Memórias

À conta de uma conversa paralela, recordei-me de algo com uma dezena de anos. De todo o livrinho e do meu prefácio, cujo conteúdo continuo a subscrever sem reservas.

AS NOVAS ESCOLAS

(…) Os defensores de cada nova tese, teoria ou, nos casos mais ousados, paradigma, aparecem como legitimamente convencidos de terem encontrado receitas infalíveis para a resolução da maioria, quando não a totalidade, dos problemas e bloqueios detectados de forma recorrente no nosso sistema educativo e, por isso mesmo, com a aspiração de a sua receita ser aplicada e rapidamente generalizada. Não é raro ouvirmos falar na necessidade premente de um “novo paradigma”, sendo o passado apresentado como uma sucessão de erros, fracassos, actos falhados, paradigmas arcaicos e anquilosantes. Para promover esse novo paradigma, colhem-se exemplos “de sucesso” no exterior e põe-se em prática uma estratégia de conquista do poder ou de posições relevantes no aparato político-administrativo com poder decisório na área da Educação. Organizam-se grupos de pressão, procuram seduzir-se os decisores (ou substituí-los) e a opinião pública com um conjunto de “evidências”.

Este processo aplica-se tanto a aspectos pedagógicos como organizacionais, não desprezando a própria estruturação curricular e o tipo de ofertas educativas. Determinados por princípios mais filosóficos ou mais economicistas, tais paradigmas prometem sempre o melhor dos mundos ou, pelo menos, um mundo incomparavelmente melhor do que aquele que existe, apostando no carácter apelativo da utopia.

(…) Perante estas dúvidas, estes resultados ambíguos, estaremos condenados de forma inapelável a não avançar na direcção certa? A ficarmos imobilizados e estagnados, à espera da solução ideal com todos os parâmetros certos? A não ousar a mudança, a inovação, com receio do erro?

Não necessariamente. Estamos é avisados quanto aos obstáculos que é necessário remover para que avancemos com um mínimo de segurança, quanto aos erros cometidos por outros, e principalmente estamos mais do que alertados quanto aos erros em que somos reincidentes e que nos habituámos a lamentar a posteriori, sem que alguma vez alguém seja responsabilizado. E esses erros passam, em muitos casos, por uma utilização parcelar da informação disponível e pela adopção de soluções em que se ocultam os aspectos negativos.

7 opiniões sobre “Memórias

  1. Já não me lembro bem. Contaram-me uma história, talvez do Mário Saa, a falar para um escritor, cujo nome não me recordo. Só me lembro que terminava um a dizer para o outro: «Porra! Tu és inteligente!»

    🙂

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  2. As diferentes correntes de pedagogia não são evidências científicas mas sim resultantes de correntes filosoficas, sociológicas e políticas. Cada uma tem pós e contras. Umas funcionam num determinado contexto mas são ineficazes noutros contextos. A aplicação fundamentalista de uma corrente pedagógica pode levar a resultados catastróficos. Cabe a nós professores, conhecedores das diversas correntes, aplicá-las com a dose devida de acordo com o contexto do dia a dia com os alunos. Somente a experiência nos leva a refinar o processo de ensino, bebendo aqui e acolá às diferentes correntes pedagógicas.
    Porém, neste momento, nomeadamente nos paises ocidentais, estamos a viver uma onda construtivista à la carte, que descura o conhecimento cientifico.
    Os naifs da esquerda, com uma ingenuidade confrangedora, defensores desta nova escola, não sabem que os neoliberais agradecem. Lá vem o velho ditado chinês, ensine um homem a pescar e ele se alimentará por toda a vida.
    Já agora gostava de saber aos que defendem somente o ensino por projetos experimentais, se gostariam aprender paraquedismo sem um instrutor?

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    1. Subscrevo. É usada argumentação infundada de que “foram feitos estudos que mostraram…” para justificar a aplicação exclusiva de uma teoria pedagógica; quando esses estudos são analisados pelo crivo do modelo cientifico, revelam insuficiências que impedem de postular a aplicação em qualquer contexto.

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  3. Sempre defendi publicamente que é insultuoso para a inteligência de que trabalha no ensino a designação “ciências da educação”. Não têm nada de científico, são teorias, sistematicamente convertidas em doutrinas, seguidas por um conjunto de acólitos convencidos que viram a luz.

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  4. … e impostas à força sem estudos prévio… e continuando em vigor, à força…, sem uma avaliação séria e independente da sua eficácia e dos seus resultados…, quase sempre contra a opinião abalizada de quem conhece, de facto, pela experiência diária, a realidade das escolas, das salas de aula e dos alunos!…

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  5. Não sendo entendida em projetos, mas tendo participado em alguns e visto muitos outros a passar para “inglês ver” ou para “encher chouriços” e justificar o dinheiro despendido, o que me parece é que, em Portugal, não há uma visão alargada do conjunto da realidade do país, prevendo as diferenças e variáveis de cada região ou público alvo, e tão pouco a longo prazo. Os projetos, incluindo os da Educação, parece terem como objetivo o tapar buracos localizados e pontuais, rapidamente, remendando e remediando o que já nasceu torto, mas que acabam por custar muitas vezes mais aos contribuintes e comprometendo a educação e formação de muitas e muitas gerações. Sendo remendos arrancados de outras roupagens, e que por isso não se adequam a todas, ao fim de algum tempo acabam por ser largados e abandonados juntamente com as roupas onde foram costurados. Entretanto, foram gastos recursos e energias de forma descontrolada e sem que tenha sequer havido tempo para que fossem rentabilizados e avaliados os resultados, quer os bons, quer os maus. É como construir uma autoestrada em cima de uma via rápida (esta tinha sido construída com muitos erros, tornando-a perigosa), incluindo ainda um inusitado troço paralelo, ao invés de ter sido adequadamente projetada para aquele traçado específico. Para além de ter sido gasto dinheiro duas vezes, ainda foi cobrada uma portagem para uma autoestrada que na realidade não o é.
    O que resulta em alguns casos não significa que resulte para todos, como se fosse “tudo ao monte e fé em deus”, “meia bola e força”, e depois logo se verá. Lembro-me dos projetos das famosas áreas de projeto, formação cívica e estudo acompanhado, por exemplo. Lembro-me de ter havido uma parafernália de interpretações, e de confusões, por não se saber do que realmente se tratava. Não houve, previamente, qualquer formação para os professores. Essa foi chegando depois, em catadupa, e foi tal o reboliço da corrida e da azáfama que, durante alguns anos, os professores fizeram muitas horas extraordinárias em formações acreditadas e reuniões aturadas, e os livreiros ganharam muito dinheiro com as sucessivas edições de literatura sobre o assunto. E para quê? Ao fim de meia dúzia de anos, sem ter havido lugar à avaliação dos resultados, das vantagens e desvantagens, quem tinha decidido que seria uma prática inovadora e um “novo paradigma”, acabou por abandonar a costura e deixar as roupas remendadas no baú das memórias, no sótão da Educação.

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