Já É Dado Como Adquirido

Recrutamento de professores – Perguntas & Respostas

Todo este texto é baseado no que está explicitado na publicação oficial acima linkada. Não venham pois os cartilheiros costistas dizer que a coisa é falsa. Isso agasta-me 😀 .Em relação ao que tem sido discutido publicamente, a partir de outros documentos do ME existem ali pelo meio umas travagens e mudanças de rumo, mas com muita ponta solta em questões como a 3 e a 4, mas não só.

Repare-se…“Em regra, a abertura de vagas será em lugares de escola e não em áreas geográficas de grande dimensão como acontece agora nos atuais QZP,.” Isto não significa a não abertura de vagas em outros formatos. O tamanho dos qzp é relevante, mas não é bem isso que está em causa.

Outro pormenor “a ocupação de um lugar de quadro teve e terá sempre como primeiro critério a graduação profissional do professor”. Note-se que não se diz que tipo de “quadro” é. É um lugar do “quadro” de professores, não sendo necessariamente a colocação no quadro de uma escola ou agrupamento.

E se voltarmos ao ponto 2, percebe-se que mesmo que um lugar esteja 3 anos a ser ocupado em sucessivas substituições, isso não levará a qualquer abertura de vaga, a menos que seja colocação logo no inicio do ano lectivo. Basta mandarem atribuir, como este ano, horários a quem está de baixa prolongada, para quebrar a sucessão dos anos. “Serão criados lugares de quadro após 3 anos sucessivos de recurso a professores que não pertencem ao quadro da escola e que não estão em substituição para preenchimento de um horário”.

A leitura do ponto 5 só poderá ser tranquilizadora se não lermos o ponto 9.

Ou seja… “Todos os professores que não queiram mudar de escola mantêm o direito de continuar com os seus [sic] alunos”, mas Os professores que não tenham alunos numa escola serão colocados numa escola próxima onde sejam necessários”. A formulação “seus alunos” é muito duvidosa, pois desaparece a menção a turmas e horários. E, como sabemos, o desaparecimento de componente lectiva pode acontecer de variadas formas, com rearranjos da carga horária, do currículo ou – não o esqueçamos – a passagem de alunos e turmas para “projectos” específicos que impliquem um determinado “perfil” aos docentes.

Quando se afirma que “ninguém perde o vínculo e nenhum professor de quadro de escola é obrigado a ir a concurso” deve perceber-se que é só mesmo o vínculo contratual que não se perde, porque nada se diz acerca do local de trabalho, que surge como estando desligado do vínculo. O professor é “do quadro”, vinculado pelo Ministério da Educação, não necessariamente a uma escola ou agrupamento e o facto de não ser obrigado a ir a concurso, não quer dizer que não tenha de ir para outra escola, por determinação administrativa da sua direcção ou por conveniência da “autonomia das escolas”, como se verá mais adiante.

Há aqui uma enorme zona cinzenta que só se percebe quando ligamos o que aparece aparentemente disperso nestas explicações. Veja-se o ponto 10: “Pretende-se que a gestão dos recursos docentes já colocados numa área geográfica possa contar com a participação das direções das escolas e que, para funções e projetos específicos, se possa melhorar a autonomia das escolas”. Haverá colegas contratados que acharão que este é o caminho para entrarem para os quadros e ficarem numa escola, mas então devem perceber que isso pode não ser assim e se torne regra a necessidade de andar de escola em escola para ter horário completo, não me parecendo que seja de excluir que isso se passe mesmo com quem esteja em qzp: Pretende-se ainda que as escolas articulem as suas contratações, tendo em vista, quando possível, o lançamento agregado de necessidades, já organizadas em horários completos e compatíveis.”

Resumindo e desbaralhando… estas “perguntas e respostas” não são tranquilizadoras porque: a) dão por adquirido o novo modelo de recrutamento, aparecendo como algo decidido, para além de qualquer negociação; b) continuam a manter zonas cinzentas, em que num lado se diz uma coisa que, mais adiante se pode transformar em outra; c) piscam o olho às direcções com maior “autonomia” (eu ainda me lembro de terem querido reduzir destacamentos e requisições, porque achavam que estavam a ser usadas de forma abusiva nos antigos teip), para que, em nome das “escolas”, concordem que assim “é melhor para os alunos” e que quem se opuser está contra a “melhoria” do modelo de colocação de professores, como se isto criasse mais lugares onde eles faltam (e não abrirão vagas mesmo que sejam lugares ocupados anos a fio em substituições de pessoas que, ao fim de algum tempo, são mandas por 30 dias para as escolas pelas juntas médicas) e fizesse nascer professores onde faltam, sem que se lhes melhore as condições de trabalho.

