A Proposta De Despacho Sobre As Habilitações Para A Docência

Lia alguém afirmar que só se pronunciava sobre a proposta do ME quando conhecesse a sua letra. Mas ela existe, vou deixá-la em anexo e é vergonhosa a vários níveis, alguns dos quais não falados, tamanhas as micro-preocupações. Parece que ninguém reparou no facto de no 2º ciclo, os grupos mais ligados às chamadas “disciplinas teóricas” (grupos 200 e 230), serem completamente terraplanados, sendo necessário apenas uma licenciatura generalista em Educação Básica, que serve desde o pré-escolar até ao 6º ano para quase tudo enquanto se alinham até uns requisitos mais ou menos detalhados para leccionar, por exemplo, os grupos 240, 250 e 260 (há clientelas politécnicas e não só a alimentar). Ou seja, na prática, o 2º ciclo quase desaparece como nível autónomo, porque qualquer coisa serve para leccionar as áreas disciplinares (História e Geografia, Português, Matemática e Ciências) que o ministro Costa e os pedabobos do patchouly consideram “tradicionais”, “anacrónicas” ou “enciclopédicas”.

Como algumas associações de professores destas disciplinas são dirigidas principalmente por gente muito “secundária” e pouco ligada aos “básicos”, não se espera grande resistência ou oposição. Em especial, entre quem precisa de mobilidades para ter tempo para fazer manuais e vender formações.

A coisa é assinada pelo actual secretário de estado, que já vai mostrando o mau serviço para que foi recrutado, embora a “produção” do documento tenha outra origem. Mas em devido tempo lá chegaremos.

(por outro lado, parece que posso voltar a leccionar o grupo 400 sem problemas, pois com uma licenciatura de 4 anos e um mestrado pré-bolonhês em História, devo ter umas centenas de créditos para colocar em cima da mesa… pensando bem, mais do que a maioria dos colegas de proximidade e muito mais do que quem tem sido chamado a tapar buracos)

Quero O Galamba A Verificar Todas As Facturas, Já!

Medida prende-se com a escalada de preços nos mercados internacionais e após um ano sem atualizações. Para dois terços dos 650 mil clientes residenciais, que representam os consumos mais baixos, a subida do preço do gás terá um impacto médio de 18 euros mensais, antes de taxas e impostos, ou seja, o aumento rondará os 22 euros.

4ª Feira

Como já escrevi mesmo muitas vezes, comecei a leccionar em Março de 1987, fazendo uma substituição no grupo 10º A, quando era finalista do curso de História. Concorrera no mini-concurso como a chamada “habilitação suficiente”. Para isso eram necessárias 12 cadeiras do curso de História. Tinha 22 anos, quase a fazer 23, mas era mais velho do que muitos professores que tivera em especial entre o 7º e 9º ano, quando na área das Ciências, Biologia, Matemática e Inglês (pelo menos) a maioria dos meus professores tinha o Propedêutico feito ou acabara de entrar na Faculdade. Era o que se conseguia para responder à pressão demográfica sobre o sistema de ensino. O meu horário de então era nocturno (duas turmas de 9º ano, regime pós-laboral, uma turma do 3º ano do Curso Geral e duas do 1º ano do Curso Complementar). Por acaso, no 4º ano do curso estava a dar muitas das matérias que tinha de leccionar em três das turmas. No caso das duas de Complementar já tinha passado por essa parte da História. No ano seguinte, já concorri com a licenciatura concluída, com “habilitação própria”, mas não tive colocação, porque fiz a cruzinha para alunos exclusivamente nocturnos (era possível…), pois tinha outros compromissos da parte do dia e tinha gostado da experiência.

A partir dessa altura, deixei de lado a dita cruzinha e voltei a entrar em substituições, excepto quando fui trabalhar ano e meio para uma autarquia. Fiz a profissionalização apenas ao findar os anos 90, quando já estava a leccionar no grupo 200 (antigo 1º). A partir dessa altura, também muito mudou no acesso á docência, em termos de exigências académicas, nem sempre para melhor, mas pelo menos formalmente no sentido de um maior rigor na regulação do exercício da docência. Com a proletarização e precarização da docência vividas desde, pelo menos, 2005, muita gente foi abandonando a profissão ou desistindo de nela entrar, mesmo tendo qualificações profissionais para a exercer. Essa é a principal razão para a “falta de professores” de que tanto se fala. Não existem falta de professores habilitados profissionalmente, mas sim de condições para os manter ou atrair.

O ministro Costa decidiu que a solução não é melhorar essas condições, mas sim criar critérios “mínimos” para aceder à docência, permitindo que quem no acesso à Universidade desprezou as vias ligadas ao ensino, tenha agora a hipótese de fazer uns biscates, desde que tenha uns créditos definidos de modo manhoso, independentemente da formação de origem. Não sei onde o ministro Costa andou na década anterior a ser governante, mas sei que tem muita gente ligada à docência na família e círculo de amizades. Mas parece desconhecer – calma, ele não desconhece, apenas parece que, ou dá a entender, quando isso lhe dá jeito – o que se passou por essas alturas e desde então, incluindo durante os seus 7 anos de governança no ME. A solução pelo “professor mínimo” para as “aprendizagens essenciais” até é coerente na lógica anti-científica e relativista, tipo vale-tudo, que vai promovendo na definição do currículo da Educação Básica e Secundária, acolitado por uns sobreviventes dos tempos do patchouly pedagógico (sendo que muitos se mantiveram longamente na docência com habilitações mínimas, indo a correr fazer DESE’s onde bem sabemos, da forma que também conhecemos). Só posso dizer que ainda bem que a minha petiza já só apanhou a parte final desta forma de encarar a Educação Pública, mas a verdade é que ainda levou com uns estilhaços desta forma demagógica e incompetente de desenvolver uma política educativa em ambiente de saldos/rebajas, como escreveu o colega Ricardo Santos numa certa “rede social”.