4ª Feira, 5 De Outubro

Dia da República e consta que Dia Mundial do Professor. Dia em que se fazem muitas juras à ética republicana e algumas ao valor dos professores para a sociedade, raramente sinceras e traduzidas em actos concretos. A tal “Ética” é atropelada todos os dias com pareceres mais ou menos ardilosos ou escusando-se em obscuridades, parecendo desentender-se que a Ética é algo que não se resume às letrinhas das leis que são feitas adequadamente ambíguas por aqueles que as irão usar da forma mais proveitosa possível. Quanto aos professores, passaram a carne para canhão, por um qualquer trauma que faz com que uma classe quase inteira de políticos e muitos encartados cronistas considerem que lhes dedicam uma particular embirração, que seria pouco relevante, não trouxesse consigo um prolongado esforço para os amesquinhar, domesticar, desqualificar academicamente e precarizar em termos materiais.

Durante muito tempo, considerei-me professor entre uma ou outra coisa até que, entrado em quadro de escola, decidi que era tempo de deixar outras coisas para trás e dedicar a maior parte do meu tempo à ocupação que passava formalmente a ser a minha profissão. Azar do caraças, que isso acontecesse no mesmo ano (2005) que subiram ao poder o “engenheiro” dominical e a “reitora” sem avaliação, mais no seu séquito de gente de escassa honestidade e desprezo absoluto pela tal ética republicana. Apesar disso, nunca senti aquela vontade imensa que vir nascer ou aprofundar-se em outr@s de passar a ser outra coisa, na escola ou fora dela, para além do que já era… um tipo que gosta de ler umas coisas, investigar essas e outras e depois escrever a esse respeito. Confesso que ainda assim sou, embora cada vez com menos entusiasmo, porque a paciência já vai escasseando para tanta parvoíce junta e não falo apenas de tipos com lugar cativo nas páginas do semanário do regime ou governantes que fizeram do calculismo o caminho para o topo da sonsice, não esquecendo colegas que de tanto fazerem malabarismos e desejarem ser algo mais, sonham tornar-se conselheiros, consultores ou romeiros ocasionais.

O Dia Mundial do professor diz-me cada vez menos, não pelo que deveria ser, mas pelo que é, por aquilo em que o transformaram. A partir de fora, mas também de dentro. As derrotas sucessivas devem-se tanto ao poder dos adversários, quando às fraquezas próprias, a começar, não pelo desânimo, mas por aquel@s que estão disponíveis para seduções diversas, nascidas de ambições que aceito legítimas, mas de igual forma de ambições nem sempre explícitas.

Em decurso está um novo período de aceleração de desqualificação dos docentes, de investida mediática com falsos pressupostos (da vergonhosa conversa da “honestidade de todos, excepto se…” até à falsidade total dos pretextos para “localizar” a vinculação de professores, de preferência os mais flexíveis) e de desrespeito completo das leis por parte daqueles que foram os seus próprios autores. Tudo para tornar em definitivo a gestão do sistema educativo uma variante de “democracia iliberal” de trazer por casa, com uma cadeia hierárquica de comando de tipo neo-feudal, seja a partir da tutela central, seja das centralidades locais.

Neste contexto, o Dia Mundial do Professor aparece-me como uma espécie de homenagem formal aos Combatentes da Grande Guerra. Guerra onde também ficou perdida, algures numa trincheira gaseada, a tal da Ética.

18 opiniões sobre “4ª Feira, 5 De Outubro

  1. Parabéns, Paulo Guinote!
    Fez aqui a perfeita descrição da decadência da decência neste país parolo de fascínios corruptos neofeudais.
    Infelizmente!
    Seja como for, expresso aqui a minha gratidão por Ser Professor!

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  2. Obrigada pelas suas palavras; fazem-me sentir menos só neste calvário que se tornou ser professora. Comecei no ano 2000, vinda de uma licenciatura em ensino, cheia de esperanças ou ilusões. Em 2007 inscrevi-me num mestrado pois a escola já não me dizia muito e hoje estou a fazer tese de doutoramento. Sempre na minha área científica, nunca consegui estudar em “educação” para além das cadeiras da licenciatura…
    Mas não consigo deixar de ensinar: é o que me faz feliz…
    Espero o diploma de Doutora para, talvez, tentar a sorte no Superior, sempre há menos correntes a asfixiar os professores. Nem que para isso veja descer a remuneração…
    Faço uma vénia àqueles que fazem milhares de quilómetros para dar aulas. Eu, aqui bem pertinho de si (passei anos felizes no Barreiro), nunca ainda mais de 40 km, e já há cinco anos que trabalho na cidade em que vivo.
    Obrigada Paulo Guinote.

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  3. Ao certeiro retrato do Paulo só acrescento dois detalhes que me parecem cruciais. Além da objectiva caracterização dos medíocres mandarins de serviço, temos ainda de constatar não apenas a tremenda incompetência de muitos dos que pululam pelos corredores da 24 Julho, mas também e sobretudo a total e absoluta irresponsabilidade e impossibilidade de responsabilização pelas crescentes malfeitorias contra o sistema e todos os seus interveninentes: docentes, alunos, funcionários e pais. Faz-me lembrar aquela peça de teatro “E não se pode exterminá-los?”

