A Nova Noção De “Histórico”…

… não é descobrir qualquer cura para uma doença, inventar algo útil para o progresso para a Humanidade, mas tão só ter um bar entre os 50 melhores do mundo, de acordo com uma classificação altamente aleatória. Dizem que é “um marco histórico para Portugal”, mas é bem verdade que também já vi atribuir uma comenda do 10 de Junho a um tipo porque ficou regularmente em último lugar num campeonato de fórmula 1.

4ª Feira, 5 De Outubro

Dia da República e consta que Dia Mundial do Professor. Dia em que se fazem muitas juras à ética republicana e algumas ao valor dos professores para a sociedade, raramente sinceras e traduzidas em actos concretos. A tal “Ética” é atropelada todos os dias com pareceres mais ou menos ardilosos ou escusando-se em obscuridades, parecendo desentender-se que a Ética é algo que não se resume às letrinhas das leis que são feitas adequadamente ambíguas por aqueles que as irão usar da forma mais proveitosa possível. Quanto aos professores, passaram a carne para canhão, por um qualquer trauma que faz com que uma classe quase inteira de políticos e muitos encartados cronistas considerem que lhes dedicam uma particular embirração, que seria pouco relevante, não trouxesse consigo um prolongado esforço para os amesquinhar, domesticar, desqualificar academicamente e precarizar em termos materiais.

Durante muito tempo, considerei-me professor entre uma ou outra coisa até que, entrado em quadro de escola, decidi que era tempo de deixar outras coisas para trás e dedicar a maior parte do meu tempo à ocupação que passava formalmente a ser a minha profissão. Azar do caraças, que isso acontecesse no mesmo ano (2005) que subiram ao poder o “engenheiro” dominical e a “reitora” sem avaliação, mais no seu séquito de gente de escassa honestidade e desprezo absoluto pela tal ética republicana. Apesar disso, nunca senti aquela vontade imensa que vir nascer ou aprofundar-se em outr@s de passar a ser outra coisa, na escola ou fora dela, para além do que já era… um tipo que gosta de ler umas coisas, investigar essas e outras e depois escrever a esse respeito. Confesso que ainda assim sou, embora cada vez com menos entusiasmo, porque a paciência já vai escasseando para tanta parvoíce junta e não falo apenas de tipos com lugar cativo nas páginas do semanário do regime ou governantes que fizeram do calculismo o caminho para o topo da sonsice, não esquecendo colegas que de tanto fazerem malabarismos e desejarem ser algo mais, sonham tornar-se conselheiros, consultores ou romeiros ocasionais.

O Dia Mundial do professor diz-me cada vez menos, não pelo que deveria ser, mas pelo que é, por aquilo em que o transformaram. A partir de fora, mas também de dentro. As derrotas sucessivas devem-se tanto ao poder dos adversários, quando às fraquezas próprias, a começar, não pelo desânimo, mas por aquel@s que estão disponíveis para seduções diversas, nascidas de ambições que aceito legítimas, mas de igual forma de ambições nem sempre explícitas.

Em decurso está um novo período de aceleração de desqualificação dos docentes, de investida mediática com falsos pressupostos (da vergonhosa conversa da “honestidade de todos, excepto se…” até à falsidade total dos pretextos para “localizar” a vinculação de professores, de preferência os mais flexíveis) e de desrespeito completo das leis por parte daqueles que foram os seus próprios autores. Tudo para tornar em definitivo a gestão do sistema educativo uma variante de “democracia iliberal” de trazer por casa, com uma cadeia hierárquica de comando de tipo neo-feudal, seja a partir da tutela central, seja das centralidades locais.

Neste contexto, o Dia Mundial do Professor aparece-me como uma espécie de homenagem formal aos Combatentes da Grande Guerra. Guerra onde também ficou perdida, algures numa trincheira gaseada, a tal da Ética.