Em conjunto com a conferência de imprensa do agastado ministro, assim como com a sua ampliação pelos cartilheiros mais indefectíveis, isto dá a perfeita sensação de se querer abrir a nesga de uma porta que mais tarde poderá ser escancarada. Foi desta maneira que muito desmando começou… é só um bocadinho… e… nove meses depois…

33 opiniões sobre “Já É Dado Como Adquirido

  1. as (poucas) dúvidas serão dissipadas quando se divulgar o projeto-lei…
    a maioria absoluta com a versão 2.0 do governo 2005-2009, já está em ação…

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  2. A prova do CRIME: “um lugar de quadro teve e terá sempre como primeiro critério a graduação profissional do professor”. Está EXPLÍCITO que EXISTIRÃO OUTROS e nem sequer se afirma que a graduação profissional será o de maior peso percentual!!!! Se não acordarem deverão começar já a lamber já a lamber o cu dos diretores…
    Bem, há uns quantos que já o fazem…

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    1. Então somos dois (duas?). Com tanta reclamação que tenho vindo a fazer…põem-me a “mexer” num instante. Embora daqui a 4 anos me ponha eu, a “mexer”. Vamos ver se lá chego!
      @s grax@s, já se mexem de há uns anos a esta parte, pois têm crédito horário para tudo e pouco fazem…salvo os projetos da treta! Preparam a cama do futuro
      @s acomodad@s , que são a maioria no meu agrupamento, não sabem nada de nada do que se passa com as alterações previstas.
      Estou cada vez mais fart@ de lidar com gente ignorante , no que respeita à nossa carreira.

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    1. E os outros ficam parados…só mandam esclarecimentos cá para fora por se sentirem ofendidos (e bem) por serem chamados de mentirosos, mas ações de luta a sério, com impacto ZERO!

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  3. Vindo de um Partido que é um antro de corrupção!
    E a FNE e a Fenprof?
    Sindicatos vendidos ao sistema, outro antro…
    Não abram a Pestana que não é preciso!
    Mas os professores ainda votam nestes cabrões fascistas?

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  4. Desculpas aceites. É obviamente seu direito cortar os colchões, caso queira ir or aí. Só uma pequena questão, o Pestana foi lapso ou era mensagem subliminar?

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  5. Só não vai embora quem de todo não puder. Como irão resolver, em particular, o problema do secundário, que habitualmente é atribuido a professores com mais experiência e, onde já há professores em falta, nomeadamente em disciplinas de exame?

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  6. Tudo muito certo, e já todos sabemos o que muitos pensam e outros não, e ainda quem nem sequer pense, só obedeça. Por isso, chega de reclamações e autoflagelações! Se chegámos a este estado de coisas, também foi por nossa culpa. E que tal agir e fazer a barraca abanar de vez? Greve dia 9, e por tempo indeterminado, é mesmo o melhor remédio. Ou preferem continuar a permitir os abusos e as humilhações do ME e reagir apenas com choros e lamentos? Eles gostam é disso!
    Vamos perder dinheiro? Claro que sim, mas comparado com todo e tudo o que temos vindo a perder há anos, incluindo a dignidade, e agora este golpe traiçoeiro, esta facada nas costas, não vos parece que vale a pena?

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    1. Greve no dia 9, após um feriado que, por acaso, é numa quinta-feira? Desse modo, quarta-feira de manhã a maior parte já poderá ir de fim-de-semana. É com greves assim, tão convenientemente calendarizadas, que querem que nos levem a sério? Marque-se, sim, uma greve, mas numa quarta-feira de uma semana em que não haja feriados. E quem adere à greve, vai para a escola e cumpre lá esse seu direito. Greve não é folga! Greve é no local de trabalho, não no café!

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        1. A greve tem fundamentos e objetivos concretos, e acima de tudo, em democracia, é um direito de todos, e não um privilégio ou uma regalia dada. É uma das mais importantes formas de protesto e de reivindicação dos direitos e liberdades de quem trabalha. Seja em que dia for, ninguém é obrigado a fazer ou a não fazer greve, mas só adere a uma greve quem se identifica com o que ela significa, e por respeito a si próprio e aos outros, e quando o faz, sabe que há sempre perda de vencimento, seja lá em que dia for.

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  7. Revolta!
    Asco!
    Se alguém, alguma vez, imaginou que a rasteirada autocrática chegasse a isto! E anda-se na escola a ensinar o respeito pelos procedimentos democráticos tendo-se criado propositadamente uma coisa curricular chamada Cida dania!!!
    O requinte da malvadez!
    A falta de H grande na palavra homem!!!

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  8. É engraçado, agora todos reclamam mas os PS ganhou com maioria e com toda a certeza com muitos votos dos professores que têm memória curta e só olham para o seu umbigo.
    A maioria continua a sustentar os sindicatos que nada fazem e assim vão continuar. Ou somos nós professores a arregaçar as mangas, por os pés ao caminho e mostrar de que somos feitos ou então tudo o que está previsto vai mesmo acontecer.
    Eu já ando nisto há muitos anos, já assisti a muitas mudanças na carreira, mas está é a que vai acabar com a carreira de professor de muita gente se não formos nós próprios a tomar as rédeas e lutar para que o senhor ministro leve o seu barco a bom porto.

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  9. E o que dizer do ponto 8 – mobilidade interna só nos anos de concurso interno? Se a necessidade não se mantiver, o docente tem de regressar à escola de provimento, não tendo hipótese de concorrer para tentar ficar mais perto. E assim, começa o efeito dominó…

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  10. 20 anos de contratos sem conseguir a norma travão, não vou passar de contratado. Iniciei a carreira com 30 anos, já tenho 50 anos e não passo de contratado.

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