4ª Feira

Ontem, ao início da tarde tive uma longa vídeo-conversa com uma colega que tinha pedido para falar comigo, alguém com quem não estava pessoalmente há 22 anos, pois fomos colegas por duas vezes, a abrir e fechar os anos 90 do século passado. Neste momento, está colocada a mais de 200 km e por isso mantivemos um contacto esporádico, principalmente via redes sociais, mas ela pediu-me para falar, porque precisava de desabafar antes do arranque do novo ano lectivo. Com 54 anos, está numa daquelas situações que a pretensa racionalidade da gestão dos recursos humanos na Educação criou ao longo dos últimos 15 anos.

Para além de outros problemas de saúde, está de tal forma deprimida com tudo o que envolve o quotidiano escolar que lhe basta ouvir a palavra “escola” para começar a chorar convulsivamente, o que pude confirmar. A forma como a Escola, a nível de enquadramento global, mas também no plano a gestão de proximidade, a tem tratado, concentra vários dos piores vícios de um modelo mau, aplicado por pessoas de carácter duvidoso e que não perdem a oportunidade para se aproveitar da fragilidade alheia. Não vou aqui fazer um relato de tudo o que se passou, porque já tod@s conhecemos os abusos em desenvolvimento, quantas vezes apresentados como “boas práticas” por gente insensível e abusadora. Apenas diria que se chegou ao ponto de ter sido avaliada por alguém (coordenadora) que concorria às mesmas quotas que ela (por ter optado pelo regime geral), quando isso é completamente inadmissível, mas ninguém parece ter-se incomodado lá pelo sítio, muito menos uma sadd que, como quantas outras, não se percebe se é formada por gente profundamente ignorante ou se apenas por gente sem coluna vertebral.

A esta colega, que nada tinha a pedir sem ser quem a ouvisse e desse algum apoio moral, apesar de estar numa situação de saúde profundamente frágil e sem condições para dar aulas, algo certificado não apenas pelos seus médicos, mas também por várias Juntas Médicas que recomendaram que não desse aulas, terá sido certamente atribuído um horário, de acordo com as directrizes da tutela. Sabendo-se que na primeira semana de aulas, haverá umas três turmas do Secundário a ficar sem professora de uma das suas disciplinas nucleares. Mas o ministro Costa afirmou que quase 100% dos horários foram distribuídos e que os que faltam ocupar são quase só de TIC. Só que ele se especializou na verdade mitigada. Sim, podemos distribuir milhares de horários a pessoas que se sabe estarem sem condições e com isso ainda agravar mais o seu estado. Uma crueldade, em termos morais, e uma estupidez, em termos de gestão. Embora conveniente em termos mediáticos e de propaganda e desresponsabilização. Não vou ao ponto de ofender os conhecimentos do ministro Costa, insinuando ou afirmando que ele desconhece este tipo de situações. Só que tudo aponta para que a ele nada disto interesse, se existir a necessidade de mistificar a opinião pública e apresentar-se como o bonzinho da fita.

Se a muit@s director@s restasse algum pingo de solidariedade, isto poderia ser travado ou minimizado, se não existisse o medo de sofrer represálias ou se não tivesse crescido exponencialmente o lambe-botismo a começar em algumas “lideranças inovadoras”. Em vez disso, transcrevo o que me enviou outra colega no início da semana, sobre a forma como o seu “lider” decidiu tratá-la:

Pedi a meia jornada com perda de vencimento, mas ele disse que ia indeferir. Assim, vou ser coerente e vou pedir licença sem vencimento. Se aguentasse guerras ia trabalhar e pôr atestados pop up, daqueles um mês em casa, um mês a trabalhar, para o estado e ele fica com o problema nas mãos, os alunos não interessam nada. Não sou capaz, vou entregar o trabalho do castigo que me me deu amanhã: pautas IMPRESSAS para tratar dados e fazer estudo comparativo e nomes de meninos com classificações X e Y, Sublinho: grelhas de notas de exame [e] de final de ano em PAPEL.

É a este estado de coisas que chegámos, mas ainda há quem ache que o problema a falta de candidatos à docência, seja dos já certificados profissionalmente, seja na formação inicial, é o nível das habilitações.

15 opiniões sobre “4ª Feira

  1. Pois… é isto! Repetido por muitas escolas neste lodaçal a que ainda chamamos país democrático. A minha solidariedade e um abraço com sincero afeto à colega em causa e a todos os que sofrem na pele os desmandos dos tiranetes que infernizam a vida de tantos colegas. Como já disse muitas vezes, até publicamente, o atual modelo de gestão é o grande cancro da Escola Pública neste momento. Há exceções, felizmente que sim, mas há demasiados tiranetes espalhados pelas escolas a infernizar a vida aos colegas. E isso tem de acabar! Essa tem de ser a luta, a 1ª luta, a mãe de todas as lutas!

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    1. Conheci um caso em que a tirania e a prepotência alastrou à mulher. O casal a mandar na sadd e os outros 3 uns verbos de encher. Uns tristes a quem ligam enquanto tiverem o poder, sem ele, normalmente, são uns ignorados.

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    2. Exceções???
      Onde?
      Vou já para lá!
      Nota: há tiranetes que até convocaram professores, deslocados centenas de km, para, em pleno agosto, estarem na escola a receber manuais.

