Poder Ajudar Alguém…

… com um esforço relativamente modesto e recusar, apesar de ser numa causa que sempre se disse defender, não me faz desacreditar na natureza humana, mas apenas confirmar as minhas piores expectativas em relação a quem acha que fazer umas passeatas e ficar em casa de vez em quando chega para marcar uma posição.

Sábado

Sucedem-se episódios de maior ou menor violência em torno das escolas ou mesmo no seu interior. Não sei se é maior o número ou o interesse mediático pelas ocorrências. Não confio nos números oficiais, mas não sei o que há por todo o país. Apenas, olhando em redor, sinto uma maior desorientação geral das pessoas que não estavam claramente preparadas para mais de uma década de adversidades e, ao contrário de algumas teses, não saíram nada melhores de contextos como o da pandemia. Da fase final do socratismo até aos dias de hoje, talvez tenha existido um par de anos (2016-2017) em que alguns acreditaram em alguma coisa que rapidamente se percebeu ser ilusão. Depois de uma vintena de anos, de obras públicas e eventos (Expo, Euro), que serviram para dar uma aparência de desenvolvimento, caímos da realidade da sociedade que a desigualdade é um traço permanente ou mesmo em crescimento, porque a cada aumento do salário mínimo, temos maiores ganhos ao nível do topo da “cadeia de rendimentos”, enquanto parte crescente da classe média se torna média-baixa.

A sucessão de escândalos financeiros e de casos envolvendo políticos, do executivo central aos poderes locais, mima a confiança e alimenta uma descrença que aprofunda um ambiente do “cada um por si” e frustrações que se descarregam na proximidade, em desforço sobre os mais vulneráveis e fracos ou contra quem se encare como podendo servir de bode expiatório. A desorientação dos adultos reflecte-se nos mais novos que perdem pontos de referência ou modelos de conduta ou os têm de uma forma distorcida, que replicam por falta de mecanismos de controle. As escolas apenas acabam por receber no seu interior, o que transborda da sociedade envolvente, em especial nas zonas mais carenciadas e atingidas pela sucessão de “crises” que parecem passar ao lado da cabeças falantes em permanente presença nas televisões. Sim, as “redes sociais” também ajudam à amplificação de alguns fenómenos e indignações , nem sempre muito esclarecidas, mas não são a causa principal. São um sintoma.

Uma desorientação deste tipo, lembro-me de a sentir nos anos finais do cavaquismo (1993-95), quando se percebia que os poucos anos de alguma prosperidade estavam a desaguar num apodrecimento do regime instalado, Os anos que, em matéria de Educação, até levaram ao discurso da “paixão” guterrista e ao período de florescimento de um conjunto de figuras e grupos que por estes dias reflorescem em modo de segunda vaga, repetindo o passado em modo de farsa. Também por esses tempos, mesmo sem redes sociais, se multiplicavam as reportagens sobre indisciplina e violência nas escolas em zonas socialmente mais problemáticas e economicamente à margem da chuva de dinheiros europeus.

Se o rotativismo é um sistema fechado, o das maiorias absolutas ainda o é mais, porque à impunidade dos que estão dentro se junta uma certa erosão moral dos que estão fora e querem entrar a qualquer preço. E se junta a desesperança dos restantes. <e as escolas reflectem isso no seu funcionamento, porque quem lá trabalha também se encontra, na sua maioria, num período de desconfiança, desânimo e desorientação. Porque viram entrar nela muitos dos vícios que, durante umas décadas, se tinham conseguido manter do lado de fora. A mercantilização da Educação, a deriva gestionária economicista, a “fabricação” do sucesso por toos os meios e o desaparecimento dos mecanismos básicos de um funcionamento democrático foram decisivos para que cada vez mais quem está, esteja a olhar para a distância ainda a percorrer até poder sair do túnel e quem entra nem sequer veja qualquer luz nesse mesmo túnel. E todos sentem mais dificuldade em enfrentar a desorientação global e manter a vontade de servir de barreira ao desvario geral, que se agrava a cada debate parlamentar que parece tomado por uma atitude de gozo do lado dos que se sentem donos disto tudo, agora que afastaram alguns daqueles que os criaram em primeiro lugar.

De volta ao início: será que há mais violência nas escolas e ao seu redor? Talvez… mas é bem certo que a desorientação aumentou em todos os que nelas confluem.