Domingo

Fui espreitar as listas das RR3 e RR4, porque me dizem que a falta de professores está muito localizada a sul, em especial na zona da Grande Lisboa. O que constatei é que maioria d@s colegas colocad@s foram-no em escolas bem a norte do Tejo e, em especial, a norte do Mondego. Ou bem que há menos horários a sul do que dizem ou então não têm a capacidade de atrair candidatos. Para não falar em abstracto, exemplifico com a minha DT que ainda continua, pelo menos, sem dois elementos, sendo que há 14 páginas de nomes de candidat@s não colocad@s na RR3 e 12 páginas na RR4 para o conjunto dos dois grupos disciplinares em causa. Ou seja, não há falta de gente para os ocupar, o problema é que não compensa ocupá-los. Certo… são horários administrativamente temporários, mesmo se sabemos que são de pessoas que não estão em condições de voltar a dar aulas. Mas para o ME/DGAE, isso não interessa nada. Aliás, depois das ameaças de juntas médicas aos milhares, agora nem sequer irão verificar casos, até mais graves do que estes, em que as condições de saúde impedem a docência. Mas as regras, não do recrutamento, mas de apuramento das verdadeiras características das necessidades, impedem que as vagas sejam ocupadas. Porque o ME gosta de ser poupadinho e desconfiado. E é assim que muitos horários continuam por ocupar, enquanto muita gente continua por colocar.

A ver se nos entendemos de uma vez por todas, embora eu saiba que é praticamente impossível mudar as crenças e preconceitos a quem deixou que eles se instalassem de forma quase inamovível. Existem horários por preencher e existem pessoas com habilitações para os ocupar, o que falta é a coragem (política, financeira, intelectual) do ME assumir uma atitude diferente em relação aos docentes que não estão em condições de leccionar, permitindo-lhes uma aposentação digna e não a actual procissão de juntas médicas que, em diversos casos, são particularmente penosas de cumprir, chegando mesmo a agravar estados depressivos. Quem não percebe isto, ou é mesmo ignorante ou é profundamente [pi-pi-pi]. Se há abusos? Há, eu sei. São muitos? Não me parece, apesar das pessoas que olham só para o seu quintal 😀 e que clamam muito contra tais abusos. Mas se acham que assim é, que tal denunciarem-nos em concreto, em vez de bloquearem a resolução do problema, até que lhes deem mais poder para “escolher” as maçãs mais verdinhas do pomar?

Concluindo: o modelo de recrutamento não é culpado pela “falta de professores”. A culpa (que existe) é de um conjunto de procedimentos que o ME impôs ao logo das últimas duas décadas para a ocupação de horários que, sendo anuais, não aparecem como tal e que, podendo ser completados, são sistematicamente apresentados como incompletos. Solucionar isto não exige mais poder para quem já o tem em excesso. Basta permitir o tal completamento de horários, por exemplo, com 14 ou mais horas, quando se sabe que @ docente em baixa médica não voltará, ou manter quem veio fazer a substituição durante os dias ou semanas que passarão até que quem voltou à escola, porque ao fim de dois meses a isso foi obrigad@, se vá de novo embora, não por causa de “padrões irregulares”, mas sim porque foi chupad@ até ao tutano da “resiliência”, em especial mental.

Isto permitiria atrair, em primeiro lugar, os candidatos que recusam horários que só são incompletos e temporários porque a tutela tem regras estúpidas em nome de uma “boa governança” financeira que prejudica, antes de mais, os alunos, mas liberta dinheiro para a enésima avaliação estratégica do mítico novo aeroporto de Lisboa. E para uns eventos à maneira que andam a acontecer por aí.

11 opiniões sobre “Domingo

  1. Governo com ouvidos moucos.

    Tem de ser confrontado na TV e em jornais nacionais pelos representantes dos docentes.

    Infelizmente esses tb andam mudos ou a praticar artes cénicas.

