Uma opinião sobre “Boa Noite

  1. Planeamento estratégico (parte 2)

    Joaquim da Coxa tirara a boina e coçava a careca pensativamente, os olhos fixos no chão de tabuado.
    — São tudo boas ideias, claro está, mas, para pagar as obras do telhado da escola, precisaremos de arranjar uma verba adicional antes que venha a chuva.
    — Não se pode impor uma taxa especial sobre as vendas de aguardente? — interrompeu o cura olhando inocentemente para o Morgado.
    — Ou aumentar o IVA sobre as hóstias — altercou prontamente o agricultor.
    — Não vale a pena desavirem-se, meninos — atalhou a velhota Letras Mal-Pagas, a eternamente endividada mestra cuja reforma pulava para a frente sem se nunca se dar por alcançada. — A chuva fez-se mais rara que os baptizados em Traseiras. Poupa-se no telhado da escola e aposenta-se antes a professora, não vá dar-se o caso destes pobres ossos se esparramem a meio de alguma lição.
    — Sendo assim, parece-me que já estão pensados todos os assuntos da ordem de trabalhos e podemos encerrar a reunião — pontuou o Coxa preparando-se para servir uma última rodada.
    — O compadre não está esquecido do assunto mais urgente deste reunião?
    O Coxa suspendeu o enchimento do segundo copo e olhou interrogadoramente para o Mij@-na-Horta.
    — Pois lembra bem o compadre! Já se me varria da lembrança o assunto do turismo. Como presidente da junta, cabe-me consultar os fregueses e arranjar um plano que ponha Traseiras no topo da lista de destinos turísticos do país.
    — Amigo Coxa, parece-me que os turistas que procuram Traseiras a escolhem porque, justamente, não vem em qualquer lista — contrariou o Morgado temendo que a notoriedade da terra pudesse atrair plantadores de oliveira espanhola e de estufas.
    — O compadre não se preocupe porque o turismo que eu tenho em mente só nos incomodará alguns dias em agosto. Com a planície desocupada e o clima mais fiável do país, penso que poderemos atrair para aqui os rebanhos de políticos que nesta altura do ano fazem a sua transumância. Os partidos falidos podem fazer aqui a retoma das atividades de uma forma bastante económica, libertando o sobrelotado litoral algarvio para os turistas estrangeiros com maior capacidade de endividamento.
    E todos pareceram entusiasmar-se com a ideia, em especial o padre que logo imaginou a quantidade de confissões necessárias para uma clientela tão carecida de absolvição.

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