Desmemória

A colega em causa que me desculpe, porque não a vou identificar, mas, ontem, numa mensagem privada no fbook, alguém me mandava um texto em que se apelava à memória de 2008 e mais umas coisas que achei um pouco a despropósito, sobre como dinamizar movimentações à imagem do sindicalismo convencional porque eu me lembro bem de 2008. Claro que ninguém é obrigado a lembrar-se, se lá não esteve, se na altura tinha outras prioridades, se ainda não dava aulas ou estava em algum casulo protegido. Ainda me lembro de alguém que passou como cometa na blogosfera que me respondia sempre “ahhh… isso não é do meu tempo”, quando eu lhe chamava a atenção para a redundância de algumas posições em relação não só ao que se passou em 2008, mas mesmo em 2003, nos tempos do Justino, ou em 2000 (e antes) com a gestão flexível do currículo.

Desta vez, com a maior candura, alguém me escreve “Paulo, só hoje tive conhecimento destes Movimentos (APEDE, PROMOVA, etc) por uma fonte fidedigna.”

Mas a que ponto chegou o desconhecimento do passado, não assim tão remoto das lutas dos professores nos últimos 15 anos, para não ir mais longe?

Esse desconhecimento é crítico porque se podem voltar a cometer erros desnecessários (a infiltração de “submarinos” em certas organizações) ou a não se aprender com experiências que falharam ou não são replicáveis no presente. Quando os próprios professores, que querem dinamizar uma nova vaga de contestação revelam desconhecer o que se passou há 14-15 anos, como se tudo tivesse começado no “seu tempo” é como eu aparecer e dizer que não faço ideia do que foi a “gestão democrática das escolas” ou os debates em torno da Lei de Bases do Sistema Educativo, da origem histórica do ECD ou mesmo de coisas já inclusivas como o mítico – e tão simples – “319”, que a malta “velha” recordará, mas nada significa para milhares e milhares de docentes mergulhados no “54” ou, no limite, a “lei 3/2008”.

Um dos grandes problemas que vejo na “preparação da luta” é algo paralelo ao que se passa quando se pretende que os alunos “construam o seu saber” a cada nova formada, como se antes nada existisse, em cima do que podemos construir algo novo e mais avançado, em vez de repetirmos caminhos.

Sobre a memória de 2008 já escrevi na altura e depois. Não me apetece estar sempre de volta ao que deveriam ser outros a tentar saber, antes de falarem do que não partilharam para – repito – evitar erros passados.

Em 2022 ou 2023 gostaria que fossem construídas novas memórias e, se possível, com maior sucesso, porque ninguém que por lá andou – tirando os representantes inoxidáveis do regime que são quase todos os mesmos – acha que o saldo de 2008 e 2009 foi um grande sucesso. É perguntar ao António (Ferreira), ao Mário (Machaqueiro), ao Ilídio (Trindade), ao Ricardo (Silva), ao Octávio (Gonçalves), para nomear apenas alguns cujo papel muito importante parece já ter sido esquecidos na voragem do tempo médio, nem sequer do tempo longo.

O que talvez sirva a quem tanto se tem esforçado por apagar a memória do que efectivamente se passou. Não apenas na classe política.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.