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  2. Finalmente! Uma análise e síntese perfeitas da realidade que observo há décadas:
    “Existem horários por preencher e existem pessoas com habilitações para os ocupar, o que falta é a coragem (política, financeira, intelectual) do ME assumir uma atitude diferente em relação aos docentes que não estão em condições de leccionar, permitindo-lhes uma aposentação digna e não a actual procissão de juntas médicas que, em diversos casos, são particularmente penosas de cumprir, chegando mesmo a agravar estados depressivos.”

    Tenho-me sentido especialmente solidário (mas de pouco serve…) com tantos colegas excecionais que vi a afundarem-se vítimas destes carrascos políticos, peritos em demonizar professores.
    Pelo que vejo, acho que já só sobra um ainda lúcido. O resto, ou se afundou, ou vai em plano inclinado (como eu), ou assobia para o lado, ou está no alto do gabinete a gozar com isto tudo e à espera que chega o dia para meter o papel e pirar-se sem cortes.

    Obrigado pela sua coragem, frontalidade e por ter a generosidade de colocar a sua inteligência ao serviço da Educação (aquela que já não existe).

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  3. Dinheiro para tudo que alimente os egos, os corruptos que legislam para si próprios e em seu próprio benefício, menos para o bem coletivo. É a chamada solidariedade intergeracional, de que tanto enchem a boca.

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  4. Admiro a perseverança do Paulo e outros colegas (aqui incluo alguns sindicalistas), anos e anos a tentarem abrir os olhos destes ignorantes (para não lhes chamar imbecis e outras coisas que também são) que circulam há 20 anos pelo ME mas raramente o conseguem.
    É claro, verdade seja dita, não fossem muitos posts nos blogues e artigos de jornais a elucidar as criaturas e mais depressa se atolavam na m**da que têm na cabeça.

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  5. Ora bem! Eu penso que interessa manter o estado de m**** actual. Enquanto houver instabilidades dá para chamar mais uns amigos para os grupos de trabalho pagos pelo portuguesito.
    E depois há uma prática gira. É que o pu liti cu sabe que gira rapidamente para conselhos de administração de grandes empresas. Estas, mesmo a babar de lucros, não são taxadas porque também servem para dar emprego aos rebentos e sobrinhos dos pu liti cus (os do arco do poder).
    Depois, há para aí uns betos a achar que ainda é preciso engordar mais os privados e uns privados que só engordam graças à sua enorme capacidade de espreitar o furo de instabilidade que lhes é aberto pelos pu liti cus do poder.
    Tombém as oposições, são fracas. Ora pactuam, ora não saem do disco riscado.
    A quem interessa este estado de coisas? Aos que andam para aí de botas e queixos à Mussolini prometendo verdoar e endireitar os canalhas. E tombém aos espreitadores de furos que engordam com os furos ofertados de bandeja.
    Há duas castas por cá. A que trabalha e é levada à exaustão e a que espreita furos, que é a mesma que faz furos!
    Para manter este estado de coisas é bom que a educação seja bem controlada para produzir apenas carneirada. A comunicação social também tem que estar arregimentada.
    Prontos! Cá tá!

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  6. É tão difícil de entender o que o Guinote diz? Acrescento que existe na lei a possibilidade de pré – reforma, que não é aplicada. Eu própria não sei até quando sou capaz de resistir. Estou à beira dos 64 com 42 anos completos. Se tiver de colocar baixa médica, o meu horário vai engrossar a estatística. Ninguém saberá que tenho pedida a pré – reforma desde 2019 e que a última resposta que recebi foi a de que aguardavam a autorização do ministro das finanças… A história já é longa, mas fico por aqui. É tudo lamentável e só não vê quem não quer. Obrigada Guinote por dar conta de forma tão clara do que se está a passar

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  7. E… está realmente tudo dito, com destaques a bold bastante certeiros para ajudar à compreensão dos mais “distraídos”. Podias enviar isso por e-mail ao Marques Mendes, só para ver se ele dava algum uso ao material 🙂

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