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    3. Muita coragem para a colega e para todos os colegas que tentam afirmar-se profissionalmente no contexto desta partido-carreira. Sou contratada, muito pouco ainda conheço, mas feliz ou infelizmente, já calquei chãos de várias escolas e, nos últimos anos, posso afirmar com convicção está crescente falta de solidariedade profissional. Tem sido absurdamente duro perceber que as escolas se tornaram apenas agendas políticas e os professores e todos os profissionais de educação que se diz comporem a “comunidade escolar”, não passam de números numa linha de montagem de alunos. Tenho conseguido acumular serviço docente com AEC promovida pelo Município onde resido e devo dizer que sou muito mais bem tratada neste último contexto do que na maioria das escolas por onde tenho passado nos últimos tempos. E dizem que é entreter meninos…

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  2. https://www.deco.proteste.pt/investe/reforma/direitos/noticias/2022/02/professores-reforma-60-anos E isto? Poderia ser uma solução, mas está em águas de bacalhau. E o trabalho com horário reduzido ou part-time, que segundo a ex-secretária de estado Alexandra Leitão não está previsto para os professores (apenas existe a meia jornada), também poderia ajudar. Não se percebendo como os professores não têm este direito! Quanto ao director não aceitar o pedido de meia jornada, com que justificação o faz, se a pessoa reunir os requisitos? É que a meia jornada é para ajudar na parentalidade e o estado por princípio deve sempre defender e favorecer essas situações! O diretor poderá também não aceitar o pedido de licença sem vencimento!

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  3. O pessoal cala-se. Ninguém levanta a voz. Tudo com o rabinho entre as pernas. É preciso reagir. Perante cada abuso, é preciso responder. Para responder ao abuso sistémico, é preciso fechar as escolas. Greve, greve, greve, que só pode terminar com conquistas efectivas, e não com promessas da treta. É preciso pôr a escola a ferro e fogo. Bem podem alguns desenvolver mil e uma análises a explicar porque é que esta é uma ideia romântica ou estúpida. Nós temos de criar as condições objectivas para fazer o único combate que é eficaz, e não dizer que essas condições nunca estão reunidas. Acabar com este modelo de gestão totalitário, garantir condições de segurança e autoridade para os professores, valorização salarial, eis o caderno de encargos.

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  4. O castigo mencionado foi aplicado há dois anos a um amigo meu. Ficou duas tardes e fazer o sublinhado de notas de pautas, etc. Entretanto, ele mudou de escola. Nunca lhe perdoaram ter sido o único a fazer greve às reuniões extra, que eram muitas e também o condenaram a não haver vaga para ele para mudar para 5º escalão.

    Há outros castigos: mandar professor para CI mesmo havendo horário mais do que completo, não reunir com os elementos do grupo, não mostrar a lista graduada, berrar, ameaçar, chamar colegas à parte que saem em pranto. Ninguém diz nada pois há quem prefira calar para ter o bom horário e afinal está ali a 5 minutos de casa.

    Em geral, sobra a recomendação costumeira: deixa lá, esquece, deixa andar, já sabes, as outras escolas não são melhores, etc. Uma litania de covardia muito feminina e de aceitação.

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  5. A meia jornada devia ser possível para professores que tem os pais a cargo e não os querem meter em lares, tive que meter baixa nalguns anos porque o diretor da escola onde estava não aceitava que eu às vezes faltasse. ( Se a empregada doméstica faltar nós temos que faltar, às vezes só a um tempo até acionar a hipótese B, se acumulativamente tivermos problemas de saúde de imunidade baixa e outros crónicos, mesmo cumprindo, somos forçados à baixa médica, para alguns diretores isso é crime, chegaram a sugerir-me nomes de Lares! Felizmente agora estou numa escola em que humanidade tem sido palavra chave, quando tive que faltar ao primeiro tempo por causa da minha mãe em setembro, porque a empregada não veio e tive que chamar outra, fui justificar e disseram-me: ” faltar é um direito seu”. Não sei se foi por isso, senti-me acarinhada e melhorei imenso da depressão que me acompanhava à dezena de anos. As palavras têm importância sim.

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  6. Será que estas pessoas, menores, ignoram que este tipo de atitudes está a sufocar a escola? Quem sentirá hoje a alegria de iniciar um novo ano letivo? O PS é, sem dúvida, o grande artífice da escola da tirania dos pequeninos… Se queres conhecer alguém, entrega-lhe o poder! Esta radiografia nunca falha!

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  7. Os polvos nunca perdoaram (quais deuses!) quem fez greve. Aquela do stop às reuniões de avaliação e que até resultaria se o grande sindicato não viesse, como sempre, cortar as pernas aos professores, foi definitivamente a cereja no topo do bolo da malvadez deste “abençoado” modelo de gestão.
    A vingança foi servida através da colocação da etiquetagem discriminatório naqueles que a guentaram firmemente. As piores turmas, os piores horários, a multiplicação de níveis atribuídos, os entraves a pagamento de deslocações para serviços de exames, os artifícios internos para denegrir, a má língua, as desautorizações/humilhações, as rasteiras foram usadas e abusadoras. Só que eram todas legais, mas de tão baixa moral!
    E no entanto, apenas catalogáveis fofinhamente de “assédio laboral”, apesar de terem configurado a destruição pessoal de muito bons profissionais.

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