A Abelha Distópica Vive!

Apesar de alguma esperança numa sua eventual perda de vigor, eis que me chegam documentos “orientadores” (alguns deles estão orgulhosamente online e assim espero que continuem) de agrupamentos que foram picados pela abelha maiata e produziram mel em forma de eduquês da temporada outono-inverno, com destaque para as tão afamadas “rubricas” que agora aparecem em tudo e nada.

Sei a minha tendência para a caturrice com a redundância, o bizantinismo terminológico e a balofice retórica, mas há coisas que é sempre uma delícia transcrever, nem que seja pela forma como aveludam a nossa atitude perante o coiso e tal.

Eu não sou o melhor dos exemplos, mas quando há documentos produzidos por “equipas” que fizeram formação na matéria, custa mais a ler coisas do género “Os professores têm que recorrer a diferentes instrumentos de recolha de dados para que haja rigor, fiabilidade e equidade no processo de avaliação.”

Vamos lá à parte em que num agrupamento se explica aos professores que a avaliação segue, entre outros, o “princípio da melhoria das aprendizagens”. E é como estar de volta às aulas da profissionalização:

O word bem deu sinal de alarme, mas ninguém se incomodou.

Depois temos a parte da “integração curricular”, mesmo se me parece que o conteúdo (de uma platitude mesmo plana) não tem nada a ver com o título. Porque por “integração curricular”, na área das Ciências da Educação (quando levadas a sério), entende-se outra coisa que não isto.

(para uma definição do que se entende por “integração curricular”, concorde-se ou não com a coisa, espreitar aqui)

O documento continua assim por quase 20 páginas, de que em próximas oportunidades transcrevei novos nacos substantivos, que a esta hora já é capaz de produzir pesadelos.

A Culpa Será Da Troika?

É um pouco deprimente ler algumas pessoas a justificar uma série de coisas com os tempos malfadados da troika, como se essas malfeitorias justificassem todas as anteriores e posteriores. E depois ainda acusam quem discorda dessa narrativa, que coloca a origem de todos os males em 2011, de “relativizar”. “Relativizar” é branquear que isto apaga qualquer reversão inacabada. “Relativizar” é negar que isto corresponde a um terceiro congelamento salarial.

A clubite partidária está de volta de um modo absolutamente canhestro.

Estimativa do Governo para a inflação em 2022 é de 7,4%. A confirmar-se, a perda de poder de compra dos trabalhadores do Estado em 2022 será a maior dos últimos 12 anos. Em algumas carreiras as perdas poderão chegar a 15,9%

É que nem a narrativa que estão a tirar aos pseudo-privilegiados para dar aos mais desfavorecidos bate certo.

Portugal é o 8.º pior na lista de países com maior risco de pobreza ou exclusão social

O Que Pode Parecer Uma “Boa Ideia” Pode Ser Apenas O Início Ou Consolidação De Más Práticas

A Andreia Sanches – uma das jornalistas com conhecimento específico na área da Educação e não apenas com vagas ideias – deixou-se seduzir pela ideia da “autonomia” das escolas e direcções para escolherem os seus professores. O tema não é novo, a bondae da ideia parece óbvia mas, como muitas coisas que parecem por demais evidentes, se calhar não é bem assim. Escreve a Andreia no Público:

Não é o mesmo ensinar em escolas situadas em territórios com altos níveis de abandono escolar, onde as crianças vivem em casas sobrelotadas e as famílias fazem contas ao que põem na mesa, ou ensinar em bairros de classe média e média alta, onde os pais dos meninos têm o ensino superior, há livros nas estantes da sala e explicadores que ajudam a preparar os exames. Há professores especialmente talentosos a ensinar nas primeiras, e que investem a sua energia e formação nisso; e outros que são muito bons nas segundas — mas que têm menos talento e/ou formação para contextos potencialmente mais desafiantes.

Que a distribuição dos profissionais seja cega, como em Portugal, quer aos interesses dos docentes, quer às necessidades das escolas, que tantas vezes perdem aqueles que mais fizeram a diferença ao longo do ano lectivo porque as regras assim o determinam, é um tema espinhoso há muito aflorado, mas que nenhum Governo quis debater a sério.

