Uma Lição De Auto-Estima

Lendo, parece que só ele e a sua escola se preocuparam com os alunos ao longo de muito tempo. Confesso que, no extremo da outra que afirma que a escola não a preparou para casar, está esta atitude do “eu ui sempre muito bom, antes de mim era o caos e depois de mim, se não contarem comigo, será o dilúvio…”. E depois eu é que só olho para o “meu umbigo”? Phosga-se!

Não está em causa a boa vontade, as boas intenções, de quem assim fala, apenas se me encarquilha a medula toda com esta forma de se colocar num patamar de superioridade ética e de auto-avaliação hiper-generosa, como se quem não alinhar neste desvairado auto-elogio fosse uma espécie de troglodita. Permanece a questão: quantas aulas deu nos últimos 30 anos, nas quais incluiu todos os alunos nas actividades? E, já agora, se nunca recusou um aluno, aceita que agora se recusem professores?

“Uma das prioridades foi colocar o aluno no centro das aprendizagens”. Já estava muito mais à frente para a sua época?
Sim, não se fazia.
A nossa escola e a forma como ela foi sendo gerida, numa acção transformacional nas pessoas, em particular nos alunos, foi construída num processo de reflexão. Mas tivemos ousadia. Todos os projectos que o ministério ou outras estruturas abriam, aderíamos sempre. Desde a primeira hora sentimos que o aluno tinha de estar no centro das aprendizagens. Tivemos sempre dois pressupostos que hoje têm uma validade inquestionável, que é a importância da aprendizagem precoce entre os zero e os seis anos e, sobretudo, a consolidação da formação, quer cívica quer afectivo-emocional quer até cognitiva- relacional, dos alunos no 1.º ciclo

A Escola É A Mamã, O Papá, A Vóvó, O Vôvô, A Tia, O Tio, A Madrinha, O Padrinho, A Vizinha Amiga, O Vizinho Mais Ou Menos, A Namorada, O Namorado, As Primas Giraças, Os Primos Chatos, Mais Tudo e Todos De Que Abdicámos Na Idade Dos Zingarelhos

Há textos que quase se percebem, não fossem idiotas as premissas.

Saímos do ensino obrigatório aos 18 anos. Podemos trabalhar, casar e votar – mas não sabemos como nada disso funciona.

Tudo o que implica a vida prática fica de fora da escola, que nos deixa numa espécie de deus-dará colectivo

Não estou mesmo com paciência para coisas parvas, em especial vindo de quem tem o “mestrado Erasmus Mundus “History in the Public Sphere”, do qual foi bolseira durante dois anos”. Fiquei impressionado. Ao que parece isso soube como se fazia, embora parecendo que saiu da escolaridade básica ao “deus dará” sem lhe terem ensinado como deveria casar.

Acredito que a escrevinhadora talvez não tenha idade para ter apanhado com a Cidadania, porque nesse caso talvez lhe pudessem ter explicado isso de casar e como, já que a família e os amigos não a ajudaram em tamanho empreendimento. Presumo que seja solteira, portanto. A menos que o mestrado lhe tenha ensinado.

Quanto ao resto, pelo menos quanto ao votar, só posso dizer que deve ter sido muito má aluna no 6º ano de H.G.P. (e de História do 9 º ano), quando se explica de forma até bastante precoce a diferença entre absolutismo e liberalismo, a Constituição de 1822 (agora bi-centenária) com a separação de poderes e o início das eleições de base censitária, mais tarde a diferença entre Monarquia e República e a introdução do voto quase universal masculino, a seguir o que é uma Ditadura e, já por volta de Abril, as regras da democracia e o voto universal para os maiores de 18 anos, as liberdades, etc, etc. Pelo caminho, tenho quase a certeza que tentaram ensiná-la a ler (útil para analisar os programas eleitorais) ou como fazer uma cruz (ou deixar em branco) no boletim de voto.

Lamento, mas isto (entre outras passagens, como aquela da inflação que é explicada quando se dá a crise de 1929 na “enciclopédica” disciplina de História) é completamente mentira:

Saímos da escola sem conhecer a Constituição nem como funciona o sistema eleitoral e político; não nos explicam como se elege ou se é eleito para um cargo público; não aprendemos a distinguir as funções do primeiro-ministro daquelas do Presidente da República;

Para a próxima, não se esqueça: esteja com atenção nas aulas de H.G.P. e Ciências (para o caso de, para além de casar, quiser fazer algo menos formal desde que as pulsões o exijam), arranje um círculo social fora da escola (tenha amigos!), porque quanto à família já não vai a tempo de escolher seja quem for e é pena que em casa não lhe tenham falado de nada sem ser cama, mesa, roupa lavada e dinheirinho para estudos lá longe.

Entretanto, em busca de audiência jovem, o Público especializou-se neste tipo de prosas, tão refrescantes como as nabiças em dia de mercado. O raio é que as nabiças me amargam um pouco e aos nabos nem gosto de os ver na sopa.

Sim, estou a ficar mesmo muito velho para a redescoberta da pólvora seca porque mesmo nos meus tempos de jubentude nunca me deu para pedir à escola que me ensinasse como casar. Muito menos se justifica agora que a televisão até nos ensina a casar com um agricultor. Com um dos 31 que existem, 25 deles holandeses, alemães ou franceses já entradotes e com uma metade cara de cabelo pintado de cor estranha ou mesmo tutti-frutti.

Domingo

Vistas as listas da RR5, a minha DT continuará sem Português e Inglês. Talvez venha ter E. Física, mas só saberemos amanhã ou depois. Um dos horários em falta (que acumula Cidadania no 2º semestre), na realidade, será anual, mas as regras do ME obrigam a apresentá-lo como temporário. Claro que o ME lamentará “profundamente” esta situação, certamente causada pelo facto de as pessoas adoecerem, o que carece de “instrumentos de vigilância”, não vá dar-se a irregularidade de, esgotado o tempo legalmente possível de baixa, as pessoas serem obrigadas a regressar á escola. Não acredito que o ministro seja assim tão estúpido, embora não duvide que há pelo ME quem o seja. A alternativa é muito pior do que a estupidez, em especial para quem grita “cidadania” aos sete ventos e bate no peito com “inclusões”.

Será que muita gente já percebeu que aquilo era só polimento para vos enganar? Ou continuam a achar que há milhares de malandros que faltam só porque são piores profissionais do que aquel@s que acumulam horas de projectos e projectinhos, coordenações e coordenaçõezinhas e que ainda aparecem em seminários, encontros e ditas “formações” a auto-elogiar-se em Excelente++ (10,999 na classificaçãoquantitativa), por vezes com a benção dos especialistas que venderam o dito projecto que convém ser de excelência para que o contrato se renove e os subsídios continuem a escorrer?

Em nome do “interesse dos alunos”, como é natural. Sobre isto as peraltas e os conrarias – ou sequer a linhagem “ainda bem” – não escrevem, porque coiso, não tem a ver com as “férias grandes” em casa.