023 estas três criaturas manhosas (o resto de pouco conta, incluindo os que andam desorientados sem saber para que lado se encostar) se tornem subitamente gente séria e verdadeiramente preocupada com o bem-estar docente é o mesmo que esperar que o Inverno não chegue, mais ou menos aquecimento global.

16 opiniões sobre “6ª Feira

  1. Nós é que sabemos pq nós é que somos os bons:
    “Escuta pois, nós sabemos que és nosso inimgo, por isso vamos encostar-te ao paredão. Mas em consideração dos teus méritos e das tuas boas qualidades, escolhemos um bom paredão e vamos fuzilar-te com boas balas disparadas por boas espingardas e enterrar-te com uma boa pá debaixo de uma terra boa”.

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  2. Infelizmente, tenho de dar razão ao Guinote. Não percebo como é que um sindicato aceita entrar nestas encenações. No ponto em que as coisas estão, sentar-se à mesa com o ministro só faria sentido depois de cedências capitais do ME. Parece que o pessoal se senta à mesa apenas para fingir que dá um murro nas mesas. A única mesa de negociações que importa são as escolas, isto é, a greve. É preciso parar tudo. Se a adesão dos merdas dos professores ficar aquém, azar! É preciso cagar grosso, e não mijar fininho. Estou farto, farto, farto!

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    1. A FENPROF e sus muchachos sentam-se à mesa com o diabo porque é exactamente isso que eles querem e sempre quiseram, ou seja, ficar bem na foto do situacionismo e fazer que andam mas não andam. O dinossauro do sindicalismo tem mestrado nessas tangas.

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  3. Há uma quantidade de coisas inter-relacionadas que não se têm vindo a analisar. Poder-se-ia falar num ordenado mínimo e uma maioria absoluta – que, talvez, de social pouco teve. A estratégia de baixo custo das carreiras especiais com formação académica superior tem tanto de estratégico como o ordenado mínimo. Exceptuando, naturalmente, aquelas carreiras que interessam manter com um certo contentamento.
    Na política, a demagogia sempre trouxe dividendos. Infelizmente, as lideranças são parte do problema; na educação, então, feita de gente à medida do anódino, administradores de ordens online e de leituras úteis apenas quando lhes ineressa o seu próprio umbigo.

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      1. Os abusos cometidos as escolas são bem piores que outros, por: generalizados;
        acontecerem no século XXI; serem denunciados e não haver qualquer ação para impedi-los; ocorrerem no lugar de formação das futuras gerações.
        Quando se fizer a história da NOITE NEGRA da malvada mlr e dos seus kapos sucessores, não se esqueçam de onde vêm o costa e o leite (este último, execrável delfim da ordinária rodrigues, lá a Norte…), encontraremos perseguições bem ao nível daquelas que agora fazem as manchetes da imprensa…
        Denunciar à IGEC é que me parece, de facto, uma causa perdida. Está ao serviço da limpeza de imagem d@s diretor@s. Parece o famigerado “procurador da tesoura”…
        Nota: quem ouvir o discurso dos diretores encontrará neles a mesma inocência dos padres abusadores… só que generalizada.

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