O primeiro parágrafo que transcrevo retrata algo óbvio: nem todos damos para as mesmas coisas. Como professor, há muito empo, numa zona “deprimida” e com imensos problemas sociais, muita “diversidade”, pobreza, etc, etc, já vi chegar muit@s colegas a quem isso aflige e chega mesmo a assustar, percebendo-se a dificuldade em “encaixar”. Mas como é que sabemos, antes de experimentar, se são os mais adequados ou “melhores” para este ambiente ou aquele? Muitas vezes, é mais a falta de vontade em enfrentar os tais “desafios” que afasta umas pessoas e a outras não. Será numa “entrevista” que um@ director@ ou membro de órgão de gestão, por vezes sem dar aulas há décadas, percebe essa eventual “adequação” ou “vocação”? A minha experiência pessoal diz-me que não é isso que se passa e que as “qualidades” mais apreciadas são outras.

Mas ultrapassemos essa parte, a do nepotismo que garante 98% a familiar em concurso com entrevista (ahhh… mas @ presidente do júri não foi el@) e que tantos conhecemos desde sempre.

Foquemo-nos em algo mais substantivo, até porque não é algo que não se conheça lá de fora, mesmo se há a ilusão de que é este tipo de “modelo” que funciona melhor, embora não seja mais do que o “fechamento” das comunidades escolares sobre si mesmas e o seu contexto envolvente.

Se as escolas tiverem autonomia para escolherem os seus professores – afinal, contrariando a “equidade” que se pede aos professores quando abrem a porta aos seus alunos – até que ponto não aumentarão as assimetrias entre as que conseguem cativar os “melhores” e as que ficarão com os “outros”? Sei que me dirão que o que está em causa é o “perfil” e a sua “adequação” à realidade de cada contexto. Que me desculpem, mas se assim for, haverá zonas do país que ficarão quase sem candidatos e irá agravar-se muito mais as desigualdades que já existem. A menos que achemos que há uma adequação, uma simetria, quase perfeita entre as necessidades de professores e o número de cada “tipo” de professor mais ajustado a dado contexto educativo, económico e cultural. Isto, pura e simplesmente, não é assim. E lá fora já se percebeu que as zonas menos favorecidas são as que sofrem mais.

(estou a passar por cima da questão das quotas que determinam que só 25% dos professores podem ser muito bons ou excelentes, independentemente do contexto e das dificuldades que enfrentam; o que, há que convir, desmotiva 75% dos que sejam obrigados ou escolhidos para esta ou aquela escola)

Mas há outra questão, que pode parecer contra-intuitiva para quem entranhou este discurso da “autonomia e flexibilidade, pseudo-liberal, pouco atento aos fenómenos potenciadores das desigualdades. Não será um sistema “cego” potencialmente mais justo e equitativo (recordemos… não é a “cegueira” um dos atributos mais associados a uma Justiça maiúscula, por ser imune aos “contextos” diferentes condições daqueles que perante ela são trazidos?) do que um que permite a escolha à la carte dos candidatos à docência? Não permitirá uma distribuição menos assimétrica dos talentos e méritos dos professores que, mesmo tendo muito jeito para dado perfil de alunos, se calhar prefere alinhar em outro tipo de “organização”? Não será o sistema da “autonomia”, paradoxalmente, o que acabará por tratar pior e de forma mais desigual os interesses dos alunos no seu todo, ao deixar nas mãos de uma ou duas pessoas a selecção de dezenas de docentes para cada agrupamento?

Nada como ler o que vai sendo concluído acerca deste assunto (THE RECRUITMENT GAP -Attracting teachers to schools serving disadvantaged communities), comparando as “evidências” no terreno com as evidências teóricas. Porque, não nos iludamos, os que estão a perder, perderão sempre mais.

Reputation matters: more affluent schools seem to be attractive due to their ‘reputation’ while teachers in disadvantaged schools are most likely to leave because they are attracted by another school.
• Teachers overwhelmingly agree that teaching in schools serving more disadvantaged communities tends to involve harder work (92%) and requires more skills (87%). Teachers who currently work in disadvantaged schools agree most
strongly with this.
• Teachers typically prefer to teach classes with higher attaining pupils and with fewer behaviour problems. This poses problems for recruitment in schools with more disadvantaged intakes.
• Those who have currently chosen to teach in schools with more affluent intakes strongly wish to avoid schools with behaviour problems, even if this means working longer hours. It will likely be difficult to persuade these teachers to apply for jobs at any school where they fear behaviour is not under control. This is why sound whole-school behaviour policies, along with improving the external reputation of a school are important for improving its teacher recruitment.