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  4. 5 de outubro, Dia Mundial do professor!
    Enquanto professor nada há a comemorar. Evocar hoje… só se for a morte, depois de um coma profundo, da docência. Tudo é mau demais, perdemos o estatuto (já nem respeito podemos esperar, nem temos, dos outros), perdemos dignidade (já nem nos respeitamos, ou rebelar-nos-íamos). Tornamo-nos numa amálgama que, provavelmente vítima de lavagens cerebrais miseráveis e miserabilistas, ocorridas particularmente na última década e meia, parece ter ficado genericamente acéfala.
    Repugna ver que as escolas estão cheias destes “professores”, submissos aos maias, ubuntus, flexibilidades e perseguições dos comissários políticos instalados e pagos, vitaliciamente, para o efeito. Que têm medo de tudo e que até agradecem à tutela e aos diretor@s o ar que respiram.
    Que ajoelham, esperando d@ diretor@a, porque ele incarna e consubstancia o inquisidor-mor na escola, migalha a que chamam quota na avaliação. Que ainda não perceberam que além de terem um vencimento de miséria, proporcionalmente (custo e nível de vida) muito pior que no Brasil(!!!), por exemplo, terão pouco mais do que o salário mínimo na aposentação. Que também não perceberam que a crescente indisciplina dos alunos decorre exatamente do desprezo por alguém que se tornou, social e intelectualmente, irrelevante.
    O que virá a seguir com a contratação e a vinculação entregue aos algozes dos docentes?! Impensável!
    Isto são factos que deviam fazer acordar, pensar e corar de vergonha muita gente. Tudo demasiado insano!
    Nota final: aqueles que formam as futuras gerações tornaram-se, pelo menos em Portugal, tão irrelevantes que o PR, no Dia Mundial, se limita a uma mísera nota na sua página digital. As referências aos animais de estimação do Obama foram sempre bem mais impactantes…

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  5. Eu não celebro dia nenhum. Talvez me celebre a mim porque nunca atraicoei os meus princípios, nunca me vendi, nem mendiguei. Ficou me cara a espinha dorsal, mas a mim não me vergam: o meu trabalho é sério, sem alinhamento em correntes pseudo vanguardistas e muita loucura. Afinal, seria tudo muito simples: a escola como o lugar do conhecimento e da aprendizagem da decência e da integridade. Com um grande respeito. Como não é nada disso, que diabo há a celebrar?

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  6. Faço minhas, se me permite, as palavras da mmaarryyaa. Custou – me muito caro e à minha família, a minha verticalidade, mas muito me orgulho dela. Parabéns, ao Paulo, também. Obrigada

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  7. Seres de obediência “bruta e fera”,
    tomem lá 25 horas de formação sobre a cor dos peúgos flexíveis do nosso senhor redentor ubuntu pseudoincluso maiato!
    Tomem lá João Baião
    para docentes!
    Tomem lá empreendedorismos à disneylendia portuguesa!
    Levem tudo isto pela módica quantia de 250 euros por 25 horas de lavagem!
    E hoje, porque estamos generosos a fazer marketing e publicidade ao nosso estaminé de vendas, e, já agora, porque é o vosso reles dia, tomem lá um descontinho de 2 euros!
    Basta para isso que procedam à inserção do código promocional que acabamos de enviar para os vossos aparelhos de controlo digital!
    Sejam rápidos porque este descontão é uma oferta limitada às 10 primeiras inscrições na nossa fábrica!
    Uma coisa é certa: muita engorda teremos!
    Vocês obedeçam e façam entretenimento!

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  8. Eu sei que é para termos discursos de “unidade” mas chateia-me ver alguém na televisão, feliz por ter organizado uma mini-manifestação com uma colega, na praia, a dizer que os “outros” professores com 56 anos têm 14 horas de aulas. eu tenho 57 e, graças à esperteza das aulas de 45 minutos, tenho 20 horas lectivas.
    Se há quem tenha 14 com 56 anos? Talvez se começou a dar aulas aos 17.
    Seja como for, chateia-me o ar festivo entremeado com tretas.
    E já agora… a monodocência já não existe.
    E que se dane se ficam aborrecid@s comigo.

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  9. Aquela senhora cansada por ter “25 meninos” de que se liberta às 15h30min de cada dia, a reclamar pelo que outros colegas parecem ter. Serão os 150 jovens em cada ano com testes e trabalhos para corrigir em casa, por exemplo? Será a possibilidade de ter horários que podem ir das 8h às 23h55min, sejam quais forem as horas letivas semanais? Será o variado número de disciplinas e formações que os “outros” têm que ter? Haja muita paciência! Deveríamos sempre ter presente a união de classe, que está a ser difícil para mim neste momento, mas, pelo menos, não estou na TV… Já agora, em 2008 estive na grande manifestação indignada sobretudo devido à carreira que os colegas mais novos não teriam.

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    1. E podia ter a sorte de não a mandarem fazer a substituição de todos os colegas que faltassem… Tenho 62 anos e nunca tive um ano letivo sem componente letiva, Nunca pedi, porque iria passar esse ano a fazer substituições.,. Deixa de ser atividade letiva por dar as aulas noutras turmas? Cada agrupamento, cada forma de interpretar a lei.

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