Se Tantos (Quase Todos) São Lula…

… porque ganhou ele por apenas 1%?

Se insistirem em esconder as razões da polarização atrás da vitória, daqui a quatro anos terão de volta o que acham ter vencido, mais ou menos utilização abusiva do vocabulário político, que é uma das razões para polarizar ainda mais as coisas. Chamem-lhe mentecapto, ignorante ou estúpido. A parte do “fascista” é mais complicada, porque o verdadeiro fascista depois de ganhar a primeira eleição, não perde mais nenhuma.

Há demasiada gente a dar palmadinhas nas costas de si mesmo e dos amigos (no Público, saiu à rua todo o bicho careta e até os aspirantes) para qualquer análise séria do que se passou e vai passar. Pela manhã, ouvia na TSF dizer a alguém que os pobres iam hoje fazer churrasco e pelo meio até falavam em picanha. Abençoados os pobres que têm um talho sem alarmes na maminha.

Esferográficas Politicamente Correctas

Como é sabido, sou um pitecantropo em termos pedagógicos e de sensibilidade metodológica. Ser neandertal seria um progresso. Por isso, ainda corrijo e classifico testes a vermelho, na maioria das situações, marco certos e errados para horror das pessoas que já evoluíram para a Educação do século XXI. E ainda tenho de fazer algumas coisas em suporte papel e nem me perguntem porque não é tudo digital, que ainda me dá um fanico.

Por isso, preciso de esferográficas vermelhas (as minhas 5 turmas têm 24+23+24+28+27 alunos, salvo erro, com a de 28 a valer por duas por causa da Cidadania nesta primeira metade do ano). Mesmo descontando os abandonos informais recorrentes fico com 115-120 questões de aula/fichas formativas ou fichas sumativas/testes por avaliar, corrigir, classificar, monitorizar, fidebécar, whatever. Isso não vai lá com compras a retalho, implica aquisições por grosso.

Só que não sei se repararam mas as esferográficas vermelhas e a sinalização a vermelho nos materiais produzidos pelos alunos estão sob fogo pesado do politicamente correcto, mesmo quando parte da malta das bandeiras vermelhas. Que não… que o vermelho anatemiza, cria traumas, sinaliza de forma discriminatória o desempenho dos alunos. O que me espanta porque eu marco os certos com a mesma cor dos errados, mas deixemos de parte mais essa incongruência. Concentremo-nos no facto de, por estes dias, ser impossível encontrar um pack ou caixa apenas de esferográficas vermelhas, como antes se encontravam, a par dos packs ou caixas de esferográficas pretas ou azuis. E quando são packs com várias cores, há uma vermelha por cada meia dúzia de azuis, punhados de pretas e uma ou duas verdes. Até nas famosas “lojas do chinês” não se consegue encontrar, como ainda há poucos anos, uma caixinha com dez canetitas da cor da revolução, do benfica e da ferrari.

Hoje, em quase desespero, perguntei à funcionária de uma loja Staples se tinha e ela disse que não. E eu perguntei porquê e ela disse que já não faziam ou pelo menos não aparecem na loja, a menos que sejam umas da bic (empresa fascista, já se vê!) que são carotas; e eu perguntei porquê e ela encolheu os ombros, o que é natural numa rapariga com cara de ter sido minha aluna há muitas luas e não se preocupar com os porquês deste mundo, limitando-se a viver de modo a manter o emprego precário e divertir-se um pouco ao fim de semana, quando tem folga.

Eu percebo e já ouvi mais de uma vez colegas a dizerem coisas más de escrevermos a vermelho nas fichas dos alunos. E elas escrevem com outras cores como o verde, o que, mesmo sendo do Sporting, eu estranho mas até poderia considerar se me dessem uma explicação racional. O que não é o caso. Porque a mesma malta que defende que as notas e classificações resultam de “fabricações” artificiais, acham que as cores trazem consigo, de forma intrínseca, qualidades de tipo moral. Vermelho é mau. Verde é bom. Porquê, fora do futebol? Tudo é uma convenção, uma “fabricação”, mas vós só olhais para um dos lados, logo o do olho vesgo?

Ai… que não podemos traumatizar as crianças. Depende. A minha aluna que teve 99% levou para casa uma folha cheia de obesos certos e parecia feliz. Já quem não fez quase nada, nem errados levou, que eu só tranquei as linhas das não respostas. Não me pareceram nada traumatizados, antes indiferentes.

E quem diz que não devemos traumatizar as crianças? Em regra – tirando aqueles eduqueses alaranjados azuis celestes muito católicos e caridosos, almas em busca de fantasias e asas a planar sobre os prados – são os herdeiros das revoluções bem vermelhas e que agora podem ter rosado, ficado mais lilases ou arcoíris, mas que não conseguem perder a nostalgia da cor da revolução, da cor do progresso, mais ou menos sangue derramado. Que podem agora debitar haikus por todos os poros, que bem sabemos que outrora não lhes afligia qualquer vermelho, incluindo o do tal sangue derramado.

O curioso é que a mim não aflige nada que os alunos escrevam nos cadernos com as cores que bem entendem. Mas muita desta malta a quem o vermelho fere a sensibilidade, obriga a petizada a escrever os seus apontamentos e sumários nas cores mais tristonhas da paleta, porque o azul das canetas só é alegre se for azul bebé ou azul cueca de bebé e esse não é permitido. O que é – penso eu – idiota, porque a flexibilidade quando nasce é para todas as cores e todas as circunstâncias, não apenas para coisas parvas.

Resumindo, tive de comprar um pack de dez esferográficas para ter uma vermelha, uma meio rosada (sempre que a olho lembro-me dos costas) e outra fúchsia ou talvez antes violeta (que me faz logo lembrar a malta do bloco dos pedabobos). aquilo só vai dar para duas turmas… e lá terei de ir comprar à unidade ou então tenho de usar a verde, a lilás, a amarela e laranja, mas depois ainda dizem que sou de direita e agora não me apetece, porque amanhã é feriado e acabei de dar gomas em forma de abóbora a umas crianças que me bateram à porta e as abóboras são alaranjadas.

E a modos que é assim.