Fala-se em “revolução” a este respeito da contratação directa pelas escolas de parte significativa do seu pessoal docente. Por deformação histórica, sei no que acabam quase todas essas “revoluções” quando as castas no poder se enquistam. Sendo que neste caso, já estão enquistadas e a “revolução” é apenas para a selecção dos “súbditos”. Se há quem assim escolheria os “melhores” para os alunos da sua escola? Ou quem julga serem os “melhores”? Acredito que sim. Mas isso apenas quereria dizer que para algum lado iriam os “rejeitados” por um sistema de decisão quase unipessoal que só tornaria ainda mais insuportável um modelo de gestão escolar profundamente centralizado a nível local. E seria um meio caminho para outras formas de “contratação local” que já existem para certas “ofertas educativas diferenciadas”.

A verdadeira “revolução” seria acabar com esses múltiplos centralismos de proximidade, opacos, que beneficiam da fraca visibilidade para atropelar procedimentos e dar mais valor a uma entrevista de meia hora ou menos do que ao portefólio profissional ou mesmo a anos de experiência neste tipo de funções.

A verdadeira “revolução” seria criar um código deontológico para a gestão escolar. E depois logo passaríamos para outras coisas.

5ª Feira

Toda esta discussão sobre habilitações e acumulações, avivou-me melhor as memórias dos tempos em que o que agora se quer fazer corresponderia não a uma “habilitação própria” para dar aulas, mas à chamada “habilitação suficiente”, quando não se tinha o curso completo ou não se era exactamente da área disciplinar que se ia leccionar. O mau caso: 1986-87, concorri ao mini-concurso com “habilitação suficiente” para o 10º grupo A, apresentando certificado de conclusão do 3º ano do curso História, com 16 cadeiras (anuais), sendo que na altura era pedido um mínimo de 12. agora, já seria uma licenciatura completa, mas isso é outa história. Ganhava menos do que o resto do pessoal, exactamente por casa desse tipo de habilitação. Quando terminei o curso, passei então a concorrer com a tal “habilitação própria”, mas não fiquei colocado porque fiz a cruzinha para horários apenas nocturnos. Colegas com o curso de Economia, Antropologia, etc, podiam concorrer para o dito grupo, mas tinham “habilitação suficiente”.

O que agora se passa é mais ou menos equivalente a isso… considerar habilitado para a docência quem cumpriu o que há 35 anos seria uma “habilitação suficiente”. Se chega? è possível que sim, dependendo da pessoa, como parece natural. Tive aulas com sumidades académicas que eram um desastre a comunicar o que sabiam ou pensávamos que sabiam. Assim como tive excelentes comunicadores que só sabiam, com poder de cativar as audiências, replicar o que estava num par de livrinhos que tinham lido em seu tempo. Há de tudo um pouco e no Básico e Secundário talvez mais, porque somos muitos. A questão não é bem essa. A questão passa mais pela falta de honestidade com que estão a ser apresentadas “medidas” que nada têm de novo, como se fossem ideias arrancadas a ferros ao esforço intelectual e perspicácia visionária de quem ou é ignorante ou desonesto.

Já agora… acerca do último tema de ontem, recorde-se o artigo 11 do ECD:

1 – Aos docentes integrados na carreira pode ser autorizada a acumulação do exercício de funções docentes em estabelecimentos de educação ou de ensino com: a) Actividades de carácter ocasional que possam ser consideradas como complemento da actividade docente; b) O exercício de funções docentes ou de formação em outros estabelecimentos de educação ou de ensino. 2 – Consideram-se impossibilitados de acumular outras funções os docentes que se encontrem em qualquer das seguintes situações: a) Em período probatório; b) Nas situações a que se refere o n.º 3 do artigo 48.º; c) Em situação de licença sabática ou de equiparação a bolseiro. 3 – O regime de acumulação a que se referem os números anteriores é igualmente aplicável aos docentes em regime de contrato e horário completo. 4 – Por portaria conjunta dos membros do Governo responsáveis pelas áreas da educação e da Administração Pública são fixados os termos e as condições em que é permitida a acumulação referida nos números anteriores.

Se vem aí nova portaria? Resta saber em que termos, porque, como ontem escrevi, tudo isto já está regulamentado há bastante tempo.