Domingo

Comprador compulsivo de jornais e revistas, há cerca de uns cinco anos comecei um processo de “desmame”, não por causa da net, mas porque já me cansavam as propagandas plantadas que nem eucaliptos como se fossem notícias verdadeiras. Não que fossem novidade, nem sequer que fossem em maior quantidade do que em tempos do “engenheiro”, mas apenas porque atingi o ponto de saturação de pagar por publicidade não identificada como tal. Por vezes, publicidade de tipo mesmo pessoal (ocorrem-me à distância as imensas peças feitas sobre empresários de sucesso, com o zeinal à cabeça, mas muitos outros pelo entremeio), em que nem era preciso ir às entrelinhas para ver que vinham de “fábricas” avençadas. Com a agravante de saber, em alguns casos de viva voz, que a troca eram viagens pagas, eventos da treta patrocinados como se fossem debates essenciais para a “sociedade”, o “futuro”, a “economia” ou tudo à mistura. Os fretes sucediam-se, não apenas pelos xiitas desta vida, mas por muitos “especialistas”, com destaque para a área da Economia e das Finanças Públicas, daqueles que numa página escreviam a encomenda como se fosse notícia e em outra opinavam sobre os “factos” relatados como se fossem coisa investigada e não recebida na secretária. Basta ver alguns trajectos, para se perceber que não mudaram de verdadeiro patrão.

Isto vem a propósito do noticiário da silly season relativa a um outro empresário de “sucesso” que agora foi ao espaço, mas que há uns três meses não sai das páginas dos jornais porque se descobriu que teria cometido infracções fiscais, mas mesmo assim era elegível para empréstimos de milhões de que, afinal, não precisaria e de que “abdica” na fórmula esquisita encontrada por um jornal “de negócios” para explicar a coisa, talvez porque a literacia não chega para saber que só se pode abdicar de algo a que se tem direito ou já se tem, de Direito. Aquilo que mais me interessava saber foi o que não li em lado nenhum, ou seja, como é que o aparelho de Estado que me bloqueou há uns bons anos um reembolso do IRS por causa de uma dívida que só existia por incompetência dos próprios serviços, não consegue detectar uma situação deste tipo, que não é de dezenas ou centenas de euros, mas de dezenas ou centenas de milhar.

Porque, quando se critica o “Estado” é curioso que a certos “liberais” nunca parece interessar a responsabilização específica de ninguém, seja do tal “Estado”, seja dos infractores privados. Porque parece que a “culpa” é sempre de uma entidade vaga, a responsabilidade é “política” e raramente se chega a algum lado na parte jurídica, até porque os empresários de “sucesso” costumam ter advogados de “sucesso” que, uns tempos antes, ajudaram o tal “Estado” na produção das leis que depois contestam em Tribunal com uma eficácia que nos faz pensar porque não a tiveram enquanto consultores pagos pelo erário público.

Se é verdade que há quem investigue para lá da superfície, não é menos verdade que a maior parte das notícias se limita a reproduzir o que lhes é fornecido por uma das partes em confronto. Eventualmente, pelas duas ou mais, mas raramente de um modo que se perceba tudo nas condições devidas. Provavelmente, porque é tudo “relativo”, não há uma “única verdade” e buscar “culpados” pode parecer perseguição. E até pode ser complicado quanto se trata mesmo do patrão.

Phosga-se, mesmo sendo dia do Senhor com maiúscula, o tal que se existe tem andado muito distraído com os seus funcionários. Provavelmente, porque até os pecados inscritos em pedra são “relativos”.

7 opiniões sobre “Domingo

  1. Li com atenção os teus desabafos -se lhe posso chamar assim…- de hoje ‘Domingo’ e de ontem, ‘Sábado’ e não posso deixar de os considerar actuais, lúcidos e pertinentes. Neste sentido, espelho-me no que escreveste.
    Penso que é o medo que está por detrás de toda esta falta de verticalidade. O medo do insucesso, o medo de se ter a coragem de se dizer o que se pensa. o medo de não se ter condições de sobreviver numa sociedade decadente como aquela em que vivemos.
    O medo de fazer frente aos poderosos, aos patrões, aos dirigentes políticos que agem como míseros bandidecos inimputáveis.
    O medo, dizia o grande O’Neil, haveria de ter tudo…
    Numa entrevista do John Malcovitch ao ‘El Mundo’, a propósito dos identitarismos que abundam e nauseabundam por aí, o autor referiu-se ao discurso de Faulkner quando recebeu o seu prémio Nobel em 1950. Curioso como um discurso do início da Guerra Fria, dirigido aos jovens, pode ser tão atual nos tempos que vivemos…
    ‘[…]
    He must learn them again. He must teach himself that the basest of all things is to be afraid; and, teaching himself that, forget it forever, leaving no room in his workshop for anything but the old verities and truths of the heart, the old universal truths lacking which any story is ephemeral and doomed – love and honor and pity and pride and compassion and sacrifice. Until he does so, he labors under a curse. He writes not of love but of lust, of defeats in which nobody loses anything of value, of victories without hope and, worst of all, without pity or compassion. His griefs grieve on no universal bones, leaving no scars. He writes not of the heart but of the glands.
    […]’

    Com a tua licença, aqui deixo o links:

    https://www.elmundo.es/cultura/teatro/2022/08/06/62ed259efc6c83834c8b4582.html

    https://www.nobelprize.org/prizes/literature/1949/faulkner/speech/

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    1. Sei que, muitas vezes, me repito ou prafraseio, mas… é o que observo em redor.
      Chamam-me pessimista, por não ver os passarinhos que cantam aqui mais perto de casa, depois de parte da serra ter ardido e os ter “empurrado”.

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      1. A mim dizem que estou sempre pronta para uma guerrinha, que vibro com o constatar e verbalizar o que está mal, que tenho energia para isso… já nem se trata de ser pessimista. É a recusa em quererem ouvir e daí a resposta do “quero lá saber”, ou “lá vens tu”, ou” já sabes que isto é assim” , e tudo numa peregrinação a Fátima para serem vergastados e ainda agradecerem o termos trabalho pois há muita gente por aí pior do que nós. Deve ser porque estou no Norte… e há muitas igrejas. Que sei eu…

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  2. Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
    Que outro valor mais alto se alevanta.” (Camões)
    I
    Eu canto Mário Ferreira, o falonauta
    Que em pila voadora ao céu subiu
    Cuidando ser do espaço um astronauta
    à patranha do Musk sucumbiu.
    Dez minutos voou – façanha lauta!
    E prestes do alto céu caiu.
    Pagou milhões só pra ir ao ar.
    Mais lhe valera ir à Feira Popular.
    II
    Agora compara-se aos maiores
    Supera-os, até, é bestial!
    Recebam-no com loas, bandas, flores
    A este novo herói de Portugal.
    Nem os reis lhe foram superiores
    Qual Gama, qual Álvares Cabral!
    Ao céu foi, em nave maneirinha
    Inspirada nas Caldas da Rainha!
    Manuel da Luz

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  3. Sempre que a esse sr se referiam, na comunicação social, imediatamente, mudava de canal. Melhor figura fazia se apoiasse causas sociais, nas quais em tantas áreas estamos necessitados. Heróis são os que lutam todos os dias e dão o seu melhor para tornar o mundo melhor para tod@s. Não são pedantes, transformados em narcisos.

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